Diferenças sexuais agudas

Eu gostava de encontrá-la no ônibus. Ela seguramente me achava gentil, viajávamos por mais de uma hora e meia e eu lhe oferecia os melhores assentos e muitas vezes lhe emprestava meu travesseiro. Depois sentava-me ao seu lado, o mais próximo que pudesse. Era quase sempre o mesmo ritual, de manhã, indo para o centro da cidade, e de noite, voltando, muito mais cansados, mas ainda com a pele sensível aos pequenos esbarrões de que são feitos os prazeres. Era uma estrada longa e repetitiva e quase tudo o que ela falava era o que ela reclamava: a trepidação do ônibus não lhe deixava dormir mais, e ela ficava sempre com a coluna doendo. Ela se interessava em fazer suas queixas, que a aliviavam, em me disparar pequenos sorrisos que eu considerava completamente ambivalentes e em usufruir do conforto da minha companhia segura. E do meu travesseiro. Eu me interessava em lhe emprestar o travesseiro que ficava muito mais confortável depois que ela recostava a cabeça e o pescoço nele, e ficava muito tempo quase dormindo. Eu ficava ao seu lado, nos meandros do quase sono e do desejo constante, imperando com mais vigor quando ela virava-se para a janela, encurvando a coluna na cadeira e invadindo a dobrinha que marca a fronteira entre nossos assentos, com suas costas, suas nádegas e suas coxas – quase sempre bem agasalhadas. Era nesses momentos que roçávamos. Muitas vezes eu congelava meu braço, minha perna ou meu quadril no momento em que nos triscávamos e eu ficava por muitos minutos recebendo doses do calor que vinha do corpo dela, um calor que parecia quase suficiente, liminar, o fim mesmo de qualquer empreitada. Eram minutos de uma ereção permanente e eu levemente passava a mão pela parte da minha calça que vestia o volume, com um misto de estupor e incômodo. Algumas vezes aconteceu que eu olhava em volta e via que todos dormiam a nossa volta, o cobrador talvez fosse o único a cultivar – ou fingir que cultivava – a habilidade de ter um sono quase sem peso, como se fosse possível desperta-lo com uma intenção. E nesses momentos parecia que tudo estava suspenso, se nós nos abraçássemos ali, trocássemos alguns beijos e eu pudesse passar a mão por todo o seu corpo, aquilo ficaria como que suspenso no ar, como um episódio sem começo e nem fim – como diziam que eram os beijos trocados nas baladas escuras: sem conseqüência. Mas o ônibus não era uma balada escura – e nem eu freqüentava baladas. Pensava apenas em fazer um movimento de mão e traze-la para mais junto de mim. Ela sempre era mais rápida, trocava de posição e se afastava de mim; eu desistia sempre provisoriamente. Em alguns minutos acordava, e olhava nos meus olhos para reclamar quanto durava aquela viagem. O ônibus quase todo o tempo em linha reta, nós quase o tempo todo em círculos.

Não falávamos nada de pessoal, eu sabia que ela trabalhava, não sei aonde. Nunca me perguntava nada – só quando nos conhecemos ela me perguntou sobre de onde vinha, qual era o meu nome e se eu gostava de filmes sobre casais se separando. Ela me disse que era seu gênero favorito – o único tipo de filme que ela conseguia assistir até o final. Falávamos muito mal das crianças, sobretudo das que estavam no ônibus, das que choravam quase todo o tempo fazendo a viagem dela ainda mais insuportável. Eu gostava do corpo dela no ônibus, nem precisava conversar com ela. Mas sempre tínhamos alguma coisa para dizer – ela sempre tinha uma queixa e uma esperança vaga de não precisar mais pegar aquele ônibus. Ela às vezes falava do meu cabelo ou das minhas unhas – ela estranhava minha aparência às vezes, porém era um estranhamento inteiramente passageiro. Outras pessoas observavam por mais tempo minha aparência desajeitada, desconjuntada que consideravam descabida – e essas observações eram muito menos que estranhamentos passageiros. Eu é que me assustava por mais tempo com todas essas observações, inclusive as dela: eu nunca me olhava no espelho – já não agüentava mais ver aquilo que eu aparecia, aquele homem nunca foi eu. Minha aparência me atormentava o dia todo; eu buscava coisas que me entretinham até o esquecimento e ela era uma dessas coisas. E eu a encontrava sempre – as viagens de ônibus eram mergulhos longos na distração de como era meu corpo porque dentro do ônibus eu encontrava ela.  Eu queria me dissolver naqueles momentos bem-fundamentados onde umas partes dos nossos corpos se apertavam – queria que meu corpo fosse apenas aquilo que raspa nela; nada mais, nem mesmo o resto dos órgãos exibindo felicidades, nem mesmo meus hormônios que se ocupavam em fazer daquilo algum soar de trombetas, algum prelúdio, alguma preliminar. Apenas queria mais daquilo, queria ter mais daquele corpo que fica esbarrado nela, e não queria nem minhas vísceras postas alhures. Que outro corpo eu poderia querer?

Nunca quis ter um corpo intermediário. É que sempre me assustava ter um corpo ainda mais abjeto. Quando tive a oportunidade de mudar, achei que tinha que mudar muito de uma vez – foram alguns meses, uma pausa na minha vida fora de casa. No máximo aparecia na janela para conversar por alguns minutos com os vizinhos íntimos que passavam para saber se eu precisava de alguma coisa ou para me informar do que se passava do lado de fora quando não tinham tempo de entrar para uma visita. As poucas visitas eram longas, eu contava o que estava acontecendo a cada dia, mostrava os remédios, os produtos de beleza, contava como me sentia e ensaiava estar em ombros e braços mais confortáveis. Eu realmente pensava que estava de mudança – como se meus órgãos estivessem todos empilhados dentro de um caminhão e eu tivesse chegado antes para preparar o novo endereço, esfregar o chão, pintar as paredes, ajeitar a sacada. E era como se eu tivesse indo para onde eu sempre quis morar – em um longo processo em que me excitava ver minhas coisas entulhadas, como se assim elas germinassem o embrião do seu lugar natural. Também sentia que era um processo de correção: fazer minha pele parecer minhas expectativas, meus cheiros terem a forma da minha inquietação – e tinha certeza que estava indo para minha sede definitiva. Eu lia a Bíblia: os relatos daquele povo em diáspora, buscando uma forma de encontrar uma terra sua, prometida, onde nada fosse estrangeiro – eram quase apenas esperanças que me ocupavam todos os dias. E cozinhava. Muito daquele tempo eu passei na cozinha, a idéia de preparar alimentos tinha um apelo ríspido: me tornar alguma coisa que pudesse ser servida, como se até aquele momento eu tivesse sido apenas um monte de ingredientes despreparados, amontoados que não encontravam suas próprias forças. Minha mãe e meu irmão faziam as compras e eu seguia receitas detalhadas, mesmo quando substituíamos a ervilha por umas vagens, os grãos de bico por feijões ou as acelgas por repolhos brancos. Mais do que os ingredientes, me interessava o que fazer com eles. Muitas vezes eu olhava da janela para a parada do ônibus, mesmo sem ter o ângulo para saber quem entrava e descia e quem ficava esperando. Da fresta do banheiro podia ver algumas costas acumuladas quando a parada se enchia, nenhum detalhe. Por uns dias um vizinho emprestou um binóculo – já que eu não saia de casa. Uma dessas manhãs vi seu casaco verde – ela estava esperando o ônibus atrasado, sua pele pareceu aconchegante, um refúgio, na temperatura acertada. Eu quis correr ao seu encontro, mas não fui, teria que pegar o ônibus e ainda não estava na hora, mesmo um mês depois da operação. Eu tinha que sentir que já havia me mudado, que já era suficientemente garota, por mais que tanta gente me dissesse que uma auréola de  inadequação nunca iria completamente embora. Eu só ia sair de casa quando eu não fosse mais aquele homem que eu não gostava de carregar comigo. Era uma chantagem comigo, mas eu confiava que a maior parte das dobras do meu corpo trabalhava sob pressão. Naquela manhã eu apenas voltei para a cama, esfreguei a planta do pé no cobertor; pelo que meus olhos viram, eu conseguia ainda sentir a temperatura protegida da minha pele debruçada na dela. Dizem que todas as partes do corpo ficam em miniatura na planta do pé – pulmões, braços, vesículas, costelas. Eu sentia minhas plantas do pé diferentes a cada dia, o cobertor parecia mais abaulado às minhas bordas, menos fibroso ao calcanhar. Em algum ponto dos pés eu sentia as carnes que podiam estar agora no ônibus, encostadas nela, em êxtase, emaranhadas com outros órgãos, menos ruminantes, menos ardidos, mais incisivos. Todos os outros centímetros eram algum poder fazendo barulho. Eu escutava, e esperava.

A primeira vez que eu saí de casa foi para pegar o ônibus para o centro outra vez. Eu vesti um sapato novo e fechado que meu irmão havia me dado de presente no natal, uma saia longa da minha mãe que eu sempre quis usar e uma camiseta larga, ainda queria meu corpo menos exposto. Eu sentei do lado dela, meu nervosismo mais aparente do que meu corpo inesperado. Ela demorou a me reconhecer – talvez quase meio minuto, trinta segundos me pinicando – mas não me perguntou o que aconteceu comigo, apenas sorriu e disse que eu havia sumido. Eu falei que eu precisei sumir. Ela reclamou do ônibus – cada dia mais cheio – e disse que eu tinha sorte de poder ter ficado tanto tempo sem fazer aquelas viagens agonizantes. Ela chamou as viagens de agonizantes, suspirou e olhou para os lados, mas depois sorriu mais – como se tivesse sentido a minha falta. Ela não se alterou com nada do que eu lhe contei; algumas angústias, a operação, meus meses entre a bíblia e a cozinha. Foram menos de vinte minutos de conversa e ela tentou esticar as pernas e fechou os olhos. Eu entreguei meu travesseiro. Ela sorriu outra vez, um sorriso menos habitual. Minha primeira vez em meses fora de casa. Ela esticou a perna direita um pouco mais para o meu lado, eu não movi a minha. Pus uma mão em cima da minha perna, com o canto da palma roçando o território dela. Procurei um sinal na sua cara, ela parecia sorrir e virar o rosto para a janela. No ônibus quase todo mundo dormia. Mais quieto ainda, por muito tempo o ônibus parado no sinal. A parte que tocava ela era tudo o que eu sentia do meu corpo, o resto parecia ter se dissolvido. Levantei o joelho e encostei a parte do sapato que carrega o calcanhar no seu tornozelo – aquilo sim era um ato deliberado. Ela apertou a perna contra a minha. Saímos do sinal vermelho.

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