Porcas benditas!!

PORCAS BENDITAS!!

Por Fabiane Borges

Chega! Eu sou uma porca, eu sou um animal truculento, eu preciso de sexo pra viver, senão eu piro mesmo!!! Fico louca! Uma sex party, todo mundo se aquece e se aperta, goza, eu aproveito pra comer todas aquelas menininhas novas, minhas fãs. Delicinha, corpo todo cicatriz, onde se machucou tanto? Porque tantas marcas na pele e tão fundas? Ah, é que eu sou grande há muito tempo, e aprendi que dor se combate com dor. Não é assim? Nem sempre, às vezes dor se consola com anestesia. Mais quetamina. Cheira uma raia passa o prato. Ainda é cedo? Não, já passa das duas. Mas a gente recém começou. Vou te levar pra banheira dos monstros, vêm. Eu quero fazer você soltar água. É assim pôe a camisinha na mão, lambe a mão e atravessa os grandes e pequenos limites. Eu sou uma porca. Eu sou uma cachorra. Não me bata na cara, nem me morda em parte alguma. Me enfie agulhas na testa, nos braços e buceta. Pisa na minha cara. Pôe todo teu peso no meu pescoco. Acho tu leve demais, chama tua amiga, subam as duas. Aqui não temos ciúmes. Isso é uma horda de cadelas. Isso é exercício e alimentação. Temos que ficar fortes e mudar nossos medos. Dar um surto neles! Arreeeee!!!!! Vai para longe, vai com o vento medo lerdo e prepotente. A começar pelas tetas. Que nunca mais sejam cortadas fora, nossas agulhas carregaremos no peito, nas unhas. Ninguém aqui tem medo da dor. Que nunca mais se fale no diminutivo sobre nosso prazer. Quero nomes que lhe expressem, não que lhe diminuam. O pequeno gigante. Ou algo assim.

Assim que eu puder te viro do avesso, agora quero só te ver de quatro. Não, tu afunda nas almofadas, rebola, faz o que tu quiser, ou simplesmente mete os sensores nas mamilas. Eu de quatro ouço teu ruído, rainha. Zoa. Te assisto em quatro patas, enquanto ela me gospe no cú e me chicoteia as ancas. Eu sou teu público, mesmo que não me seja possível parar de ser espetáculo. Dança para mim.

Outro dia a namorada longinqua pergunta: Que doença venérea é essa? Você tranzou com alguém? Não. Voce tranzou com alguem? Me conta. Não, não tranzei. Que cara de pau, estou com a buceta toda machucada, cheia de fungo e corrimento. Me conta a verdade! Medrosa! Sim, tranzei, tranzei com sete mulheres e sete transexuais. Cada uma delas foi uma despedida de você. Não quero a monotonia dos teus humores. Não quero estar atrelada as tuas dorzinhas secretas, neuróticas, você me destrói com sua desconfiança. Você me destrói com seus virus. Eu não sou só virus, eu sou epidemia. Epidemia. E gritou tanto essa palavra, que caiu no sofa esgotada, como quem não acredita no que diz. Epidemia. Epidemia. Eu sou Epidemia. Mas eu quero ir embora da tua vida. Eu não quero mais pegar doenças venereas de você. Para mim tem duas saídas, ou o celibato ou uma monogamia contratual. Nem vítima nem algoz.

Foi um dia triste, saiu tropeçando, pensando naquela palavra, Epidemia… No que ela significava. Todas as hepatites, as raivas, cóleras, febres coloridas. Alastração, contágio de células, aproximação, um veneno quase sem fronteiras e vai passando de corpo a outro, se reproduzindo na casualidade dos nossos contatos. É a maior força que existe nessa vida. Nada supera a força de uma epidemia!! Era isso que eu era até agora, de repente sou saudade.

Dias ruins também vêm e vão. Dependem muito das drogas certas. Existe química certa para se sentir tristeza, ela pode ser conveniente, quando se quer reestabelecer alguma ordem. Eu precisava um pouco dessa tristeza toda, virei saudade, minha droga era ela. Lhe ver me causava angústia, me fazia menina, de repente não era cadela, nem porca, mas pombinha. Comendo as migalhas que ela me soltava, eu seguindo aquele passo certeiro, de quem não tem medo. De quem aparenta não ter medo. Mas já basta. “Nunca mais passarei fome novamente”! Vou viver meu luto por você, e isso será supervisionado pela amiga que conhece meu corpo como ninguém e todas as drogas que preciso. Minha vingança será o que vou criar com o sufoco que você me força viver. Sua vaca! Egoísta. Por acaso se pode dominar o vento? A tempestade? Porque pensas que podes dominar uma Epidemia. EU SOU UMA EPIDEMIA!!!!

Uma tia lésbica. Uma garota 15 anos mais nova que ela, sua “melhor amiga”. O jeito que elas riam. Debochadas. Gargalhando, cochichando. Um mundo engraçado e de segredos. Era assim que eu imaginava a felicidade. As gargalhadas e os segredinhos da minha tia e sua melhor amiga. Não lembro como fui iniciada, mas lembro sim que um dia acordei com ela me fazendo carícias que me assustaram e me deram muito prazer. Safada. Come-come. Uma senhora mais velha deveria comportar-se como uma gata no cio? Lésbica, dizia minha mãe. E eu entendia desde então o que eu seria, lésbica. Mas foi muito depois que isso aconteceu, porque antes eu precisava testar tudo. E caí nos braços de tantas loucas suicidas, junks, drogaditas, uma que queria ser eu, que me fodeu a vida. Que me matou em rituais de fogo, usando cabelos que tirou da minha confiança, enquanto eu roncava ao seu lado na cama. As tratantes, é preciso ter cuidado com elas. Nunca se sabe exatamente onde está se enfiando o punho.

Todas essas cachorras precisam de mim. Eu sou o motor, a matéria bruta. É uma espécie de sacrifício isso tudo. Eu reconheço que elas não me poupam. Eu tenho que me virar para encontrar minhas próprias fontes de energia. Ninguém aqui me dá isso. Eu sou o gerador. Eu sou a energia. O mundo precisa de mim. Por isso não posso parar. Nem cansar. Nem me dar o luxo de me cuidar. É muita demanda, ainda tem muito trabalho, tenho que manter todas cordas esticadas. Minha vida tem que ser explosiva, minha morte também. De todos os medos a superar, o da morte é onde mais invisto. Uma morte exemplar, como foi minha vida. Outra raia e o pensamento escapa. Não tinha vontade de morrer agora, e de repente: Foda-se todo mundo. Alô, Anita? Traz todo mundo para cá, tem uma cama vazia e uma corrente sanguinia carente. Mete tuas farmácias nela, me faz cobaia, me estuda. Quero agora. Sim, chegamos em duas horas. Tanguinha vermelha e levo meu cinturão de emergências, dildo, algemas, chicote, rssss. Te espero, não atraza, preciso terminar a noite com um projeto pronto. Não vem sozinha!!

Cada uma aqui vai tomar o veneno e aprender a gozar de verdade. O gozo não é tudo. Não. O gozo é o começo. Então pra que valorizar tanto o gozo? Inverte a lógica, goza primeiro daí fazemos sexo, cadelinha aflita. Vem aqui chupar um pouco o clitoris da titia, tem gosto de tuti frutti. Hum, que botão mais saltado tem a tia. Eu posso te foder enquanto te odeio. Meu ódio da tesão. É meu motor. Não posso abandonar nem o ódio nem a vingança, infelizmente. Já abandonei qualquer esperança disso acontecer. Quero parir uma filha do macho mais preto que eu encontrar na vida. Quero que ele suma, e quero criar minha filha com uma multidão de mulheres taradas. Vou criar uma cadela lésbica e preta, de quem terei muito orgulho. Isso, pôe a lingua pontuda e passa ela do lado de cima da saliência. Tu viu que correnteza?

Eu preciso do ódio porque o perdão tem seus méritos, mas enfraquece. Já perdoasses assim? A ponto de ficar doente? Sim, desabilita, te deixa desfalecente. Não convém perdoar sempre. É melhor manter as coisas na lembrança e intuir a hora da vingança. Tem coisas que não tem perdão. Como o que? Como o suicidio. É imperdoavel. Não tem como perdoar essa desgraça. Ela se matou na tua casa, né? Por pouco tu não é acusada de alguma coisa. Não perdôo um suicídio tão egoísta. Mas pior que isso, eu não perdôo não ter prestado atenção na minha intuição. Eu sabia que isso ia acontecer, estive sonhando dois dias atraz, mas não confiei na precisão da minha agenda adicta. Nunca mais vou duvidar disso, de que sou a cadela de guerra, um dos geradores dessa matilha. O luto foi todo com a cara de dor dela, estatelada, afundada no asfalto. Nada tinha sido tão doloroso até então. Como não botei a mão embaixo e evitei o impacto? Ela sempre com aquele sorriso baixo, aquele sofrimento não assumido, um cinismo ferrenho, como doença ou religião. No fundo era uma fanática, não deixava de infectar o mundo com seu falso otimismo. Não duvide de mim, eu não sinto nada. Queria ter dado um tapa na cara dela nesse dia e dito: Mentira! Mentira! Abre teu coração, derrama sobre nossos ouvidos toda essa merda. Mas venceu a ironia, eu disse: somos duas, também não sinto nada, e segui caminho.

As porcas, as cadelas, as girafas e as pombas se encontraram. Como esta seu furúnculo? Limpou o fígado? Tomou a erva que te dei? Passa ácido láctico três vezes por dia. Todas as dores, indigestões e questões são debatidas, porque são médicas, enfermeiras, curandeiras e parteiras. Não gostam de medicinas oficiais. Vingam cada falta de gozo de suas avós. E saúdam os chazinhos que as avós plantavam no jardim de suas casas. Aquele monte de plantinhas, sementinhas e benzeduras. É sofrido ter que vingar tanto e sermos tão poucas. As vezes quero desistir. Ando me sentindo fraca. Vamos fazer então a dança da luz. Você vai se sentir mais forte, tenho certeza. Um palco, um balcão , qualquer coisa que me deixe alta e iluminada.

Cabeça no chão, cu para cima, mãos e pés atados. Abro teu rabo e ponho uma luz quente, roxa avermelhada, que vai empurrando eletricidade para dentro do teu canal, aos poucos teus pequenos lábios começam tremer, teu clitóris a emitir uma onda de prazer, tua boca se abre e teus joelhos fraquejam. O prazer é imenso. I am funking the light, fuck, fuck!! Ao contrário de se sentir um ciborgue se sentia demasiado bicho. Atada não podia fazer muito mais do que tremer e gemer. A onda atravessava seu útero, seu fígado, fazia vibrar a carne por si mesma. Era esse o novo vício da matilha. Chicote de luz, penis de luz. Eu escolhi a cor por ideologia. Não se sabia ao certo se a luz era tão bonita assim, ou se eram os alucinógenos que lhe embelezava, mas todas anuiam, era a melhor foda. Voltar a abraçar com as pernas o corpo de um humano era enfraquecer algum elo, romper uma aliança que era mais convicta que qualquer encaixe. A luz é desinteressada e generosa e faz a carne toda tremer.

As alianças entre o metal e os corpos já fazia parte da vida das cadelas há algum tempo, de modo que a dor não representava nenhuma ameaça, era um consolo, que curava as dores do mundo. Atravessar o limite do prazer e da dor era o ritual de iniciação. Eu faço questão de por essa novata à prova. Quem não consegue passar por isso será desprezada. O desprezo é irrefletido, mas eficiente. Não és parte de nós. Não és da nossa tribo. Nossa tribo precisa de marcas, porque somos nômades, precisamos nos reconhecer. Sem isso, não tem sinal, sem sinal, não há cumplicidade. Isso é machista! Machista nada, isso é o sinal do matriarcado. Todos os homens que nos rodeiam devem ser os que nos chupam os pés e os que nos obedecem, nenhum homem será bem vindo se não for marcado. As excessões dependem do serviço que nos prestam. Não gostaria de participar disso. Não tem saída, é assim que deve ser, para que a força não se perca. Mas voce pode partir, porque não nos interessa teu medo da dor. Abre a porta e oferece a rua para a que seria iniciada, que pega uma gilhete e diz, eu vou fazer, eu mesma vou fazer. E fez. Aos olhos de todas ofereceu sua mamila sangrando e disse, porque tenho que passar por isso, porque? Tenta calar a boca agora e te concentrar na dor. Mais tarde falamos do resto todo. Nesse momento ganhou respeito, foi incluída. A nova chegada precisa de cuidados especiais. Passou por todas as mãos, e gozou muito.

No outro dia a mesma demanda, a mesma queixa, à todo vapor, corre para terminar o concerto da moto, passar no banco, pagar o trouxa do agiota. Quero descansar agora, por favor, alguém se lembra a cor da luz, onde esta todo mundo? Bateria fraca e insone, qual melhor maneira agora de não desistir? Respiro mais um pouco e me entrego ao delírio do sono, sonho com cada uma de voces, porcas benditas!

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