Celebrando Andrea Stefani

quem fica completamente pelada?

Tenho saudades da Andréa, vigorosa, palpitante. Nos encontramos pela última vez em uma festa de anticasamento – ela vestida com uma gravata porque tinha que ser antimulher. Ela não era homem desde criancinha. Nem ficou com nostalgia na festa e nem se atirou na piscina com as antinoivas: ficou fazendo charme para quem estivesse passando de um gênero para outro. Ela é galante, precisa como um pedaço de pele amolada. Eu com minha nova meia-calça, que ainda nem tinha rasgado, cheia de perfurações estridentes – vinha do guarda-roupa sempre aberto de uma ex-namorada virada em frentista que freqüenta a geral. Levantamos as pernas juntas, a minha esquerda, a esquerda dela – trapézio, eu desengonçando, ela ardente. Acredito em quem não é deus e nem deusa e sabe dançar – eu nem sabia. Apenas queríamos nos exibir os ombros, os abdomens, os tornozelos, os quartos; e meus furinhos que roçavam na pele dos antibofes, das convidadas de rostos postos com barbas mal-arrancadas e expectativas, batons lambuzados de muqueca de pupunha. Quando começou a chover, nos apertamos no casebre – todas úmidas, caprichosas. Havia um bolo com aquilo roxo. Contra o padre ou o oficial de justiça, a cozinheira, eloqüente, boca sempre mirando o alvo e uns olhos que iam diretamente às vísceras. Cozinhava com a colher de pau e sua avó, paisana, não precisava ser mulher de ancas largas para se por a mexer panelas. Eu queria ficar na companhia dos tornozelos da Andréia.

Havia uma outra transeunte produzida ao lado de Andréa, haviam chegado juntas à confabulação. A transeunte conspirava mais, acendia cigarros, abolia representações oficiais, alforriava as volúpias inconvenientes. Eram juntas e eu chamuscante, querendo ação. A ação nem sempre sabe dançar, ela às vezes fica a espreita como se ela precisasse que alguém lhe desse trela, que lhe inventasse uma personagem. Inventar personagens era uma maneira de desafinar de Andréa, desatinada. Não deixava as coisas em paz. Uma personagem cheia de perfume, nem precisa estar no bar, o bar cheira ela. Ela me contou uma estória, mas esta estória foi contada na língua das coisas escritas, desapropriadas. Senão a história arrefece, mofa como se tivesse ficado arfando demais no meio de uma serra com uma leoa. A história é de sujeira, de eqüés, de desejos safos. Pertence à Ana Paula, sem vertigens. E à maricona suja, um cliente que ela não queria muito. Ele pediu para fazer uma coisa que ela não gosta, mas ele a deixou indiferente, sem querer a ação, inspirando. Acossi nem fede e nem cheira – não importa, o que importa é o que mafaine pode comprar. Maricona suja queria me ver mijando de pé, mulherona e com a pica exposta. Eu não entendi direito o que ela me dizia… Linda e com um brinquedinho de 16 centímetros de prazer. Vamos, a maricona suja, sem zarô. Garantias? A maricona entrou no banheiro, maldita, sem dinheiro. Quem vai domar isso? Ela me olhava e batia punheta me olhando mijar. Eu, é claro, fiquei nervosa e só saia gotinhas, uma, duas, e a maricona pedia: vai, mija, mija, e eu nada. Eu quero otim nibé – ele me trouxe uma garrafa de um litro de skol, gritei com a maricona, eu não quero isto, eu quero otim de verdade, eu quero vodka, ela não gozava nunca, e ela veio com uma idéia – maricona maluca. Ela deitou na cama completamente pelada – ah – eu com tédio, mas o tédio faz parte de mim, quanto mais tédio eu sinto, mas ele quer gozar, ele me pediu pra ficar de quatro e com a minha neca na cara dele e foi involuntário e eu mijava e ria, mijava toda, na cara dela, morno como tédio, olhava para a carteira dela e pensava naquele plaquê dele todo na minha bolsa. Ah, aí ele gozou, aquele gozo sem graça, sabe, aquele gozo sem gozo – eu fui pro banheiro e ela foi atrás, ela queria fazer valer cada centavo do seu acossi. Ana Paula, por que não, vou dar mais alegria pressa marica, quem sabe o plaquê não vem pra minha mão: plá, gozei na cara dela, e ela me liberou o eqüe. Eu fui pra minha casa passar a mão pelas paredes e acabou a história – uma estória sem roupa.

Eu fui pra minha casa passar a mão pelas paredes e acabou a história. Fiquei sem roupa como a estória e era cedo para acabar a história. Ela tinha que ficar de gatinhas e o eqüé que nem cheira e nem fede às vezes é o que quebra os vidros. Entrar nos banheiros masculinos dos shoppings e no minuto seguinte experimentar sapatos de salto agulha e lingeries. Nem fui dormir, perambulei entre os aglomerados de homens buscando mulheres, esbarrando nas mulheres em patotas esguias buscando homens. Ninguém ali havia contra-casado, o desejo açoita. Ou eram apenas meus desejos em frangalhos, minha meia-calça de furinhos rasgada, a saia de couro – tudo emprestado, era como o barro do meu corpo, eu que sempre fui esmiuçado e querendo ficar completamente pelada. Andei olhando pelo céu, as constelações de peixes do hemisfério sul, as nuvens escapando pelos horizontes – abri os braços para saber se não estava enjaulado. Era como se eu precisasse rezar, pedir e depois soltar uma flecha de um arco neolítico em direção a umas clausuras quase feitas de bolha de sabão. Não podia rezar, dirigi a concentração a Andréa e sussurrei.

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