Esquizotrans e a manhã seguinte do queer: subversão não tem dono

A subversão da sexualidade é virótica demais para ser deixada nas mãos de mamutes, hipopótamos, partidos ou movimentos que escolheram seus inimigos. “Esquizo” em esquizotrans é queer, é militância para dissolver a adaga da binariedade sexual – é a parte que insinua que sexismo emerge de normas de comportamento e de formulação de suposição sobre o corpo das outras guiadas pela binariedade. Confundir o que enxergamos como macho, como fêmea. O esquizo é drag, o queer tem um pau feminino, um par de seios de sujeito homem. E esquizotrans é “trans”, desconfia de um cissexualismo subreptício que se aloja debaixo da pele de muita gente com conforto – um cissexualismo transfóbico e muitas vezes trans-misógino. Sem ser trans, periga o queer se cissexualizar.

Julia Serano compara o movimento queer dos anos 90 ao feminismo cultural dos anos 70. Ela cita Alice Echols: o feminismo radical era um movimento de empoderamento contra as amarras do sexismo enquanto o feminismo cultural passou a escolher inimigo. Serano compara então o feminismo radical com o Queer Nation (promovendo beijos coletivos no meio dos shopping centers os mais straights) e com o Transexual Menace de Riki Wilchins. Em seguida, ela suspeita, alguns movimento queer deixaram de ser infiltração e passaram a se pautar por nós-vs-eles. E tudo aquilo que não é suficientemente anti-binarista não pode ser suficientemente subversivo. Julia é MTF e suas amigas transmulheres muitas vezes se sentem desconfortáveis em eventos queer – elas são vistas como conformistas porque abandonaram um estado de queerness (eram homens que se identificavam com um corpo feminino no espelho, eram homens autoginefílicos, eram transgênero em suas performances) para se encaixar no espaço binário de ter um corpo de mulher. É como se não houvesse espaço senão para a inconformidade com a diferença sexual: esquizotrans não quer traçar limites entre corpo e atitude – com a diferença sexual se faz muitas coisas,ignorá-la é uma delas, podemos também retorcê-la, transitá-la, amassá-la, embrulhá-la com um papel anti-cissexual, virá-la de cabeça para baixo. É, de novo, o tema de se a diferença sexual implica heteronormatividade. E Julia Serano diz: em nome disso, o movimento queer pode estar gerando suas próprias Janice Raymonds e Thomas Kandos. Ou seja, criar um monstro de transfobia cissexista em que uma transmulher é acusada, outra vez, de ser invasora, espiã, agente duplo – desta vez nas fileiras da heteronormatividade. Descasque o tomate como você quiser, antibinariedade não é (nem suficiente e nem necessária para garantir) antisexismo.

Queer, por vezes, arreda um milímetro antes da natureza: como se o corpo fosse disforme e dele pudermos fazer o que quisermos – sim, temos genitálias sem órgãos. Contudo, as genitálias podem ser também manipuladas e Kate Bornstein pode ter uma genitália sem órgãos feminina no lugar da masculina – a performance não para na fronteira do corpo, não reconhece matéria prima; qualquer matéria pode pegar e trair sua prima. Julia Serano teme que “a cissexualização do transgenerismo teve consequencias devastadoras para a habilidade de transsexuais de articular nossa própria perspectiva do […] ativismo. Ao invés de sermos ouvidas e apreciadas nos nossos próprios termos, nos somos forçadas a aderir a retórica LG e a alguns valores para termos voz na nossa propria comunidade. […] Meu medo é que uma tendência homogenizadora seja a oportunidade perdida de ouvirmos várias vozes e mudar as mentes do público em geral. […] Ninguém tem conhecimento superior quanto a sexo e gênero.” (The Future of Queer/Trans Activism, in: Whipping Girl: A Transsexual Woman on Sexism and the Scapegoating of Femininity, p. 356-8).  Subversão pode vir de toda parte – binarismo não é conformismo e nem antibinarismo é já subversão – já que os corpos estão embrenhados em inteligibilidade. As batalhas da inteligibilidade não podem ser alheias a como as pessoas começam interpretando os corpos; o número 2 faz parte da matriz – e a matriz pode ser arremessada contra a heteronormatividade.  Subversão dos desejos é vertigem, são olhos tontos, genitálias em queda livre: ela pode vir de toda parte, não há trincheiras, não há exércitos formados e nem adianta fazer fortalezas ao longo de uma linha Maginot.

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