Pop

O Rei do Pop nasceu suave e atormentado; generosa, ganancioso, acanhada, torpe, imundo, onírica, fêmea, macha, feminino, viril, torto, esguia, branca, preto, maternal, padrasto, abusivo, abusada. Era capaz de espalhar tinta para deixar de ser uma coisa e ser uma outra. O Pop não nasceu nada disso. Nem mesmo pronto para saber que pronome Pop merece – se ela está passando por uma envaginação ou ficando empenada. Mas está passando alguma coisa com Pop – como se passam coisas com quem nasce, desde quando nasce. Procedimentos cirúrgicos, litúrgicos, dramatúrgicos; nas famílias, nas casas da sociedade, nas praças, nas paradas de ônibus, dentro dos carros – por onde passam as pessoas governadas. Talvez ao Pop nem lhe tocaram as gônadas, mas os conselheiros – que nem são como aquelas mônadas esquisitas coordenando e animando tudo aquilo – recomendaram que lhes dessem logo ou roupas azuis ou roupas rosas. Não se poderia desperdiçar o tempo das crianças, assim, logo nos primeiros anos. Quando Pop nasceu veio um anjo torto, branco-e-preto como uma nuvem que faz chover e cochichou ao lado do seu berço sem cor:

– As pessoas foram criadas com um sexo definido, ou se nasce homem ou se nasce mulher! A incapacidade de algum dos pais de perceber é algum absurdo! Eles estão interferindo em algo que não é da alçada deles. Se eles querem que uma criança de dois anos tenha o tal discernimento para decidir se quer ser homem ou mulher eles são loucos, essa criança já tem um sexo…. e nesse sexo ela deve permanecer pela sua vida inteira; para que complicar tanto uma coisa tão simples… Nasceu homem é homem , nasceu mulher é mulher…. acho que esses pais deveriam ser interditados pelo estado! Pop deveria ser confiscado – para o bem do bom-governo.

(No cangote do anjo, e mais desengonçado, um outro anjo pois os seres celestiais sempre andam as voltas com multidões – os céus são povoados. O outro anjo cochichava também: “O que é simples é simples, o que é complicado… complicado. Nasceu pobre é pobre, nasceu rico é rico. Quem é esse Rei do Pop?”).

Um casal de 24 anos na Suécia são os pais. Eles se recusam a dizer o sexo de sua criança (na foto em frente à tela), que já tem dois anos e meio de idade. “Queremos que Pop cresça com maior liberdade e que não seja forçado a um gênero que o/a moldará”, disse a mãe. Pop usa vestidos e também calças masculinas e seu cabelo muda do estilo feminino para o masculino a cada manhã. Apesar de Pop saber as diferenças entre um menino e uma menina, os pais se recusam a adotar pronomes para chamar a criança. A controversa atitude do casal gerou um intenso debate no país. Quando Pop quiser saber, se ele quiser saber, o casal sueco responde. Talvez ele não precise saber. Para certas pessoas, a etiqueta de macha ou fêmea faz uma enorme diferença nas escolhas e nas maneiras de narrar experiências; para outras nem tanto – para outras ainda, a idéia de que isso faça alguma diferença nunca passa pela cabeça. Talvez não tenha nada para ser sabido. Nada para se descobrir acerca de Pop, acerca do Rei do Pop – nenhuma questão de fato. “Afetará a criança, mas é difícil de dizer se fará mal a ela”.

Longe do que é popular, longe da tinta branca, a neta de Ashley Montagu, que há anos não comia comida cozida, nem levemente aquecida, passou a experimentar um aumento do clitóris associado a um intróito profundo, em forma de funil, com a uretra abrindo-se na vagina, como um pseudo seio urogenital; associado a estes excedentes que pareciam supérfluos – e nem foram encomendados por nenhum alfaiate genital discretíssimo, surgiram uns graus de fusão labioescrotal. Saia a jovem Montagu um clitóris fálico com abertura urogenital, em forma de fenda na base. Ela tentava ler as pistas deixadas sobre vitiligo na literatura apropriada – na biblioteca do dermatologista havia uma foto de paciente no dia antes do contágio, olhos arregalados, nariz irrequieto. “As crianças são curiosas sobre suas identidades e tendem a gravitar em torno das de mesmo sexo no começo da infância”. Pop logo ganhará um irmãozinho ou irmãzinha, porque a mãe está grávida (tal como Susan Juliette Beatie ganhou um irmãozinho no mês de junho porque sua mãe Thomas Beatie ficou grávido). Pop talvez nem precise de um rei, nem de uma rainha. Talvez fique ingovernável.

http://www.svd.se/nyheter/idagsidan/barnunga/artikel_2559041.svd>

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