Meu?

Meu corpo é meu. Diz o grafitti. É uma fala de uma mulher. Se você tem um corpo (abraços, ternura, formas arredondadas, lábios), essas são tuas propriedades: você pode dispor delas – pode dar, pode ceder, pode emprestar, pode vender, pode usufruir. Quando as prostitutas são pagas, elas estão vendendo um bem ou serviço. Tipicamente elas vendem uma estadia de algum pedaço de corpo em uma gruta que elas possuem entre as pernas. O consumidor aluga aquele espaço por algum tempo para colocar um pedacinho seu – a provedora cobra porque tem o espaço que ele quer. Ela também tem as vizinhanças, o terreno em volta daquele espaço que fica também a disposição do consumidor para algum usufruto.

A penetração é uma invasão. Ou uma ocupação. As vaginas são dispositivos biopolíticos – em torno delas giram regimes, contra-regimes, dietas. Quem as penetra, quem as controla, quem as cerca. Os cús são o paradigma da propriedade inalienável. A heterocontroladoria distribui os oficiais de justiça por todos os bares, as praças, as escolas, os pudores, as cadeias de televisão. Vaginas estão à disposição do mercado imobiliário do coito: se estão desocupadas muito tempo, perderam o valor de mercado ou os locatários acorrem às agências. Vaginas são ocupáveis. Cus são privados. Beatriz Preciado faz um desenho dos tubos digestivos machos e dos tubos digestivos fêmeas. Nos machos o público é a boca, o privado o cu. Nas fêmeas tudo é meio puvado, meio príbico. Mulheres então precisam gritar: meu corpo é meu.

Mas meu corpo é meu pode ser também assim: meu corpo é meu poder. Meu cú é meu poder, todos os meus orifícios, superfícies, supérfluos ou superfixos são meus poderes. Mas, meus? Nem assim. Ao invés de só acabar com a propriedade privada da terra, da fábrica e da lojinha, acabemos com ela nos órgãos, nos corpos, nas dobras dos órgãos nos corpos. Toda propriedade é um roubo. Mantenho o roubo quando invado propriedade, quando a defendo. Caiam as cercas. Meu corpo não é meu. Nem é teu. São uns punhados de poderes e eu estou dividida, estrangulada no meio deles. Meu corpo nem é uma chácara cercada – ele faz coisas comigo, com você, com o vizinho que olha pela janela. Se eu não quiser que ele faça estas coisas, ele não faz porque ele não é só teu – nem só do vizinho. Nem só meu. Acabem com a propriedade, diz o grafitti. Respiro.

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