pensando sobre os riots (distúrbios) – london 08/2011

Paulo Wayne (POA) nos mandou umas perguntas  sobre os riots aqui em London,

a gente respondeu aqui embaixo, o que andamos  vendo,  ouvindo, não é um tratado,

aqui vai:

Quem são esses caras? Estrangeiros? Qual a reação das pessoas a este movimento?
Por que colocam fogo em algumas residências? Que tipo de residências são?
Reivindicam alguma coisa? Quem os organiza e articula? São bairros operários?
Que desconforto cria isso tudo na terra da rainha?

Quem são esses caras? Estrangeiros?

São na maioria adolescentes, filhos de imigrantes, negros, africanos e alguns brancos. São tidos como gangs, mas isso é uma forma de incriminá-los. Colocaram fogo em muitos carros e arrombaram lojas, pegaram televisões, e equipamentos eletrônicos. Eles dizem assim: nós não temos dinheiro. A polícia já prendeu mais de 1000. O jornal anuncia vários tipos curiosos que foram incriminados (filha de milionário, criancas de 12 anos, professores secundários, etc).

São sublevados. Em estado de fúria contra os esquemas de empobrecimento e humilhação: uma crise econômica que deixa todo mundo desempregado, um governo que quer acabar com todos os mecanismos de bem estar social – acabar com o que eles chamam de cultura do alguma-coisa-em-troca-de-nada – inserido em uma cultura de celebração da homogeneidade dos valores de classe média: sucesso profissional, dinheiro e comodidade para uma família funcional (ainda que com espaço para formações familiares menos típicas). A reação da imprensa tem sido  demonizar as pessoas que não tem aspiração – a palavra-chave: aspiração a se tornarem vencedores. A imagem que o governo parece impor é a de que os pobres merecem ser pobres porque são criminosos mesmo – e os mecanismo de bem-estar social estão apenas alimentando os delinquentes.Ou seja, são indignados contra tudo isso, não do tipo que acampa na praça, mas do tipo que faz a ação direta.

Qual reação das pessoas a este movimento.

A crítica mais radical a eles, por parte dos ativistas, é que usam violência para adquirir coisas. Outros dizem que não são contra o consumismo e são devotos ao capitalismo. Essa crítica é uma bobagem. Eles dizem: fazemos isso porque não temos dinheiro. E as pessoas criticam isso por não ser razão suficiente para saque. Mas isso é a melhor razão possível, por que exatamente eles não tem dinheiro? Eles apontam justamente para o problema: PARA ELES NÃO TEM DINHEIRO!!

Os saqueadores insuflados foram os únicos que enfrentaram com violência o controle excessivo da polícia britânica. As pessoas morrem de medo, tem insônia, pensam que as gangs de negros vao destruir suas casas e suas vidas. Olham a BBC e tremem no escuro. Não saem as ruas pela noite, e ficam vidradas na TV e na net. Tem medo que os negros tomem o poder, pensam que são todos mulcumanos, terroristas, confundem fatos historicos, revolucoes geopoliticas. Há um medo geral de que os imigrantes se revoltem – isso é parte do imaginário branco. Há uma ressonância de Breivic (o norueguês que saiu matando jovens em um acampamento no mês passado) e as instituições de proteção à cultura e aos hábitos ingleses (como a EDL, English Defense League), instituições que crescem.

Por que colocam fogo em algumas residências? Que tipo de residências são?

São residências de desconhecidos. Que não são seus protegidos, são prédios, lugares possíveis, que tem alguma entrada, estão mais preocupados em criar um estado de resisistência, com fogo,  do que procurar o lugar simbólico por excelência. Fazem o que podem. “Nós queremos mostrar aos ricos que nos fazemos o que queremos” – diz uma riot girrrrrrl;

Reivindicam alguma coisa? Quem os organiza e articula? São bairros operários?

Sao bairros operários e de imigrantes. A coisa mais controversia é que acabam assaltando ou quebrando lojas de outros imigrantes, negros contra turcos, por exemplo, e os turcos se organizam para defender suas lojas (como aconteceu em Dalston, aqui no Hackney). De fato não conseguem em geral quebrar lojas de grande porte, ja que a seguranca é muito maior, assim como a vigilância e todo aparato financeiro. Sua performance é feita com o que é possível, e o possível, muitas vezes, são as lojas de outros imigrantes que moram na vizinhança. Em alguns casos, entretanto, houve ataque a lojas grandes, em Birmingham e Croydon, por exemplo. Estas lojas arderam. Eles fazem o que podem, em Londres houve saques em Oxford Circus e em Notting Hill – lugares elegantes, assim como a filiais do Tesco,  uma cadeia de supermercados.

A reivindicacao é o “estado revolucionario”, a critica aos cortes que sofreram na saude e na educacao,  o entusiasmo com outras lutas politicas do mundo, como na Tunísia, na Grécia, no Egito etc. Nervo solto, não tem a paciencia dos ativistas profissionais, e não querem fazer reuniões incessantes, nem para acampamento em praças – muito frio este verão, é preciso fogo para aquecer.

Mas estão sendo pegos como ratos. E como bodes espiatórios. Basta ter sido capturado pelas cameras de vigilância, ou serem vistos observando as ações,  que já são incriminados, uma forma de manter as pessoas em casa, medo de serem acusados e condenados culpados.

A articulação é espontânea, não existe projeto (aparentemente), nem líder politico, são  gangs revoltadas. Elas se organizam em regime de rede por meio de celular e bluetooth. A liderança é difusa – há uma presença importante de meninas.

Que desconforto cria isso tudo na terra da rainha?

O governo fica muito temeroso de ter uma revolta violenta em grande escala. Tentam criar um consenso pela lei e pela ordem – um consenso à direita. A repressão está sendo e vai ser violenta. A polícia está se militarizando – com permissão a usar balas de plástico e canhões de água, armas nunca usadas na Grã-Bretanha antes (só na Irlanda do Norte). O governo se utiliza das manifestações para endurecer e – assustadoramente – pode estar ganhando popularidade com isso.

Mas o espírito issurreto, que não aceita conversa mole, ficou patente no país todo. A revolta disparou rapidamente. Entre a lei e a ordem tão cultuadas pelo governo, e a tomada das ruas e  dos poderes ha pouco mais que um triz. As massas: se houvessem três vezes mais pessoas na rua, seria impossível apresentar tudo como “nada mais do que uma onda de crimes em proporções gigantescas”.

Os novos passos agora, que estão em todos jornais são trancar chamadas de celular em locais de enfrentamento, não permitir a passagem de informacao pelo twitter e facebook, que conforme relato oficial da polícia e do governo, são onde os rioters se organizam.

Sobre a manifestações de solidariedade:

Estivemos ontem em uma marcha (https://esquizotrans.wordpress.com/2011/08/13/hackney-last-days-082011/) de Hackney a Tottenham, bairro de muitos negros onde comecaram os distúrbios no inicio de agosto apos a polícia ter matado um motorista de taxi. O tom da marcha era de descriminalizar e politizar os saques. Um dos slogans: culpem os Tories (o partido conservador no poder) e nao os nossos filhos. A ideia era culpar o governo, os cortes, o cinturão de proteção aos banqueiros, o racismo da polícia. A marcha não causa transtorno, a policia a acompanhou de perto, passo a passo. A eficácia como protesto de uma marcha assim é limitada, já que ela não ataca a estrutura de tomada de decisoes e é facilmente apropriada pelo bipartidarismo compulsorio no pais.

Temos a impressao, dado o triunfo do governo nesses dias que se seguem aos distúrbios e a decepção de muitas ativistas, de que o governo e a ordem terminaram fazendo ponto. O governo conseguiu reunir apoio para suas medidas de seguranca e ordem e de extender este apoio aos cortes nos benefícios – ja que o pobrerio é todo delinqüente mesmo… Mas as conseqüências das suas politicas ainda serão sentidas em muitas partes do pais e mais tumultos, eles sabem, virão.

esquizotrans (fabiane borges, hilan bensusan);

4 Comentários

Arquivado em Uncategorized

4 Respostas para “pensando sobre os riots (distúrbios) – london 08/2011

  1. caí aqui por um link compartilhado de facebook. belíssimas observações. as rodas da história começam a girar mais rápido… shared.

  2. #estamosjuntos[via celular e bluetooth]

  3. MARISE Lafourcade Rayel

    que muito bem dito, toda esta história ai compARTILHADA vai tecendo outra trama p/ o que nos chegar pelo “informativo jornalístico” .

  4. Fabiane e Hilan, tudo bem?
    Gostaria de comprar 2 exemplares do Breviário de Pornografia Esquizotrans, que já li emprestado de um amigo. Moro em Belo Horizonte. É possível?
    Deixo meu e-mail: deborafantini@gmail.com
    Abraços,
    Débora

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s