Megalomania etíope

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

E viu Cam, o pai de Canaã, a nudez do seu pai”

 

Alice,

Eu me chamo Beimnet e moro em Lalibela, uma pequena cidade na Etiopia, famosa entre os turistas e entre os viajantes religiosos. Nossos reis séculos atrás mandaram esculpir enormes igrejas dentro das rochas. Gente do mundo inteiro vem a Lalibela. Quase todos brancos – Faranjis, como nos os chamamos. Mas nem todos. Mas converso com muitos viajantes e eles me contam coisas. Aprendi algumas línguas com eles – o suficiente para ler alguns livros do tipo que eles trazem. Sei que isso tem um preço: fiquei mais aflita, mais preocupada, menos generosa, me distancio das mulheres da minha familia, vejo elas com certa vergonha, como se fossem bichos inferiores, com seus dentes meio podres, suas risadas desproporcionais. Pobres. Essa é a palavra. Tenho sentido um pouco de cansaço de repetir a historia do meu povo. Mas aprendo coisas. Quando tinha uns 10 anos de idade me interessei pelas cruzadas. E queria ir até Jerusalém para compará-la com Lalibela. Comecei a ler sobre Jerusalem e perguntar a todos os que eu encontrava o que sabiam daquele lugar. E foi dali que eu comecei a querer entender porque os Faranjis pagam tanto para poder ir a todos os lugares que quiserem conversando o mínimo possível. Um olho para ver outra coisa, outro olho para dormir. Comecei a ler livros sobre as expedições européias à África. Eles levaram ouro, diamantes, um monte de coisas, escravos, bichos, ervas, folhas, frutas – e não levaram nada. São encaixotadores, fazem tudo caber das caixas que eles transportam de volta para casa. Depois comecei a ler sobre os sarracenos, os mouros, os árabes que invadiram a Europa.

Quando tinha quinze anos encontrei Anna, uma Faranji que transportava dinheiro de várias partes do mundo para as capitais africanas. Ela nem queria saber de onde vinha o dinheiro, apenas trazia milhares de euros e dolares espalhados pelo corpo em geral para Kinshasa, Luanda, Nairobi, Kigali ou Addis Abeba. Ela fazia uma viagem a cada dois meses e ficava uns quinze dias, as vezes, pelo país. Tinha uma cara de Faranji acima de qualquer suspeita, com passaporte norueguês, ainda que seja da Argentina e do Brasil. Ela estava passando uns dias no melhor hotel de Lalibela e me encontrou no meio da rua, como todos se encontram na Etiópia. Eu ofereci meus serviços de guia, como eu sempre faço. Ela disse que nunca tinha visto uma menina guia em Lalibela. Eu lhe perguntei de onde vinha e ela me contou uma versão oficial, depois uma versão menos oficial e depois de alguns dias ela me contou tudo. Eu lhe perguntava sobre livros e depois de uns dois ou três dias ela baixou e imprimiu um livro seu, Alice, sobre os negros que vivem nos países Faranji. E ela leu alguns parágrafos para mim, em voz alta, à luz da lua de Lalibela, me oferecendo umas pitadas do seu cachimbo que eu não sabia o que tinha dentro, mas que me deixava tranquila e atenta. Ela leu que os brancos tinham inveja dos negros, que a inveja, mais do que a cobiça, os tinham posto na África. A cobiça é quando você quer tudo para você. A inveja é quando você não quer que ninguém tenha nada que você não pode ter. A cobiça parece com o momento quando os outros estão dançando e você começa a dançar também. A inveja faz a música parar. Eles vieram aqui, viram nossas peles, nosso quadris, nossos pés, nosso entusiasmo na insegurança e acharam que não podiam ter nada daquilo. Tiveram inveja, não bateram em retirada. A inveja te deixa insensível para a dor – é como apunhalar um deus, como esfaquear uma baleia. Segundo o Kebra Nagast, o livro sagrado dos reis descendentes de Menelick, Caim matou Abel por inveja – movido pela inveja de Satã. Assim, eles nos olharam: a pujança parece infindável, a exuberância imortal. Esta força perturbou os brancos. Eles encontraram abundância demais. A força deles está na sua coleção de convicções. Acho que é porque eles têm convicções demais. Mas o excesso de convicções deixa todo o resto miudinho. Rasteiro. Eu perguntei para Ana: por que os brancos tem tantas certezas, é por isso que eles não barganham, eles acham que as coisas estão todas prontas? Anna me olhou, sorriu. Ana tinha uma pulseira prateada no braço direito, que ela arrastava pela pele quando me ouvia. Ela tirou a pulseira e pôs no meu braço. Ela disse que combinava com meus dentes.

Alice, você sabe que a Etiópia é a gaveta secreta da história branca. Ou eles embranquecem nossas datas, ou eles apagam nossas versões. Embranqueceram David e Salomão, embranqueceram Jesus e Madalena – apagaram Axum, apagaram a raiz negra do monoteísmo que eles consideram civilizado e sóbrio e moderno. Os Rastafaris são clandestinos, marijuana ilegal. Baniram as ervas, fizeram uma monocultura da fermentação – são a cultura do armazém, sabe? A cultura do guarda um pouco pra depois – prevêem a escassez. Eles querem cortar todos os cordões umbilicais com a África, mesmo que tenham que cortar todas as suas fontes de irrigação. Nós temos sido quase sempre pacíficos quando eles nos visitam. Uma viajante que Anna e eu conhecemos nos disse que havia passado uma semana em uma 4 por 4 no baixo Omo, perto da fronteira com o Kenia. Ela disse que os nativos cercam os carros para pedir dinheiro, dançar, vender mangas e exibir bugigangas. Muitas vezes armados de facas ou de metralhadoras. A próxima geração vai aprender a fazer emboscadas, ela disse. Talvez quando aprenderem a fazer emboscadas é que vão sair da miséria, eu pensei. Foi assim no Brasil, disse Anna, quando os miseráveis viraram criminosos o país começou a distribuir riquezas e virar potência econômica mundial. Eu fiquei pensando que a violência não me assustava. Mas não queria fazer emboscadas – não queria cultivar a escassez. Queria fazer um outro cultivo.

Uma noite Anna me convidou para atravessar a fronteira com a Eritréia com ela, apenas para beber um expresso italiano. Naquele tempo, atravessar a fronteira era mais fácil. Eu me preparei para uma viagem de três dias, mas terminei ficando uma semana. Anna me mostrou muita coisa, todas as noites lia algum texto de uma negra americana ou nigeriana para mim. Ela havia estado na universidade em Austin, Texas por dois anos antes de desistir e resolver vir para a África. Ela começou com a Nigéria mas logo entendeu que sua vida dupla começava em Londres, ou em Estocolmo. Entre suas viagens, ela mora em uma casa na beira de um lago na Suécia, duas horas de carro do aeroporto de Estocolmo. Ela me convidou para ir até a Suécia, mas eu não quis, ela comprou uma passagem de avião para mim até Addis Abeba e de lá de volta para Lalibela. Da viagem de volta lembro de muita coisa, por exemplo do contato de Ana em Addis, um senhor chamado Isaac K que mandou seu motorista me buscar no aeroporto e me abrigou por um dia em um prédio alto onde morava. Isaac era um velho Rastafari e havia morado anos em Londres. Eu lhe perguntei sobre os Faranji e ele disse: eles gostam mais do dinheiro do que do que ele pode comprar, gostam mais de segurança do que de paz. Isaac não me mostrou livros e nem parecia que lia. Mas ouviu música quase a noite toda. Antes de se despedir mandando seu motorista me levar ao aeroporto, ele me disse: Anna, Anna sabe o que faz.

Estou contanto tudo isso, Alice, porque foi nessa viagem – acho mesmo que no caminho de carro para o aeroporto de Addis – que eu comecei a planejar o que eu iria fazer. E que quero te contar nesta carta. Não porque te escolhi como cúmplice, mas apenas porque acho que você pode me ajudar mais. Se você quiser apague a carta e diga que não me conhece ou que eu alucino. Estou acostumada com as alucinações, quase tudo que falam do meu país é jogado sempre na vala comum da alucinação. Ou ficar em silêncio. Quando eu leio o que você escreve eu entendo que tem silêncios que são como ar para respirar, tem silêncios que irrigam.

Naquela viagem eu pensei: ou os Faranji são uma praga incorrigível ou são apenas mal formados, foram educados para invejar, para amar a segurança, para procurarem sempre uma certeza onde se abrigar do mau tempo. Se forem uma praga, não há nada a fazer. Mas se forem corrigíveis, posso tentar algum gesto. Em Lalibela há algumas grutas e nós aqui conhecemos os dutos que levam de uma a outra. Há pessoas que vivem nas grutas, dentro das pedras, as vezes ao lado das igrejas, as vezes longe delas. As pessoas podem se esconderem entre grutas e dutos por anos. Há também alguns caminhos quase desconhecidos, tuneis que são como ruas ermas que ninguém frequenta. Alguém poderia viver clandestinamente ali por anos. São calabouços semi-naturais, e são também depósitos, esconderijos, refúgios e trumfos. O resto do mundo pode ter passaportes e passagens de avião. Nós temos as pedras. Quando cheguei de volta a Lalibela já estava convencida delas. Os interiores das pedras são ar dentro da terra.

Passei a raptar, Alice. Minha estratégia é simples e tem se mostrado eficiente. Capturo os viajantes para os quais trabalho como guia. Tenho outros dois guias amigos que também selecionam alguns brancos para serem aprisionados, mas a última palavra é sempre minha. Pomos todos eles em algumas grutas de difícil acesso onde os alimentamos e os instruímos. De noite minhas amigas e amigos vêm visitá-los, conversam com os faranji, bebem com os faranji, cozinham com os faranji, dançam com os faranji e as vezes dormem com os faranji. Não capturo muitos deles, e escolho eles a dedo. Eles tem que me olhar de um jeito em que eu detecto uma soberba. E são todos capazes da crueldade de quem prefere aniquilar aquilo que não alcança. Não escolho pessoas violentas. Prefiro aquelas em que eu detecto alguma simpatia, algum acolhimento, convivendo com a impaciência de fundo que se confunde com a pele branca. As vezes convivo com eles por um dia inteiro antes de decidir que vale a pena mantê-los aprisigonados. Eu tenho uma pequena equipe armada de kalishnikovs que só aparece para obrigar cada um deles a avisar em casa que está tudo bem para que ninguém os procure e ninguém anuncie o rapto. Tampouco os prendo por muito tempo, apenas por algumas semanas. Já soltei uma meia-dúzia deles, quando confio que eles não vão me denunciar. Trata-se de uma re-educação. Eles ficam presos e eu tento arrancar deles um pouco das certezas insólitas, um pouco da inveja desmedida que os deixa tão perigosos. É um pequeno trabalho, sobretudo porque evito os casos difíceis. Meu pesadelo é que eu sei que alguns deles jamais vão merecer minha confiança. Talvez então tenha que matá-los, mas ainda não quero me adiantar às coisas.

Já estou há quatro meses em atividade. Mais de cinco pessoas já passaram pelo processo e voltaram para seus países. Amanhã, no início da manhã, soltaremos Skeeter, uma americana do Mississipi e nossa sexta refém a ser liberada. O que me interessou em Skeeter é que ela foi uma militante contra o racismo quando mais jovem. Ela me contou mesmo que passou anos só transando com negros pois achava que os brancos eram todos inimigos da sua causa. Ela publicou alguns livros sobre as mulheres negras e havia lido algumas coisas que você escreveu. Nos últimos anos, ela me disse, ela se tornou uma advogada, se casou com um homem branco e rico e passou a fazer viagens entre a Etiópia e a Jamaica informando processos de reparação pelo comércio de escravos. Skeeter nos olhava como quem já sabe o que somos – como se ela tivesse experimentado e permitido que as experiências se concluíssem. Era como se os negros fossem para ela como a mocidade perdida, algo que ela teve que abandonar para poder sobreviver. Eu não suporto esse olhar. É uma variante da inveja, feita de desistência, de incapacidade de resistir, de confissão de fraqueza – uma fraqueza disfarçada. Uma noite eu perguntei para ela porque. Ela me falou que havia desistido. Os faranjis inventaram a seriedade adulta, aquela em que as antenas são desligadas e o corpo toca sempre o mesmo disco. Acho que a vida adulta é uma impáfia branca. E a inveja dela me humilhava.

Skeeter mudou muito em quatro semanas. Depois de uma semana em silêncio absoluto, começou a fazer perguntas. Começou a me pedir que falasse das montanhas, dos arbustos, das grutas, dos desfiladeiros e das cobras. Ela não queria falar das pessoas, mas queria que eu lhe falasse sobre os bichos, sobre as hienas que pisavam com pés de javalis para serem mais rápidas, sobre os pássaros que largavam seus olhos na grande fenda que atravessa a África para enxergarem o que acontecia do lado de dentro das coisas. Acho que ela estava consertando suas antenas: as pedras, as folhas, as pequenas correntes de água nos rios secos não são inatingíveis, não é preciso desistir da tentação que elas largam em torno de nós. Elas lambem nossas vísceras, nos convidam, nos incitam, nos impelem. São incandescentes. Estão nuas, lânguidas, ardentes – e robustas. Os faranji desistiram desta dignidade, preferiram invejar, ou condenar, blasfemar, encher de pecado, as coisas. Skeeter começou a sentir a força da sedução tudo o que estava ao seu redor. A cobiça que não é de poder tocar, poder mostrar, poder usar – mas é a de se embrenhar. Depois começou a dançar por muitas horas de noite, e de dormir perto de quem estivesse dormindo na sua gruta. Skeeter esqueceu que estava presa, parecia que a caverna era o lado de fora das suas grades. Insistia que queria ter um filho, que queria ser semeada. Tomava muito vinho de palma e girava pelos braços de todos. Nos últimos dias voltou a ficar em silêncio, mas era outro silêncio. Não era acuada, era convocatória. Ela passou a dançar sozinha, olhando para as dobras do seu corpo.

Eu mesma não queria soltá-la. Ela fazia bem aos outros brancos que estavam com ela. Ela parecia preferir ficar mais. Mas quando eu lhe disse que íamos deixá-la sair, re-educada, ela me disse que precisava de sua passagem de volta para casa o mais rápido possível. E me disse que queria te procurar imediatamente. Ela pagou por um vôo direto para Nova Iorque. Mas vai passar 24 horas em Addis antes de embarcar. Resolvi escrever esta carta para me apresentar a você – e apresentá-la a você. Penso que ela mesma será mais eloqüente. Mas espero que você vai encontrar as forças e a urgência para torcer pelo que eu quero fazer. Não sei por quanto tempo. Mas gosto de corrigir os brancos. Me faz sentir filha do sol.

Beimnet

 

 

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s