sobre: solange tô aberta

solange-to-aberta-2

Queridos!
Essa cidade não cessa de nos apresentar seu vigor,
reinventando
movimentos culturais e investindo tão fundo no seu cerne que o
insustentável se nos apresenta sólido. É assim o funk dessa
cidade,
esse funk confronto, que de tanto cantar o senso comum dos
gêneros
sexuais, esvazia-os de si mesmos e torna-os mero discurso
hiperbólico.
É por sua definição mais tosca e sexista que percebemos o
fracasso do
heterossexualismo. O desejo quanto menos categórico e mais
categorizado tende sempre para fissura. Da definição, o
desejo é
sempre o corte. Mesmo no funk, em que a virilidade fálica
insiste em
através do discurso confinar atuações, insiste em
psicanaliticamente
afirmar o poder do pau, o poder do pai, mas é também justo
por isso
mesmo que escorrega e quanto mais duro tenta, e o funk tenta
(!),
delimitar quem pode o que, mais as pessoas não se deixam
capturar.  É
que o fascismo sexistofálico é tão absurdo que o próprio
discurso não
consegue de todo afirmar o seu sentido direto. Nem por isso
ele está
livre de problemas, nem por isso o funk é um movimento que
traz em si
esta própria consciência reflexiva. Quanto menos se pensa
nos limites
mais se acredita neles. Assim não garanto que o funkeiro
macho-sexista
percebe que cantar sua superioridade fálica heterossexual é
pertencer
ao fechado circuito homossocial. Ele goza sem querer
perceber que o
gozo do discurso é dirigido ao seus parceiros – como eles
chamam aos
amigos. O funk que cantam é um confronto em que um mede com
prazer o
pau do outro. transformando o homoerotismo numa prova
competitiva e
esportiva. E na verdade, não tenho nada contra quem tem
fobia do homo-
e preferira o hetero-. Mas para afirmar a vivência do
hetero- há de
ser estratégico e fazê-lo direito. Há de se largar o
homossocialismo
fálico e fazer-lhes agüentar suas pregas sujas inerentes a
todos nós.

Aí não adianta a bravata irônica e infantil de lacraia, nem o
sapateado velho oeste de pula viadinho. Há sim que se jogar no
queerpunkfunk e com eles gozar de todo fracasso. Há de se
começar
reenquadrando o viril, como Pedro e Paulo, de Solange Tô
Aberta. No
palco os dois jogam no lixo qualquer sex appeal para o outro
de
gênero. Tudo é mais embaixo, e concreto. O “cu é um buraco,
que todo
mundo tem. ( e até o papa tem)” O comportamento viril é aqui
o de
estar pronto para qualquer parada. Adoraria poder usar a
palavra
disponível, como se eles estivessem disponíveis para o que
der e vier,
mas pensando neles isso pareceria puro romantismo, e
assumiria uma
conotação muito pouco agressiva, o que definitivamente não
lhes é o
caso. O estar pronto significa aqui friccionar tenazmente em
todo o
contato. Se tudo é mais embaixo é por que tudo tem peso, e
não há
sublime possível – e talvez justo por isso surja-nos o
sublime, de sua
própria inadvertência. Eles falarem do cu não importa só por
fazer do
passivo motivo orgulho – afinal isso já vislumbrava-se desde
as
apropriações queer dancings de Tati quebra-barraco e Dayse
da Injeção.
Saber usar o cu é fundamental, pois deflagra que não é da
virilidade
ser monumental. A grande ordem não é a do fálus, menos ainda
de onde
lhe falta.  Há uma troca da forma pela força que impregna
também o
discurso.  A polaridade biológica macho-fêmea importa menos
como polar
e mais como cheiro. Solange Tô Aberta é a sujeira de
gêneros, essa
indefinição de formas, o buraco negro de sentidos. O
homossexualismo
com Solange é o fracasso. Talvez seja esta a maior potência
de seu
cantar sofista. Elas cantam o fálico apropriando-lhe com o
cu. É o
funk machista, é a música de Rodeio, é a chupação de uva do
forró, e o
funk pós-feminista. Nada ali, é mais sobre o pau e a xoxota,
ou sobre
a xoxota como o pau-em-falta, mesmo que Solange os cante nas
letras –
o que é até melhor, pois que besteira seria negá-los.  O que
importa é
mesmo o cu, instrumento de voz, órgão que entona o discurso
de Solange
Tô Aberta. Eles metem sim no cu do Freud como bem cantam. E
metem
dentro, de verdade, não é metáfora. Só que metem nele com o
que resta
dele, o seu discurso. “O cu é um buraco que todo mundo tem”,
e como um
buraco está ali para transar formas e não para ser a forma.
O buraco é
só campo de forças. ele trava, ele quebra, ele expurga, ele
recebe,
ele não define. Ao mesmo tempo, é em “o cu como um buraco
que todo
mundo tem” que entendemos a grande política contemporânea.
Não é mais
um caso de maioria, mas sim um caso de unanimidade, e ela
por si só
não resolve nada, mas deixa todo o resto a ser resolvido. Todo
discurso em prol do igual perde força, o homo- diminui, o
que importa
frente a ele é sempre o hetero-, a heterodoxia.

dois exemplos do youtube:

CUCETA
http://www.youtube.com/watch?v=MW0Bql65L5Q&feature=related

FUDER O FREUD (gravado por Moana Mayall na feira da Glória
durante o
La Rica de independência)
http://www.youtube.com/watch?v=qcDwdkeFYUM

Mas é tudo muito melhor ao vivo!
Beijos,
Felipe ribeiro RJ

pedro-e-paulo1

2 Comentários

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2 Respostas para “sobre: solange tô aberta

  1. o webdoc ja ta no ar.

    CUCETA – A Cultura Queer de Solange Tô Aberta

  2. Ricardo Rocha Aguieiras

    Achei o texto brilhante, bem como as perfomances. Parabéns! Ou recuperamos a transgressão na Arte ou deixaremos o mofo assumir tudo. Seguinte: Gostaria muito de ter a opinião de vocês sobre BASHBACK – http://bashbacknews.wordpress.com/
    E se enxergam possibilidades disso no Brasil
    Beijo do fã,
    Ricardo Aguieiras

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