Esquizo vs Trans? (Do diplô esta semana)

Vesículas, assembléias, clavículas, autoridades, cutículas, ancas, palanques, clitóris, lucidez. Essa justaposição desorienta. Parece que a política fica umbigocêntrica, que o corpo fica ralo de materialidade. Será que são as amareladas idéias de que corpos são pré-políticos que nos deixam com essa impressão? De todo modo, políticas esquizotrans não são políticas de corpos prontos – nem de políticas prontas. Nossos corpos e nossas políticas são feitas de justaposições; e de interdições de justaposições. A biopolítica da intersexualidade – que corpos com genitália que não é claramente masculina ou feminina podem continuar vivos sem órgãos definidos –, por exemplo, não é apenas a disputa pela inteligibilidade dos corpos; é também a batalha pela autonomia de justapor. Encontrar política no corpo é pensá-lo como um sintoma dos desejos (das partículas de subjetividade), como uma vitrine dos produtos dos dispositivos de fazer certos tipos de gente (fazendo coisas como matrizes de inteligibilidade), como um terreno em disputa da evolução natural e artificial das espécies (que deixa pistas pelo genoma). Justapor corpo e política é contaminar o corpo de política – ele vira um palanque – e embrenhar a política das potências (e dos limites de velocidade) dos corpos. O corpo disciplinado, o corpo doente, o corpo mutilado, o corpo em êxtase são palanques porque são plataformas a partir das quais os desejos fazem campanha (não fazem campanha eleitoral, fazem campanha infecciosa). Também assim o corpo sexuado, inserido em uma bipolaridade, embrenhado das normas de gênero ou constituído pelas artimanhas inatas e adquiridas da diferença sexual.

— Doutor, quantas vezes uma pessoa pode mudar de sexo?

— Olhe, eu não sou a pessoa mais adequada para responder a sua pergunta, porque há mais de 22 anos eu venho me recusando a participar de qualquer procedimento de normalização sexual de recém-nascidos. Eu simplesmente deixo a genitália como ela nasceu. Outro dia encontrei uma menina de 15 anos com sua mãe na praia. A mãe me reconheceu: eu era o chefe da equipe no hospital em que ela fez o parto. Eu olhei para a menina, que vestia um bikini azul, e não pude parar de pensar no que havia dentro da parte debaixo daquele biquíni.

— O que havia?

— Tudo.

Judith Butler [1], em um livro que marcou uma época há 18 anos, exalou uma certa fragrância de política pós-corporal. Nas entrelinhas de Butler de Gender Troubles (1990), ela apresentava a inteligibilidade dos corpos em termos de sua capacidade para alguma performance e, assim, podia ser que os corpos tivessem deixado de importar. Ou seja, podia ser que o gênero, com todo o seu ímpeto normativo, tornasse irrelevante os contornos (materiais, demasiado materiais) dos corpos. Butler recentemente confessou que sempre que tenta falar do corpo, acaba tratando da linguagem (Undoing Gender, 2004, p. 198). Ela torce o foco da materialidade do sexo para a sexualidade da matéria, Há manivelas o suficiente em sua engrenagem para mover esse guindaste. Porém fica a fragrância: não seriam estes corpos irreverentemente descolados dos órgãos genitais – irrelevantes? Pensemos agora no esquizo: fugido da organicidade do corpo, solto dos órgãos, preso apenas a um corpo sem inteligibilidade. E eis o contraste.

— Para que você quer fazer uma operação de mudança de sexo? O sexo não importa mais, seja um sujeito lesbiano (ou invente sua performance sexual a cada dia, ou trate seu corpo como se ele não tivesse órgãos).

— Ah?

Consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória

Trans versus esquizo. A política sexual dos cyborgs da diferença sexual de um lado e a política sexual dos corpos múltiplos, rarefeitos, quase epifenomênicos. Em Em busca do que é trans, falamos dos problemas em tratar com um doutor Grinder que recusa a colocar seu bisturi a serviço de uma trans-inter. Ele talvez estivesse a serviço da ordem estabelecida de gênero. Mas a paciente: ela trans, ela esquizo. Para ser nada, às vezes precisamos ser tudo – era uma de suas maneiras de criar para si um corpo sem órgãos: criar para si um corpo com órgãos demais. Porém, nossa personagem não é apenas uma ficção trans de uma esquizo ou uma divagação esquizo acerca do desejo trans?

Parece uma tensão familiar: o projeto político dos corpos sem sexo (a matéria liquidificada em política) e o desejo de ter um corpo com outro sexo. [2] Nos movemos por essa tensão muito freqüentemente, e aqui as nuances dão o tom das escolhas. E consideramos a coragem política de quem quer pular a cerquinha da identidade pré-fabricada que lhe foi atribuída. Quem é trans percorre o impensado, o abjeto da heterossexualidade compulsória. Ninguém nasce mulher (ou homem), torna-se, mas em um percurso assim atravessa-se o inaudito do fascismo: o trânsito, os subterrâneos da ordem. Andréa Stefani, colunista da Tribuna do Brasil, por exemplo, conta que o mero exercício de um cross-dressing eventual, já faz atravessar pelo menos a epiderme de alguns mecanismos dos desejos. Ocupando o espaço que as transsexuais percorrem (ou inspiradas pelas horas em que Flávio de Carvalho caminhou pelas ruas de São Paulo de saia e meia-calça) surgem pessoas transgênero, trans, travestidas, espécies de Orlans da genitália que querem transitar, fazer um ninho no meio do trânsito, querendo tudo ou quase tudo.

— Ah? É isso que eu quero. Teu projeto político vai determinar o que eu posso e o que eu não posso querer? Graças a mim outras pessoas podem querer levar isso mais a fundo e desmaterializar-se exatamente na velocidade da minha trans–formação? Experimentar algumas mudanças de função dos órgãos? Experimentar ter um pinto e uma cona cunhado no coração? Eu, por enquanto, quero apenas transitar: atravessar a rua e ficar do outro lado.

A tensão esquizo X trans também é reminiscente do contraste entre dois tipos de projetos feministas já clássicos e que ainda marcam as interações em torno da querela da diferença sexual. O esforço para desencavar uma escritura feminina era um esforço por pensar de uma maneira própria das mulheres. A tradição em torno da écriture féminine tenta afirmar a diferença sexual: é preciso que a mulher deixe ser tomada como a outra do homem, ela é antes aquilo para o que não há espaço em um regime falocêntrico. Luce Irigaray [3] propôs uma heterossexualidade radical; onde o hetero é radical, a diferença sexual não é pensada desde nenhum dos lados, mas como uma diferença. A diferença sexual não é uma oposição sexual, mas uma alteridade – o projeto político de encontrar as mulheres sob os escombros do papel de outras dos homens. Uma vez afirmada a diferença sexual – não composta de pares opostos, mas ainda de pares – uma pessoa pode ir de um pólo a outro, talvez mesmo ficar no meio entre esses pólos. Os pólos não são nem um sucursal do outro e nem um satélite na órbita de outro: apenas diferença sem hierarquia.

Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais de binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão:

O contraste é com um projeto como aquele que foi proposto por Monique Wittig (que, para nossos propósitos está próximo do projeto de Butler). Wittig propõe que sejamos todas (e todos) lesbianas: que transformemos nossa erótica de modo que ela não seja mais uma erótica da binariedade. Trata-se do lado esquizo na nossa tensão: ao invés de cuidar dos órgãos, pense seu corpo como independente deles. Seja lésbica com a trosoba, faça ela entrar em um devir antifálico, em um processo de clitorização.

Não escolhemos um projeto, não temos que escolher. Podemos jogar na coluna do meio: a coluna do meio é a coluna de quem não terminou de atravessar a rua, de quem está em transição — a matéria-prima, tia e sobrinhos de toda política. Queremos abrir uma picada para que quem queira possa fugir dos fascismos do momento. Todas as partes de qualquer todo tem algum direito de escapar. Políticas esquizotrans são políticas das exceções.

A menina do biquíni azul nasceu com tudo, a operação não aconteceu porque a médica se encantou com o pênis por vir, que segurou com suas mãos e, vendo naquelas carnes minúsculas uma pica grossa como a do enfermeiro que trabalhava ao lado e dormia com ela no meio da semana, decidiu deixar a menina como estava. Nada, ninguém iria colocar em questão a sua reputação — deixa a pica lá, chamemos a menina uma menina. E ela cresceu, o biquíni azul flutuando com suas costas no rio que leva ao mar. Quando uma onda faz a parte de baixo do biquíni descer um pouco de seu caimento, ela é acometida de vários raios do céu no cu e eles diziam que sua perna direita transformara-se num mensageiro desengonçado cuja missão era cortar o mundo com voz afiada; o começo da política é o corpo. Se o corpo não puder ser discutido não haverá crescimento que não seja por cima das exceções, elas continuaram como saci do mato rodopiando o imaginário de uma política sem imaginação no senado. Que tipo de crescimento econômico me garantem os homenzinhos engravatados nos seus falismos de fala e de façanhas ministeriais? Com seu mundo não compactuamos com sede, ele não é devidamente esquizotrans. Esquizotrans é a categoria de quem transita – de quem quer outra coisa.

A menina de biquíni de bolinha se chamava Alex e mijava de pé segurando o próprio pinto. O diálogo mais bonito do filme XXY foi conversa entre a hermafrodita e o menino que acabara de ser enfiado pela hermafrodita. Ele pergunta: qual dos dois você é? Ela: os dois. Ele: isso não pode ser. Ela: é você que me diz o que posso ser. Silêncio. Ele: você gosta de homens ou de mulheres. Ela responde: eu não sei, e você (sic) ? É que os desejos são emaranhados no que colocamos para jogo. A esquizerda não prende a respiração diante do abjeto, ela respira e por isso inspira e logo conspira. Coube aos fascismos a erotização de mão única dos discursos políticos — o falocentrismo virou logocentrismo e a exceção sem cabimento. A esquizerda veio para politizar as eróticas, as mais miudinhas e as mais escandalosas.

[1] Judith Butler é uma feminista que contribuiu para a construção da teoria que criou elos entre as comunidades GLBTTT… em torno de idéias como performance e subversão de gênero ou feminismo sem a categoria de mulheres. Seu primeiro livro de impacto foi Gender Toubles, 1990, publicado no Brasil como Problemas de Gênero, em 2003.

[2] A tensão se encontra em outros quadrantes: o projeto político de uma sociedade sem classes em contraste com o desejo de uma trabalhadora de se informar, se educar, se vestir ou consumir como uma pessoa de classe média; o projeto político de uma sociedade alheia a raça e o desejo de uma pessoa negra de alcançar alguns privilégios dos brancos etc.

[3] Publicou com grande impacto Speculum, em 1975.

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