Andando um pouco de Pippa Bacca pelo Grand Bazaar

Todos somos Pippa Bacca – Performance Hilantra/ Istambul/ junho de 2008

Agora a maioria de esquizotrans está em águas bem suas, entre o continente de Aristóteles e a ilha de Sapho. Quando cai a tarde sopra o vento quente, e as pernas, orelhas, falanges, umbigos se conectam pelo prazer de conectar. Na semana passada como noiva andei às voltas do grande bazar de istambul com um pequeno papel que dizia que somos todas pippa bacca. As pessoas paravam, perguntavam, assustavam. Que movia os dedos que enforcaram Pippa? Nas ruas de istambul se via uma mulher que não parecia se cobrir o suficiente e uma noiva que não parecia mulher. Estamos começando a descrever aquela tarde assim:

Uma estrada. Uma noiva. Um projeto. Era preciso associar a suposta brancura da paz com alguma pureza, alguma insistência, alguma leveza e ao mesmo tempo alguma denúncia. A roupa branca da noiva. A coragem de atravessar o oriente médio com as mãos ocupadas de bouquet e celular.

Bacca, você é tonta? Pensavas que sairia impune? Por acaso pensas que és livre da tua genitália. Não te disseram que era perigoso? Aonde estão todas as outras que você estava carregando no teu vestido branco já sujo de azeitona preta? Tua intuição tinha te abandonado naquele dia? Não ouvistes o coro por causa da bebida branca, tudo branco – quando acordastes naquela manhã não te lembrastes do teu sonho? Ou teu sonho tinha te abandonado também? Não pensastes em vestir um bikini e se atirar no mar salgado? E aquelas fotos risonhas tiradas com a tua companhia, a outra noiva perdida, com mais sorte que tu? Tu sabia que estavas fazendo a performance derradeira que seria inspiração de tantas outras? E se um bando de noivas brancas, muitas, ocupassem a faixa de Gaza? Tu agiu como se tua ação fosse legislação para todas as noivas – em uma faixa de Gaza dos fins.

Pippa, eu também vesti um vestido de noiva. Mas fiquei em Istambul, só no bazar grande onde os turistas friccionam os turcos que querem, por um fiapo, serem europeus. Um vestido branco. O meu era barato e comprado na rua – uma pechincha. Apenas o vestido sobre o corpo nu, eu já um pouco tostado do sol do verão. Mas por baixo do pano branco, uma bermuda de verão, modelo quase masculino. E se acumularam os homens turcos de bigodes raspados em torno de mim – o que? De onde? O teu sonho tinha te abandonado? Não te disseram que era perigoso? Uma tantas ruas, umas palavras na língua local, um pedaço de papel: Hepimiz Pippa Bacca’yiz. Não estava livre da tua genitália. Não estava livre da minha genitália. Alguma leveza. Suspiro. Ao mesmo tempo alguma denúncia. Ninguém pode atropelar uma insistência. Minhas mãos sem flor, sem celular. Uma bolsa de pano verde ácido – e todas as faltas de pingos nos is da Turquia.

Não tirei minha bermuda para não ficar vulnerável como você. Eu era um flerte com o teu fim, e tua continuação. Quando o homem não entendeu tua performance e te estuprou e te matou no meio de uma estrada turca, foi só para não deixar dúvida quanto a importância do teu jogo. Arte mata. Tu era acaso, ele era o desconhecido que falou no teu celular. Quando entrei na estação de bonde, uma friagem no calor. Os bondes passavam, olhavam, as pessoas reagiam em pequenos grupos – muitos conheciam a tua nacionalidade. A nacionalidade das noivas inesperadas – a inesperada estuprada, enforcada. Um país que não quer implorar para se meter na europa ficava pela testa enquanto os olhos circulavam. Um desconhecido soprava que aquilo era muito perigoso e um carabiniero súbito se aproximou: vem comigo. Entrei no bonde. Eu, a noiva, e ela, às vezes minha noiva, uma mulher. O bonde cheio de corpos nos apertava. Uma noiva e uma mulher no meio da multidão de fim de tarde em Istambul. A bolina na noiva inapropriada e a bolina na mulher fora de contexto. Toda uma questão de genitálias. E panos. E panos quentes. Para a noiva, com minha barba e bigode crescidos, as perguntas: o que, de onde, quem. Para a mulher, nem palavras.

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