A errância e os incomensuráveis efeminismos: sobre a erogênese esquizotrans – fala de Hilan Bensusan no Tirésias de Natal amanhã

Errático. Erótico. Errático. Erótico. Errático. Erótico. Errância. Errado. Errata.  Eros.  Erros.  Eris.  Errante. Errôneo. Errorista. Essas palavras tem uma conexão com o desejo. E com a diversidade ambulante dele. A diversidade perambulante. O desejo que insiste, subsiste, resiste, mas também se camufla, se despedaça, se contagia, se contamina. Ninguém aprende a ser gay – ou muche, ou hijra, ou pottai, ou transgênero, ou nguiu´ – mas ninguém nasce sabendo. Talvez haja quem consiga dar um saculejo de ombros para todas as ofertas de identidade nos cardápios locais ou globais – mas o saculejo encontra a toda hora o baculejo: a interpelação. Althusser entendia que era a interpelação que dava nome aos bois – identidade aos corpos. O sujeito é interpelado e se volta para quem lhe interpela – aquele expediente da polícia, e das ruas que nos chamam sapatão ou viado. É ali que se passa a trama da interpelação – e da errância. Como proceder? Diz Diana Torres, a pornoterrorista:

– O pior que podes fazer a teu inimigo é não necessitar-lhe para nada.

– Não me chamo lesbiana, nem sequer me considero mulher, quem quiser me interpelar me interpele, eu não viro a cara.

O terrorismo é a arte do imprevisto. O errorismo é a arte do não-catalogado. Do que está fora do programa. Fora da casinha. O desejo ama esconder-se. A porno-errorista pensou que era sado-masoquista, que era goiabinha, que era travesti, quis ser baranga, boiola, Barbie e babadeira. Tava errada: era errante. O pior que podes fazer aos que te classificam é não necessitá-las para nada. O erro é pornô. Aquelas que tentam, tentam e são tentadas. Uma vida de tentação. Tentativa atrás de tentação. A porno-errorista também é terrorista, toca o terror do erro: e se eu não for hetero, quotidiano, fútil e tributável? E se eu não for o contrário de tudo isso, o contrário de qualquer coisa? A erótica do terror. O slogan do blog de Diana Torres: por el derecho a ponerme cachonda com que me dé la gana. Há baculejo na etiqueta, há baculejo na classificação – vira a cara, completa a interpelação! – mas não há baculejo no desejo. Ele erra por aí.

 

Os desejos podem ser regulares – ao meio-dia sempre tenho a fissura de lamber folhas amarelas – porém não seguem ordens nem da natureza. E não têm regras. O nosso reconhecimento dele – quando nós os interpelamos e eles viram a cara – é que satisfaz regras. É que a polícia delega a cada sujeito os porretes, algemas e sirenes para sujeitar seus desejos. Ao invés de sujeito aos desejos os sujeitos ficam sujeitos dos desejos. Mas o desejo escapa. Errância. Erogênese. Leminski: “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”. Erogênese. O desejo escapa.

Ele erra. O desejo persegue o erro. O movimento errorista internacional abençoa os que preferem errar a se afeiçoar ao seu quadrado. O movimento errorista internacional conclama a que se persiga o erro. Eros atende. É que Eros é dilapidação. Diz recentemente Heráclito em seus fragmentos recém-cavados:

 

207. Eros é eris, eris é quebradeira. Eris não é só combate, é
disponibilidade – a compulsão a tornar partes de si disponíveis.
Disponíveis: a força centrífuga que impele a fragmentação das partes
que estão coladas; uma força que pode ter a mesma intensidade e
aceleração que a força centrípeta de coesão. A força de fragmentação
tem a direção oposta e raramente tem a mesma velocidade. Muitas vezes
não vemos a ação do ímpeto de fragmentar porque procuramos
ingredientes no mundo. Os ingredientes são peças que não se fragmentam
e que apenas compõem. O mundo não é feito de ingredientes – é jogo de
armar que nunca está armado e nunca está em pedaços. [Tudo se]
desintegra, desinfla, solta ares.


208. Eris é a força de desindividualização: colocar-se a disposição. A
danação dos ingredientes. Os modernos, tão encantados com a idéia de
autoridade integral, preferem olhar para as partes conscientes que são
as que submetem outras e procura retê-las submissas. Dizem: meu corpo
está a minha disposição. Os corpos sempre estão à disposição, mas as
disposições não tem dono.

 

Eros e Eris estão do mesmo lado porque ambas são forças centrífugas. Estão a serviço da deposição por meio de disposições amotinadas. Disposições que não são guiadas pelo controle remoto dos sistemas nervosos centrais – eles apenas as interpelam. Contra as disposições centrífugas, os sujeitos centrípetas – aqueles que trazem toda a sua vida erótica (e seus delírios, suas ganâncias, suas trincheiras) para um centro de gravidade. E os sujeitos centrípetas, inspetores dos desejos dispersivos, são por sua vez produtos do dispositivo de terror anal que Beatriz Preciado diagnostica no seu epílogo à tradução espanhola d´O Desejo Homossexual de Hocquenghem: “Cierra el ano y serás proprietário, tendrás mujer, hijos, objetos, tendrás pátria. A partir de ahora serás amo de tu identidad” E ela conclui que assim nasceram os homens heterossexuais no fim do século XIX: são corpos castrados de cu. Ainda que se apresentem como chefes e vencedores são, na realidade, corpos feridos, maltratados. A engenharia dos quadrados para os desejos é uma engenharia de corpos. Os corpos interpelados apresentam órgãos – que servem para isso e não para aquilo, para excrementar e não para incrementar. Mas o desejo escapa. Diana Torres conta que conhece homens que renunciaram ao maravilhoso prazer de cagar em troca da habitual prática do fisting que é bem melhor que sentar-se à privada com um jornal. Carregam uma bolsa acoplada à perna que está conectada a uma sonda que atravessa o intestino grosso e por onde sai a merda que vai se depositando em na bolsa. Assim eles desincumbem o cu da tarefa de despachar a merda e deixam-no livre de ser um órgão do excremento. Incrementam o corpo, corrigem-no. Conquistam um território para o erótico no centro nervoso do sujeito, erodem o órgão e o deixam à disposição das disposições de Eros. Os desejos às vezes se parecem com urgências, com convulsões que mudam as superfícies. Mudam as etiquetas das superfícies. E chegam a mudar a sirene da polícia que interpela. Como os movimentos tectônicos, os desejos adquirem suas formas nos estados das coisas. É o cenário de etiquetas de identidade que oferece as estrias que o desejo alisa. É no alfabeto das diversidades sexuais reconhecidas (para a interpelação) – duas, ou seis (LGBT), ou onze (LGBTTTIQA) ou outras dez (LGBTKQJH – LGBTKotisQJoginsHijras) – que tem lugar as muitas formas de erogênese.

 

Etiquetas de identidade fazem parte das nossas paisagens: pessoas
descabidas encontram conforto e proteção em se alojar em alguma delas,
como um escudo contra aquelas outras que se apresentam como
compulsórias. Julia Serano gosta de citar Audre Lorde: se eu não me definir por mim mesma, diz Lorde, eu vou ser empacotada dentro das fantasias que outras pessoas aprontam para mim e devorada viva.  Discursos sobre identidade – versões, subversões, aversões, diversões, invenções – são intervenções sobre a política da verdade (e da mentira).  De acordo com a política do baculejo, há um critério em algum manual (talvez a mais recente versão do DSM) para distinguir, por exemplo, uma travesti de uma transexual. Interpelação. Assim, uma transexual MTF como Serano,
uma trans-mulher – que já atravessou o Rubicão da transição – pode ser considerada como tal apenas se for reconhecida por um critério de reconhecimento, o suposto saber de alguma scientia sexualis.

Uma intervenção sobre as verdades é fazer com que certos enunciados
sejam tomados como verdadeiros e outros como falsos – afetar o regime
de verdade. A política das verdades gira em torno da maneira como
descrevemos e interpretamos o mundo e as pessoas (e como as
etiquetamos, se precisamos fazê-lo). Quando um intérprete se depara
com as cercanias dos erros – por exemplo, uma palavra que está
empregada de uma maneira diferente da que considera habitual ou um
corpo que diz ter um gênero diferente daquele que parece – há muitos
caminhos. Podemos perseguir o erro. Podemos habitar nele, e operar o avesso da correção. E podemos perseguir a verdade e tentar detectar em que partícula está o erro. Ele pode ser atribuído ao intérprete ou ao interpretado. Julia Serano, comentando sobre o discurso acerca
de quando transexuais passam, diz que quando uma pessoa diz a
uma cis-mulher em uma circunstância social: “boa noite, meu senhor”,
não dizemos que a cis-mulher não passou ou que sua femininidade está
em questão, mas que a pessoa fez um cumprimento equivocado – errado, e
muitas vezes inadequado ou descuidado ou sarcástico ou cínico ou sardônico ou queria dizer outra coisa. Muitos caminhos. Onde está o erro é o território da política da verdade: afetar o regime de
verdade que articula as convicções. Uma intervenção política pode atuar estabelecendo a verdade de que quando os gêneros são confundidos, o erro está do lado de quem interpreta.  Julia Serano defende que a identidade das trans-mulheres pare de ser regida pelas normas cis-sexuais: “o cerne da questão é que palavras como passar são verbos ativos.
Assim, quando dizemos que uma pessoa transexual está passando,
isso dá a falsa impressão de que elas são participantes ativas desse
cenário. [… ] Eu diria que o reverso é verdadeiro, o público é o
participante ativo primário, se é ele público que tenta classificar as
pessoas em machos e fêmeas. […E] este papel ativo […] é tornado
invisível pelo conceito de passar”. (p. 177, tradução minha). Não se trata de um embuste do baculejo – de alguém que disfarça. Se trata de errâncias com o feminino. De autoginefilia – para usar o controverso termo de Ray Blanchard e Michael Bailey. A autoginefilia que está a um triz da heterginefilia celebrada e padronizada já que a filia, e a ginefilia, são errantes. Mas ninguém erra sozinho.

 

Julia Serano é uma entusiasta das várias formas de efeminismo (as melhores são as mais feministas).  As trans-mulheres adotam o feminino, erram nele e o feminino não é uma condenação para elas. O feminino tem o poder de ser o anátema da ordem (cis-hetero-)patriarcal; ela diz: as coisas de garotas são o equivalente de gênero da criptonita. Serano
quer colocar o feminino de volta no feminismo, e as trans-mulheres –
femininas por adoção, por compulsão e não por conformidade – são
centrais nessa empreitada. Mas trata-se de uma empreitada que tem que
ser articulada de um ponto de vista que não seja cis-sexual: ela quer trans-mulheres na conspiração feminista. A misoginia – na forma de heteroginefobia ou de heteroginefilia – é frequentemente a resposta para o caráter rebelde da femininidade na ordem estabelecida: ela aparece na forma de trans-fobia, na forma de uma repulsa aos cross-dressers e aos pequenos signos femininos no comportamento dos homens. E a autoginefilia efeminista tem muitas caras. Uma babel feminina – Babella: bichas, hijras, muches, travestis, jogins, cross-dressers e cismulheres. O efeminismo pode insinuar uma confederação, uma Internationale das muitas errâncias femininas. O errático, erótico, também aparece aqui: ninguém sabe. Toda scientia sexualis é cheia de terrae incognitae já que quanto mais se sabe, mais se erra. Frua, flutua, não permita que a experiência se conclua. É uma espiral de prazeres que surge dos saberes – e uma espiral de sublevações que surge dos poderes. Um alfabeto, dois alfabetos, muitas sopas de letrinhas nessa babella – LGBTTTMHIQJ… E no meio das letras tem um vão que inventa outros desejos e outros desejos. Erráticos, erótico.

 

O efeminismo tem um flerte com a diferença sexual. Babado forte. As diferenças são erogênicas. Eis um velho estandarte esquizotrans (já de antes do Breviário): que se deixem ir pelo ralo as identidades, mas que se agarrem as diferenças. A diferença sexual (e a fricção que sai das letrinhas nos alfabetos quando elas roçam) produz espirais de desejos novos. E mais, sublevação pode vir de toda parte – binarismo não é conformismo e nem antibinarismo é já transgressão. A diferença sexual é o começo do caminho – dar-lhe um saculejo de ombros não significa garantir que o caminho vai seguir pelas melhores veredas. Parodiando Irigaray, o desejo patriarcal que bate a estaca do sempre o mesmo, onde o desejo se repete a si mesmo em uníssono: hommesexuel est homosexuel. O desejo dissidente é altersexual, ele não se replica, ele passa por mutação, ele pare um desejo errado, errático, errante. Mas a diferença sexual é feita de borrões, de nódoas, de turbulências – não é a diferença dos corpos fixos (e supostamente abençoados pelo destino da anatomia). Pesa contra qualquer fala em diferença sexual o fantasma de Janice Raymond e sua transfobia desvairada supostamente feminista. Ela dizia: quem adentra o corpo das organizações de (cis-)mulheres é um violador… Porém há mais coisas entre o heteropatriarcado e a diferença sexual do que pensa o chauvinismo. Há erogênese. É do roçar dos diferentes que saem os desejos. Esquizotrans é deste roçado. Não se trata de masculinos e femininos fixos, se trata de compor, de trata de um mosaico. É a arte do mosaico – errática, errante – que é nutrida pela diferença sexual. Compor e errar, compor e deixar ao léu. Usar megalofones estriônicos para cada peculiaridade erótica. Não fantasiar os corpos de uniformes. Vestir a roupa errada – o hábito errado faz o monge errado. E faz ele errar, estar errante. A roupa errada do monge é a farda de Eros.

 

 

 

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