Infidelidade e descentralização

breviário de pornografia esquisotrans

Fabiane Borges

Hilan Bensusan

& convidadas
 

Toda a brancura da areia junto com o verde e o azul do rio, uns pingos de neurose edipiana e confissões solícitas acompanhadas de girlie drinks, os temores trêmulos dos dedos no teclado do laptop, as pequenas ilhazinhas de areia do pensamento confinado. Ele próprio ilha, o pensamento, estendendo-se feito bracinhos para alcançar o outro lado, bracinhos de ponte. O outro lado usava três tornozeleiras, cabeça esguia como um flamboyant com a consciência de cada uma de suas flores no dia mais seco do ano, o outro lado molhado e apoiando os pés na areia, as mãos espalmadas na praia e o quadril levantando e abaixando como uma versão acelerada das marés que enchem o rio de sal, o rio que o põe para fora – o areal precisa de um dia inteiro, os bracinhos levantavam o torso em poucos segundos infiéis; era um desejo de infidelidade naqueles movimentos ondulatórios ou era apenas um jeito manhoso de bolinar o vento sem parar de respirar?  Não se tratavam de braços nem de pontes, era o bolinar que estava em jogo. 

O lançar-se era um assassinato diário, que treinava junto aos seus 150 abdominais. Assassinava as etapas como uma serial killer altiva, sem escrúpulo e cheia de vícios, de hábitos de subir em coqueiros cumpridos e arrancar o triunfo verde. Nem dragão nem serpente no braço, talvez a coceira do piolho enjoado da cabeleira gorda, que fez morada na linha obscura do cotovelo. Ali guardava o tic da presença e da saudade da leoa. Poli-tic de leoas a toda, cavalas soltas domesticadas apenas nos descampados onde param e tremem e soltam seus abdominais com grunhidos, estridentes, foscos, guturais, berros do diafragma cheio de fumaça amarela de ervas gratinadas, preparadas para matar uma vida a cada dia, as vidas doentias, as vidas que não adiavam nada, as vidas que enchiam as outras vidas de obediência de vida. Ela arranhava ralava os ossos no chão e pulava de uma só vez imitando o ianomâmi que, longe dos olhos organizados, não-governamentais, testemunhas, lhe tirou uma casquinha servindo-lhe de banco para que ela lhe sentasse arregaçada; ainda que dela ele não tenha tirado nenhuma roupa, alimentou cinco das suas pulsões desgovernadas. Um barulho, um barulho, uma rola, um entulho, uma sapa articulada e frouxa.


 

 

Não havia como negar sua incongruente falta de estilo métrico, tinha a disritmia como pressuposto endérmico. Ladrava feito gato gago ao dizer mi-au…  sentia a angústia no meio da pupila dos olhos, era nesse redondo preto que sentia a infiniteza de Spinoza que dizia que a memória não é um dote do atributo da mente – talvez uma potência dos corpos que colaborava para o  sal grudar pela pele que guarda em cada grão-poro uma semente de nostalgia; na pele abaixo dos seus pentelhos nunca raspados aqueles gritinhos rápidos e constantes, sua voz feita de minaretes alcançando os agudos.

Uma vez, em Taxim, entre duas mesquitas o homem foi comprar cuecas e esbarraram em um pátio onde a voz do muazín ali ao lado estava gravada em fitas cassetes – aquele homem que já tirou piolhos do cotovelo estava com o senhor Kusku que lhe implorou: não escute esta música jamais enquanto você estiver fazendo amor. Ou não faça amor.

 

O medo do homem cresceu preto como cachimbo de cipó. Furava-se em devaneios persecutórios alimentando dessa forma, sua sensibilidade para a escrita. A escrita seu refúgio e sua ponte. No mais cantarolava uma cantiga antiga sionista e obsoleta. Como pensador preparava a rede para o corpo repousar, e assustava-se com a cotidianidade da neurose, meio esquizo meio paranóide; essas denominações todas da descentralização. Tirar o centro da cabeça, do distrito federal, das grandiosas neuroses …  Deveria haver outro modo, outra insígnia, o noise tinha harmonia? É disso que estamos falando? Provavelmente não, o assunto é infidelidade. A belezura da criança brincando com a mãe gorda com a barriga cortada e um pai esguio mentindo felicidade atraiam em nada o bolinar das teclas. A promessinha fracassada do núcleo parental lhe doía a menina do olho.

Ela, a cadela de lábios grandes, grossos, absolvente todo mês, seios que entumecem de frio, racha e toda aquela buraqueira no meio da horta, as vezes colhida e raspada – soltava umas palavras deselegantes e queria o fora, queria muito fora, quem precisa de fazedores de verdade? Cadê eles, já foram feitos? Ela não queria adequar, e eles pediam do alto de um pedestal feito de pelanca da nuca rebaixada fluminense das massas correndo atrás da macaxeira mais barata, eles pediam com ordens do dia: adecue, deságüe em nós, evacue sua frasezinha solta e adecue – não adianta patois, não tente fugir dos fatos com palavras sem ordem, sua betamax sem lente de milímetros, bête noir e querendo ser toda site specific; pessoa ardente, engula o que você chupou, a cabeça foi feita para copiar as reentrâncias e as protuberâncias dos corpos e da areia, com a boca sempre pronta para fechar. E ela, nada disso, sentia umas mãos feitas de cinco dedos intrusos sobre a pele que cobre seus órgãos vitais, sobre seus ombros lambuzados de um creme que bronzeia o sol e protege do sol, e as mãos desciam e apertavam-lhe vísceras e ela apertava os botões O. N. G.,  O. N. G.,  O. N. G.,  O. N. G.,  O. N. G.,  O. N. G.,

 

As esperanças da humanidade nesta fase tardia do capitalismo tardio – sempre atrasado – estavam em alguma O. N. G. que vai chegar e nos livrar das mãos intrusas, despertar os mortos do monte de oliveira, dar uma martelada em uma cúpula dourada fora do lugar e trazer a paz para nossas barrigas. E a O. N. G não vem, a O. N. G nem telefona. Um gole de whisky com cocacola. Põe, põe, põe os dedos no teclado e solta.

Mas as ternuras além de escarros são também pontudas flechas que caçam as vontades de subida. E sobe crente e dócil a duna de areia e depois atira-se nos pequenos amontoados de chuva. Escolhe-se a água conforme a boa vontade e o preço. O pianista insiste na melódica de beethoven enquanto rouba os sons de tudo que lhe soa bem. Ladrão de sons e sonhos.

Quando deixamos discorrer sobre infidelidades aparecem jorrados nos ladrilhos os ladrões, pelo menos um ladrão de sonho, bate do bolso de trás do amante querendo estar alegre com o boi umas quarenta palavras e seus adereços, ele geme outra vez seus sonhos descritos definidamente em um boletim de ocorrência no meio da noite no maranhão – era o acordeão da Dona Cândida, bebendo whisky com cocacola.

Eu apenas beijei a boca de um fato ardido, coloquei a língua toda cheia de falta de sonho dentro de sua boca, e grudei nos seus lábios como quando caçamos homem, mulher e javali e beijamos para fazer da vida, comida. Sou apenas um pedaço de lua devorado por um leão com minha boca inteira colada naquele fato maciço, macio de lábios, mastrodonte nos meus dentes e eu lambendo toda aquela gengiva aberta com uma felicidade mentida, que fatos feitos de argila seca não podem suportar, eles racham; mas o fato desmilinguia quando eu subitamente largava sua boca e estalava os meus grande lábios caídos.  A pele da Dona Cândida é cheia de poros e tem uma mordida na nádega direita que ela deitou com o fato, mas não dormiu com o diabo. Sabe por que é que a guria que tem medo de ter medo do mar vê o filme do Filisberto doze vezes?

Lá no squat, nos tempos em que ela se sentia uma Xuxa entre os desabrigados, gritava o que mais podemos fazer e cortava com culhões os grilhões com os dentes caninos, ela derramou meio litro de sexo com xarope de hortelã, acidentalmente nas pernas grossas da mulher do empresário que gozou antes dela – muitas pessoas foram desalojadas ao som de uma opera que se ouve apenas com o clitóris. Mas a foca grande que já botou medo na Patrícia Finagaev saiu assobiando uma escuridão. Em qualquer parede de tijolo ela repousa a cabeça, ela quer se entregar quando amanhecer e virar um feto. Seria como uma garota jogando descentralizadamente confetes e infidelidades. Não, você não vai chegar ao fim disto, o fim de uma mistura de palavras desdonadas é feita de eu não devo nada a você, uma mordida na jugular que nunca desejou bocas perto – elas ofegam, elas babam, elas chupam – descentralize a corja toda e comece com teus primos, teus tios, teus pintos, teus filhos, teus pavorzinhos secretos, teus ossos, teus velhos slogans cheios de exageros, teus seios que chegam antes do resto de você, teus desejos prontos para serem alcançados com nuas mãos feitas de aço inoxidável; eles escapam pelo meio dos teus dedos, os dedos que eles usaram para entrar naquele quarto no meio da noite e as mãos coçando o queixo caçoando de queixas se arrastaram para perto das pernas grossas da esposa de outro homem e arremessou a boca contra ela como quem beijasse um fazedor de verdades. Perdão. Nada de centro, a esposa é só uma esposa – todo mundo é esposa, todo mundo é esposa cheia de curiosidade incontrolável por todos os homens que não são marido e nenhum homem é só marido. Um pequeno pássaro ocupa teus tímpanos depois da chuva cair, canivetes. Longa espera por um centro – três meninas que cresceram, todas com sardas e todas casadas. Você não vai enfiar esta carta na caixa de correio. Coma só a sobremesa, coma somente a cereja.

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