Posporno por Fabiane Borges

Pos porno   (pode ver diretamente no link da Revista Na Borda – http://naborda.com.br/2011/texto/posporno/

É um movimento sexual/social que combate, convoca e comove ao mesmo tempo. Como tudo que existe tem mundo, não seria diferente com o pósporno, tem mundo. Seus circuitos, seus sinais, seus entraves, e há muitos entraves, desde perseguição na internet até prisão, problemas com justiça. Mas o movimento se movimenta, motivado por vibradores, experiências exóticas, tóxicas, as vezes bem comuns, românticas. É que o movimento tolhe, mas também liberta. O pósporno libera espaço nos corpos e nos modos de desejar. É como uma confraria, uma pequena horda missionária destinada à experimentação e a narrativa, mas com potente carga virótica. O pósporno tem muitos antídotos às políticas dos desejos sexuais instituídas. Suas fórmulas vêm da invenção constante. É um movimento pragmático. Vai do ecosexo ao tecnosexo, facilitando a locomoção do olhar. Pra onde teus olhos te levam? É nessa estrutura que o pósporno mexe, ajuda teus olhos a desprogramar teu programa sexual coorporativo.

Pósporno é um dos nomes que identifica este movimento sexual/social que tenta criar alternativas para o padrão de pornografia vigente. Mas isso não é um consenso, tem muitos outros modos de reconhecê-lo, e pode também ser pensado como um movimento ontológico de manifestação da sexualidade. Não há consenso nem identidade fixa no movimento. As feministas mais radicais acreditam que o pósporno é um movimento essencialmente feminista, já que são as mulheres as que mais militam na área. Segundo elas, os homens estão mais bem servidos com a cultura sexual vigente, mas as mulheres ainda são tidas como corpos que servem à anatomia masculina, nem que seja ao olhar do macho, como no caso dos filmes lésbicos da indústria pornográfica, que mostram o tesão das lésbicas correspondendo ao padrão de desejo masculino. O manifesto contra-sexual de Beatriz Preciado[1] enfatiza bem essa questão, atribuindo à palavra “sexual” o sinônimo de heterosexualidade patriarcal, e inscrevendo a necessidade de um rompimento signico  nesse desejo “sexual” da cultura machista sustentada por homens e mulheres, o que explica o nome: Manifesto Contra-sexual!.

Pósporno então se refere a um movimento de intervenção e tensionamento nos valores da cultura pornográfica. “Se não gostas da pornografia que existe, faz pornografia tu mesmo. Reinventa”. Mais ou menos nesses termos que Annie Sprinkle[2] tomou a dianteira dos seus trabalhos como atriz porno e começou dirigir e produzir filmes alternativos dentro do circuito, não sozinha, mas com várias pessoas que pensavam a mesma coisa, que o tesão feminino não estava representado nos filmes pornográficos, nem uma série de outras variedades. Ela é considerada a mãe da pós-pornografia, a criadora do conceito e ainda a musa de toda essa nova geração. Com seu estilo divertido e carinhoso, ganhou o coração das transfeministas, pornoterroristas e pós-pornográficas. Seus filmes misturam sensualidade com consciência política, como o filme “A Female-To-Male Transexual Love Story” (1989), onde apresenta de forma até didática sua relação com uma transexual recém operada, dando dados da sua operação, mostrando seu sofrimento, seus desejos, os laudos médicos e seu prazer. Também é respeitada por ter levado a diante a conversa entre pornografia e arte contemporânea, promovendo nos mais diversos lugares do mundo polêmicas exibições em centros de arte, universidades e galerias, que ampliam a noção de corpo, prazer e sexo. Hoje em dia ela esta com a proposta de ecosexo[3] (tesão pelo planeta, pelo cosmos, ecologia sexual) que tambem é uma grande inspiração para todo movimento pósporno.

A transformação da sexualidade em uma criação artística[4] faz parte das práticas do movimento pósporno, assim como a intensificação da relação corpo/máquina, tecnologia/cotidiano, privacidade e espaço público. Se um dos vetores do movimento é essencialmente político, pode-se dizer que outro vetor é essencialmente experimental. Reivindicar o corpo como experiência e não como propriedade. Nesse contexto entram em cena os mais diferentes tipos de alianças: práticas sadomasoquistas, bodymodification, desprogramação de gênero, tráfico de hormônios, produção audiovisual constante, publicação de livros e revistas, fanzines, shows performáticos, saraus de música e poesia, mostras de cinema. O pósporno é um movimento insurgente, uma utopia como diz Beatriz Preciado[5]. Uma utopia barulhenta, que cresce na medida que cresce o acesso a produção e difusão de midias nesses últimos 30 anos. Mesmo que nos anos 60-70 já tivessem produções feministas e engajadas na liberação dos padrões masculinos de atuação nos filmes pornográficos, é com as redes de internet e com acesso a câmeras de vídeo e computadores para edição, que o movimento cresce, por possibilitar a manifestação da diversidade sexual.

O encantamento do movimento tem a ver com o encanto que temos pela liberdade. Não se trata só de cada um assumir seu próprio desejo, mas de inventar outros desejos, recriá-los, produzir outros valores sobre eles. Deslocar os signos “sexuais” para novas variações, tensioná-los, liberá-los de suas armadilhas. Reiventar o desejo e o prazer. Reinventar o corpo. Talvez seja essa a utopia do pósporno, o corpo livre! O que lhe faz estar próximo a todas as outras lutas por liberdade. Ao mesmo tempo, para poder manifestar-se enquanto algo significativo dentro da sociedade, precisa fazer aliancas com outras culturas de corpo já existentes, incluindo aí arquitetura. Sim, arquitetura, que é uma das poderosas máquinas de construção do imaginário sexual. Vamos para cama! Essa simples conjunção de palavras denota a monstruosa redução do sexo a uma arquitetura compartimentada e privada, que associa o desejo erótico diretamente a noite, ao quarto, por consequência à propriedade. São muitos os entrelaçamentos políticos e sociais que um movimento sexual como o pósporno abarca, o que demonstra a impossibilidade de reduzi-lo somente a pornografia. Ele é uma engrenagem expandida de análise e produção de cultura e natureza, engrenagem que permite os mais variados tipos de acesso, inclusive o acesso a outras demandas eroticas para alem do humano, do antropocentrismo, ou ainda, do antroposexocentrismo, que é a nocao de que prazer, desejo e relacao só é produzida entre humanos, ideia essa que cria imenso gap entre humanos e maquinas por exemplo, ou outras naturezas.

A literatura pósporno tem um estilo autobiográfico e autoficcional. Tem a noção de que o íntimo é político. Tudo que é íntimo interessa porque é exatamente aí que o poder crava seus tentáculos, sendo aí tambem que ele é gerado, onde ele se cria. A escrita Pósporno cruza histórias pessoais com discussões políticas, e essa metodologia se repete como estilo literário, como estética de movimento. Livros como “Postporno era eso” de Maria Llopis, “Devenir Perra” de Itziar Ziga, “Teoria King Kong” de Virginie Despentes, “Testo yonqui” de Beatriz Preciado, esta última considerada uma inspiração teórica do movimento, vão nesse sentido, de trazer a autobiografia e ainda a autoficção como uma militância política. É uma revolução micropolítica, absolutamente estética que tem por objetivo mudar a visão sobre a história do corpo. O estilo literário do movimento pósporno tensiona esse espaço íntimo com uma honestidade angustiante, já que não aponta a grande saída, mas fica remexendo os micropontos, dissecando-os, produzindo pensamento sobre a cena mais cotidiana e tida como dada, como as fantasias sexuais de penetração ou cenas que provocam a masturbação, o sentimento de culpa por se ter tendências dominadoras ou submissas no sexo, adicção a hormônios sexuais, relação afetiva com o dildo, ou ainda prostituição, estupro, rape/revenge (vingança de estupro), etc. O desejo sexual é o ninho da religião. É nessa espacialidade íntima que a neurose, a culpa, o sofrimento são germinados. O pósporno tenta arejar esses espaços para que sejam fortalecidos com outra ética, com menos sofrimento aos gêneros não padronizados. Se para os homens heterossexuais que correspondem ao padrão estético, intelectual e econômico construído pela indústria da uniformidade, já não é fácil ter sua vida sexual feliz e plena, o que dizer sobre os que não correspondem a esse padrão, os fricks em geral? Os esquisitos, os sem perna, os alejados, os velhos?  O desejo é extremamente político, assim como o amor. É nesse ponto que o Pósporno se diferencia da pornografia oficial, porque parte de um princípio ético diferente, que não é o consumo dos corpos, nem a busca do gozo a qualquer custo, mas a construção de novas possibilidades de amor e desejo. Se engana quem pensa que por esta razão a produção experimental e audiovisual do pósporno é delicada e harmoniosa, como é possível verificar em seus livros, filmes e performances, a sexualidade pode ser manifesta de forma até mais violenta do que na indústria pornográfica ou mais radical, com a diferença que muda completamente a perspectiva do olhar, o movimento da câmera é feminista. O movimento é feito de um feminismo pungente, agerrido, prático, tem como função combater a percepção sobre a sexualidade, seus papéis, suas narrativas obesas, determinadas por um vício insuficiente. A insuficiência alimenta a máquina pornográfica, de forma prevista a faz mover-se, mas não satisfaz todos os lados.

Quando se vai entrando no mundo da pornografia, vão aparecendo uma enorme variedade de produções. Muitos desses fetiches não são tão fáceis de encontrar na pornografia mais normal, por não terem público suficiente e serem consideradas menos aceitáveis ou menos excitáveis. O pósporno atua dentro dessas práticas, o que denota o vínculo estreito do pósporno com a pornografia. Estou falando de praticas sexuais como fisting (inserir as mãos na vagina ou no reto), feeting (inserir os pés na vagina ou no reto), BDSM (Bondage – ataduras, dominação, sadismo e masoquismo), public desgrace (humilhação sexual em público), wiredpussy (corpos e órgãos sexuais conectados a cabos de eletricidade), fucking machines (sexo entre humano e máquinas), waterbondage (imobilizar com afogamento), sexo entre velhos, sexo com plantas, com cadáveres de animais, etc. É comum que o pósporno atue em um segmento que dentro da pornografia é considerado extremo. O que os diferencia então?

O pósporno é muito mais precário. Evidentemente que a indústria pornográfica também esta sendo transformada pela revolução tecnológica, e também tem uma história inicial de precariedade, mas o pósporno surge da precariedade, não só da pobreza econômica, da dificuldade de acesso aos meios de produção ou dos investimentos financeiros externos, mas também o conteúdo com o qual trabalha é precário, o corpo martirizado, o contrário do macho dominante, as fêmeas gordas, os machos de falo anomalos, as lésbicas, as libidos escusas, os corpos considerados inferiores, os desejos considerados pobres, as fissuras perdidas. Essa é a precariedade que o pósporno quer dar visibilidade, trazer luz, não como desejo exótico, mas desejo mesmo. O pósporno tem que forjar diariamente os espaços para suas experiências e manifestações, espaços públicos, praças, teatros, ocupações, festas, raves, casa das pessoas, galpões, centros abandonados, etc. São nesses espaços que os corpos/desejos ganham visibilidade, e constroem alternativas a vida sexual dominante.

Diana J. Torres faz um elogio a Belladonna[6] em seu livro Pornoterrorismo[7], dizendo que ao contrário de seus grupos de pósporno, que se encontram a margem das grandes produções de cultura e valores, e que não modificam o desejo da grande massa, ela, Belladonna, consegue atuar dentro do mercado da pornografia, invocando novos desejos desde ali onde a crítica e o vício são mais prementes. Ela diz “(…) penetraciones anales a biohombres, povazos lesbicos autenticos, desgenitalizacion, mulheres empoderadas com dildos descomunales… Por favor, Belladonna ‘es como un mesias, esta abriendo camino a lo que vendra, ye lo hace desde la matriz, no desde los margenes como hacemos nosotrxs”. Já sobre o Posporno em Barcelona, Diana fala que “é um milagre, uma coincidencia maravilhosa, como o círculo dadaísta em paris[8]”.

Seguindo o raciocinio de Diana, a gente percebe que primeiro, ela pensa o movimento pósporno como um movimento de margem (precário) que não consegue transformar o desejo humano em grande escala (ainda); segundo, que é um movimento de vanguarda como o dadaísmo, que se organiza em torno de uma estética em comum e por sistematicas desconstrução do sistema. Controversas a parte, o que chama atenção nessa idéia de precariedade e vanguarda é a radicalidade revolucionária de um circuito erótico e violento, que não se preocupa somente em ser aceito como modelo estético, mas se quer amplificador de praticas muitas vezes imperceptíveis ou pior, ordinariamente sabotadas e reprimidas.

Certamente a ontologia do desejo pósporno está sendo inventada, não esta estacada em algum lugar no antes do humano. Assim como o dadaísmo não é considerado um movimento que importa somente ao circuito artístico, a precariedade vanguardista do pósporno também não se limita a um ativismo sexual espanhol, ele está aí pra enfrentar a cultura inteira, a natureza inteira. Se engana quem cansou do termo vanguarda. Geralmente são os que mais se fodem, para tentar cravar uma idéia/comportamento no mundo, e ainda existem, aos cantaros, sobrevivem de network, conceito, escandalo, certa violencia, exotismo…

Pra terminar, o pósporno foi considerado nesse texto um movimento sexual/social movido por  feminismo e precariedade, uma utopia de liberdade, um movimento de vanguarda estético e experimental. Mas isso e só um ponto de vista de quem recém está chegando no assunto, tem coisas muito mais interessantes pra pensar sobre isso, uma delas por exemplo é retirar do centro da questao sexual o humano.  Há mais coisas entre as sexualidades do que o antropocentrismo admite, mas isso é outro texto.

Referencias:
http://anniesprinkle.org/
http://www.brucelabruce.com/
http://rbcongeladadeuva.blogspot.com/
http://www.dellagracevolcano.com/
http://www.disidenciasexual.cl/
http://elizabethneira.blogspot.com/
http://girlswholikeporno.com/
http://www.postop.es/indice.php#item1
http://www.ronathey.com/
http://subporno.blogspot.com/
etc, etc…

Fabiane Morais Borges – ensaísta, psicóloga, gosta de fazer workshops de máscaras e anda as voltas com tecnoxamanismo. (catadores@gmail.com – http://catahistorias.wordpress.com )

imagens: Quimera Rosa

notas:

[1] Beatriz Preciado, Manifesto Contra-sexual/ 2008. Ed. Espasa (edição espanhola)

[2] Annie Sprinkle começou como atriz de cinema porno, depois se tornou diretora, depois foi se tornando artista multimidia , hoje em dia é considerada uma referência para todos movimentos de arte, feminismo e sexualidade. http://anniesprinkle.org/

[3] Ecosexo –  é como se chama os últimos trabalhos de Annie Sprinkle e sua parceira  Beth Stephens, que fazem bodas pelo mundo afora com elementos da natureza como carvão, agua, oxigênio, etc. A ideia é ter uma relação maiserótica com a terra, tratá-la como amante e não como mãe. http://www.elpais.com/articulo/Tendencias/ecosexo/obra/arte/elpepitdc/20110630elpepitdc_1/Tes

[4] Filme de Lucía Egaña Rojas “ Mi Sexualidad Es Una Creacion Artistica/ 2011, España, (dir.), 46 minutos. –  Aqui esta seu blog:  http://www.blog.lucysombra.org/

[5] Livro de Beatriz Preciado, Pornotopia – Editorial Anagrama S.A Espanha /2010

[6] Atriz de cinema porno, considerada ousada por realizar uma enorme diversidade de estilos sexuais. Aqui esta o blog dela:  http://enterbelladonna.com

[7] Livro de Diana J. Torres “Pornoterrorismo” Editora Txlaparta S.L / Espanha, 2011 – Aqui esta seu blog: http://pornoterrorismo.com/

[8] idem

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