Entrevistando o filósofo Hilan Bensusan (pode ser lido no site http://www.filosofia.com.br/vi_entr.php?id=17

Responsável -Will Goya

MINI-CURRÍCULO: Hilan Bensusan (hilanb@unb.br) Fez graduação na Universidade de Brasília, mestrado na Universidade de São Paulo e doutorado na Universidade de Sussex. Sua tese de doutorado foi sobre naturalismo e indução, desde então (1999) pesquisa sobre pensamento, experiência, holismo, o debate Davidson-McDowell, as variedades de naturalismo, auto-conhecimento, singularidades, diferenças e, mais recentemente, ontologia das potências. Publicou 18 artigos em periódicos internacionais (como Theoria, Philosophia, Theoria) e nacionais (como Manuscrito, Kriterion, Principia), 5 capítulos de livros e 16 trabalhos completos em anais de eventos. Títulos incluem: When my own beliefs are not first-personal enough, Ist meine eigene Weltanschauung third-personal enough, Minimal Empiricism Without Dogmas, Showing the inferentialist the way out of the bottleneck, O intellectus com os pés na res, O pensamento sem luz própria . Recentemente (2008), publicou Excessos e Exceções , pela editora Idéias e Letras.

A ENTREVISTA:

Professor Hilan, o senhor pesquisa uma temática ainda pouco conhecida no ensino de filosofia no Brasil, que é a relação entre filosofia e feminismo. Quais são as questões filosóficas do feminismo? Poderia citar um fato jornalístico atual e fazer uma pequena análise filosófica?

Hilan Bensusan – O feminismo, e questões de gênero e diferença sexual, associados aos estudos queer e aos estudos transexuais, invocam questões filosóficas por todos os lados. Gostaria de mencionar dois aspectos que tem tido relevância no meu trabalho filosófico nos últimos 5 anos. O primeiro é o tema das identidades e das diferenças. Alguns feminismos, classicamente, invocaram sujeitos identitários: sobretudo “as mulheres”. Muitas vezes tais sujeitos identitários eram invocados ao considerar a diferença sexual – a diferença entre o masculino e o feminino, e como essa diferença é construída. Muitas formas de diferença sexual foram criticadas e reformuladas – o foco da tensão girando em torno da relação entre diferenças de um lado e políticas de identidade de outro. Judith Butler, filósofa de Berkeley, por exemplo, tentou, em um esforço nos seus trabalhos de 1990 a 2004, formular o feminismo de uma maneira que não o comprometesse com o sujeito político “as mulheres”, com políticas de identidade ou com muitas versões da idéia de diferença sexual – consideradas baluartes para a heterossexualidade compulsória. Butler articulou uma aliança entre o feminismo e os estudos queer , que colocou o feminismo como central para se considerar o problema da identidade e da diferença em política e em teoria da ação. O segundo aspecto que gostaria de mencionar é a relação entre sexo e gênero como parte da discussão do que é natural e do que é normatizado. A discussão tem vários aspectos, mas o tema da pluralidade de sexos é um dos mais interessantes – o tema da interssexualidade. Anne Fausto-Sterling relaciona cinco sexos biológicos, incluindo o falso hermafrodita feminino, o falso hermafrodita masculino e o verdadeiro hermafrodita (capaz de ser heterossexual com homens e com mulheres). A construção de identidades de gênero tem de se relacionar de diversas maneiras com essa diversidade de sexos biológicos – as normas de identidade fazem uso desses elementos naturais de alguma maneira. As relações entre normas e natureza aparecem de uma maneira especialmente clara no corpo interesexual – e no corpo transexual. Recentemente, a imprensa divulgou (http://news.bbc.co.uk/2/hi/health/7689007.stm) que foram encontrados alguns genes que estão correlacionados com a transexualidade de homens biológicos (que desejam ser identificados como mulheres). Trata-se de um tema que suscita muitas questões: qual é a natureza de um desejo por uma identidade? Quanto de natural podemos esperar encontrar na transexualidade? Qual é a origem de genes assim, de onde eles surgem, como eles interagem com outros genes etc.? Como entender tais genes em função da evolução da espécie e dentro da espécie? A “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, de 1945, não demorou em ser reinterpretada e questionada numa de suas crenças básicas, a de que seríamos todos iguais. O feminismo foi um dos movimentos sociais e políticos que mudou a ênfase da busca pela igualdade pelo direito às diferenças. Atualmente, o negro não quer mais a farsa de não ser reconhecido em seus “direitos humanos universais”, e luta especificamente pelo direito de ser reconhecido em sua negritude, com leis específicas. O mesmo fenômeno se observa com o direito das crianças e adolescentes, com os idosos, com os homossexuais, e com todos os que foram excluídos pelo discurso da igualdade. Todavia, o feminismo também já foi muito criticado por incitar o ódio aos homens…

No campo da filosofia moral, eu lhe pergunto: de que maneira o movimento feminista ajudou a desenvolver uma ética de alteridade?

Hilan Bensusan – O tema da ética da alteridade está associado aos esforços de Lévinas – que desconfiava que a empreitada de incluir o outro era uma empreitada violenta – mas também de uma de suas interlocutoras associadas ao feminismo da diferença sexual: Luce Irigaray. Ela entendia a diferença como central para a sexualidade e entendia que o falocentrismo, em geral, a submetia a um esquema de submissão, complementaridade ou oposição. Irigaray pensava que um projeto de feminismo da diferença sexual podia desembocar no que ela chamava de “heterossexualidade radical” em que a diferença é considerada como irredutível – trata-se de uma sexualidade de diferentes. Irigaray também suspeitava que o movimento de integração das mulheres na vida masculina era um movimento de colonização e aniquilamento. Uma ética da alteridade, nesse caso, é uma ética que busca a diferença inscrita no desejo.

De que forma o tema das singularidades aparece como um problema para o pensamento, no seu livro Excessos e Exceções (2008)?

Hilan Bensusan – Em Excessos e Exceções, procurei explorar como a singularidade pode ser pensada uma vez que o pensamento parece muitas vezes lidar apenas com articulações de descrições gerais. Procurei encontrar um modo para que as singularidades possam ser pensadas sem que apelemos para uma noção de imediato em que elas se tornariam, sem a mediação de qualquer conceito, conteúdos dados de pensamento. Meu objetivo é conciliar uma noção holista (de tipo davidsoniano) do pensamento com a possibilidade de que as singularidades não fiquem alheias ao pensamento. No livro, eu exploro várias dimensões do problema de encontrar meios de não deixar a singularidade ficar indiferente ao pensamento. No final, apresento uma solução que torna a singularidade parte das paisagens do pensamento sem as reduzir a descrições ou a conteúdos conceptuais de pensamento (e sem compromissos com a tese de que há conteúdos não-conceituais).

Em Excessos e Exceções, você dialoga com autores de diferentes tradições, como Agamben e Kaplan, Deleuze e Evans, Lévinas e McDowell. Por que e como esses autores, tão raramente citados juntos, são invocados?

Hilan Bensusan – A questão da singularidade pensada é um problema que aflige diferentes tradições. Os enfoques são diferentes: o foco na natureza dos exemplos – casos particulares de gerais pensados, a preocupação com os demonstrativos e com o uso referencial das descrições definidas, considerações acerca de como ordens constituem singularidades, análises do pensamento singular, a violência do mesmo quando pensamos singularidades ou a natureza da experiência. A questão é central na filosofia contemporânea e pode ser vista como um resíduo do tema da relação entre pensamento e mundo – talvez o pensamento possa tocar o mundo através de recursos que giram em torno de capacidades conceituais, mas os conceitos podem ser ainda impermeáveis a “haecceidades”, às singularidades no mundo. A solução apresentada no mundo invoca tanto o trabalho acerca dos demonstrativos de Kaplan quanto a noção de plano de imanência de Deleuze e Guattari e a noção de “acquaintance” em Russell.

Como, em sua opinião, essas diferentes tradições da filosofia contemporânea, que dificilmente convivem entre si, ocupam espaços no Brasil?

Hilan Bensusan – Penso que no Brasil temos uma oportunidade de fazer filosofia tirando proveito das diferentes maneiras de fazer filosofia que estão associadas a essas tradições. Já que não estamos associados diretamente a nenhuma dessas tradições, podemos circular entre elas e buscar recursos para nossas questões filosóficas. De fato, assim como em países como a Espanha e a Argentina, nossas graduações em filosofia são plurais e ensinar recursos que provem de diferentes abordagens da filosofia – nossos estudantes são pelo menos informados acerca da importância de trabalhos de tradições diferentes como os de, por exemplo, Kripke e Merleau-Ponty. Mas a partir da pós-graduação, os estudantes já são estimulados a se concentrarem em apenas uma dessas tradições – com isso perdemos uma oportunidade especial de construir originalidade no trabalho filosófico brasileiro.

Tenho a impressão que na Argentina, onde estive recentemente, esses diálogos entre tradições são mais comuns e mais aceitos. Essa pluralidade se verifica no curso de graduação da UnB? De que modo?

Hilan Bensusan – Também na UnB a graduação é mais plural que a pós. Na UnB temos professores de diferentes formações e penso que isso é um grande patrimônio. Em geral, interagimos muito quando temos estudantes para avaliar conjuntamente – em bancas, em trabalhos de conclusão de curso. Tenho esperança de que uma maior interação pode ser conseguida. Em certo sentido, meu Excessos e Exceções procura também mostrar como as interações podem ser feitas. Acho que na UnB temos todas as condições de promover uma filosofia menos atomizada e mais afetada por diferentes maneiras de pensar.

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