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Elizabeth Costello no FIFI-Rio

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Resenha da Julia Serano pra Deriva

Feminismo, efeminismo e a trans-femininidade

Sobre algumas tramas em “Whipping Girl: A Transsexual  Woman on Sexism and the Scapegoating of Femininity”

Hilan Bensusan

Etiquetas de identidade fazem parte das nossas paisagens: pessoas descabidas encontram conforto e proteção em se alojar em alguma delas, como um escudo contra aquelas outras que se apresentam como compulsórias. Escudos: o livro de Julia Serano começa com uma epígrafe de Audre Lorde – se eu não me definir por mim mesma, diz Lorde, eu vou ser empacotada dentro das fantasias que outras pessoas aprontam para mim e devorada viva. Discursos sobre identidade – versões, subversões, aversões, diversões – são intervenções sobre a política da verdade (e da mentira). É que esses discursos tomam partido acerca dos casos em que a identidade é adotada; ou dos casos em que houve alguma espécie de conversão. A política das identidades: há a política do baculejo, aquela segundo a qual há que haver uma prova, um critério de verdade para cada identidade; há a política do sacolejo de ombros, aquela que considera as identidades sexuais mais ou menos como ilusões que podem (ou devem) ser descartadas. De acordo com a política do baculejo, há um critério em algum manual (talvez a mais recente versão do DSM) para distinguir, por exemplo, uma travesti de uma transexual. De acordo com a política do sacolejo, as identidades nunca falam verdades e podem ser como ferramentas da ordem estabelecida que não podem ser adequadamente usadas para desmontá-la. É a política do baculejo que orienta a maior parte dos procedimentos de acesso a tecnologias de transição sexual. Assim, uma transexual MTF como ela, que Serano prefere chamar de trans-mulher – em oposição às cis-mulheres, que nunca atravessaram o Rubicão da transição – pode ser considerada como tal apenas se for reconhecida por um critério de reconhecimento, o suposto saber de alguma scientia sexualis. Já o sacolejo motiva a descartar – ou por vezes a desconsiderar – algumas preocupações como, por exemplo, se uma trans-mulher passa ou não como mulher em um contexto qualquer. Entre a política do baculejo e a política do sacolejo há a política da adoção. Nem é que a verdade dos discursos sobre identidade depende de uma autoridade constituída e nem é que eles não guardam nenhuma verdade: é que eles passam pelo crivo de quem carrega a identidade. Julia Serano defende que as trans-mulheres deixem de serem vistas desde o ponto de vista de uma matriz cis-nomativa que faz com que elas tenham que se conformar com um critério de femininidade – as mulheres que adotam a identidade de mulheres têm sua própria relação com o feminino (e botaram fé nele, escolheram ele, se converteram a ele).

Uma intervenção sobre as verdades é fazer com que certos enunciados sejam tomados como verdadeiros e outros como falsos – afetar o regime de verdade. A política das verdades gira em torno da maneira como descrevemos e interpretamos o mundo e as pessoas (e como as etiquetamos, se precisamos fazê-lo). Quando um intérprete se depara com as cercanias dos erros – por exemplo, uma palavra que está empregada de uma maneira diferente da que considera habitual ou um corpo que diz ter um gênero diferente daquele que parece – há dois caminhos: o erro pode ser atribuído ao intérprete ou ao interpretado. Pode ser que a palavra tenha sido mal empregada ou pode ser que o interprete não tenha uma hipótese interpretativa adequada para (aquele uso d)aquela palavra. Julia Serano, comentando sobre o discurso acerca de quando transexuais passam (p. 176), diz que quando uma pessoa diz a uma cis-mulher em uma circunstância social: “boa noite, meu senhor”, não dizemos que a cis-mulher não passou ou que sua femininidade está em questão, mas que a pessoa fez um cumprimento equivocado – errado, e muitas vezes inadequado ou deseducado. Onde está o erro – e onde está a verdade – é o território da política da verdade: afetar o regime de verdade que articulação das crenças. Uma intervenção política em favor da política da adoção pode atuar estabelecendo a verdade de que quando os gêneros são confundidos, o erro está do lado do intérprete (dos corpos). Julia Serano defende que a identidade das trans-mulheres pare de ser regida pelas normas cis-sexuais:

o cerne da questão é que palavras como “passar por” são verbos ativos. Assim, quando dizemos que uma pessoa transexual está passando por, isso dá a falsa impressão de que elas são participantes ativas desse cenário. [… ] Eu diria que o reverso é verdadeiro, o público é o participante ativo primário, se é ele público que tenta classificar as pessoas em machos e fêmeas. […E] este papel ativo […] é tornado invisível pelo conceito de “passar por”. (p. 177, tradução minha)

Há uma dimensão de êxito em uma escala de prestígio social incutido na noção de passar por: uma pessoa negra pode passar por branca, um homossexual pode passar por hétero. Frequentemente este êxito é associado a um melindre, a um embuste: é associado a enganar as pessoas – como quem representa um papel diferente do que elas são. Quem passa não é o que diz que é, apenas consegue ter êxito em fingir – o que elas aparentam ou querem aparentar, o que quer que elas escolheram ser, não tem importância nenhuma para o que elas são.

Julia Serano pensa que as trans-mulheres adotaram a femininidade – elas introduzem um novo poder rebelde ao que é feminino, que não é uma condenação para elas, mas é uma adoção.  O feminino tem o poder de ser o anátema da ordem (cis-hetero-)patriarcal; ela diz: as coisas de garotas são o equivalente de gênero da criptonita (p. 315). Serano quer colocar o feminino de volta no feminismo, e as trans-mulheres – femininas por adoção, por compulsão e não por conformidade – são centrais nessa empreitada. Mas trata-se de uma empreitada que tem que ser articulada de um ponto de vista que não seja cis-sexual: ela defende a contribuição das trans-mulheres na conspiração feminista. Não se trata de dissolver as identidades (adotadas) com um sacolejo. Serano conta (p. 217-218) que começou sua transição acreditando que havia uma larga distante entre os pólos masculinos e femininos – e que a transição teria que ser um longo processo. A transição, ela conta, foi em maior medida em um súbito – após um pouco mais de quatro meses de terapia hormonal. Ela teve a impressão de que homens e mulheres eram partes de uma enorme alucinação e que ela estava flutuando já que eram por uns poucos trizes que ela passou a ser considerada e tratada como uma mulher. Essa impressão foi passageira, ela conta (p. 220), e assim foi para muitas de suas trans-amigas. Ela completou a transição, adotou uma identidade trans-feminina; aterrissou. Julia considera a femininidade uma identidade que ela usa para se definir – e não há nenhum traço atômico que corrobore ou dê credenciais a essa identidade.

A misoginia é frequentemente a resposta para o caráter rebelde da femininidade na ordem estabelecida: ela aparece na forma de trans-fobia, na forma de uma repulsa aos cross-dressers e aos pequenos signos femininos no comportamento dos homens. A misoginia aparece também em um certo desprezo de certos movimentos contra identidades sexuais às mulheres que se aninharam em uma identidade trans-feminina. Ela enxerga este desprezo como parte de um movimento em direção a uma hegemonia cis no movimento queer: ela desconfia de um cissexualismo subreptício que se aloja debaixo da pele de muita gente com conforto – um cissexualismo transfóbico e muitas vezes trans-misógino. Sem ser trans, periga o queer se cissexualizar.

Julia Serano compara o movimento queer dos anos 90 ao feminismo cultural dos anos 70. Ela cita Alice Echols (p. 349): o feminismo radical era um movimento de empoderamento contra as amarras do sexismo enquanto o feminismo cultural passou a escolher inimigo. Serano compara então o feminismo radical com o Queer Nation (promovendo beijos coletivos no meio dos shopping centers mais straights) e com o Transexual Menace de Riki Wilchins. Em seguida, ela suspeita, alguns movimento queer deixaram de ser infiltração e passaram a se pautar por nós-vs-eles. Começou a surgir a hegemonia da idéia, com um pé cis-cêntrico, de que aquilo que não é suficientemente anti-binarista não pode ser suficientemente demolidor da ordem oficial. Julia e suas amigas trans-mulheres muitas vezes se sentem desconfortáveis em eventos queer – elas são vistas como conformistas porque abandonaram um estado de indefinições de corpo e gênero (eram homens que se identificavam com um corpo feminino no espelho, eram homens autoginefílicos, eram transgênero em suas performances) para se encaixar no espaço binário de ter um corpo de mulher. É como se não houvesse espaço senão para a inconformidade com a diferença sexual: com a diferença sexual se faz muitas coisas,ignorá-la é uma delas, podemos também retorcê-la, transitá-la, amassá-la, embrulhá-la com um papel anti-cissexual, virá-la de cabeça para baixo. É, de novo, o tema de se a diferença sexual implica heteronormatividade. E Julia Serano diz: em nome disso, o movimento queer pode estar gerando suas próprias Janice Raymonds – aquela feminista lésbica que escreveu um livro acusando as trans-mulheres de serem infiltrações masculinas no movimento. Ou seja, criar um monstro de transfobia cissexista em que uma trans-mulher é acusada, outra vez, de ser invasora, espiã, agente duplo – desta vez respondendo à ordem heteronormativa. Descasque o tomate como você quiser, antibinariedade não é (nem suficiente e nem necessária para garantir) antisexismo.

O perigo é que a contaminação dos desejos seja substituída por uma patrulha em quem não pauta toda a sua vida por um anti-binarismo. Como se a diferença sexual fosse ela mesma o que deve ser combatido. Julia Serano teme que “a cissexualização do transgenerismo teve consequencias devastadoras para a habilidade de transsexuais de articular nossa própria perspectiva do […] ativismo. Ao invés de sermos ouvidas e apreciadas nos nossos próprios termos, nos somos forçadas a aderir a retórica LG e a alguns valores para termos voz na nossa propria comunidade. […] Meu medo é que uma tendência homogenizadora seja a oportunidade perdida de ouvirmos várias vozes e mudar as mentes do público em geral. […] Ninguém tem conhecimento superior quanto a sexo e gênero.” (p. 356-8).  Sublevação pode vir de toda parte – binarismo não é conformismo e nem antibinarismo é já transgressão – já que os corpos estão embrenhados em inteligibilidade. As batalhas da inteligibilidade não podem ser alheias a como as pessoas começam interpretando os corpos; o número 2 faz parte da matriz – e a matriz pode ser arremessada contra a heteronormatividade.  Sublevação dos desejos é vertigem, são olhos tontos, genitálias em queda livre: ela pode vir de toda parte, não há trincheiras, não há exércitos formados e nem adianta fazer fortalezas ao longo de qualquer linha Maginot.

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Julia Serrano, Whipping Girl: A Transsexual  Woman on Sexism and the Scapegoating of Femininity, Berkeley: Seal Press, 2007

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O imperativo transcategórico

http://takesupspace.wordpress.com/category/radical-feminist-trolls/

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A tal Elizabeth Costello no FIFI 2009, Rio, semana passada

SANY0147

Entregêneros literais e entregêneros literários: a filosofia e a ficção do triz

Hilan Bensusan

Esta noite eu vou falar do que está por um triz. Ou por dois, ou por três. Qual é o tamanho de um triz? Há em circulação um falômetro para quem acabou de nascer: se o falômetro indica algum número entre um centímetro e dois centímetros e meio, quem nasceu fica a um triz de ganhar roupas azuis e a um triz de ganhar roupas cor-de-rosa. Quando falta um triz, vamos para o limbo – aquele espaço não-sancionado, abjeto e que quase sempre só pode ser visto em alta velocidade. Ficamos do lado de fora das categorias, onde mora o delírio; do lado de fora das montanhas das curvas normais, onde mora o meandro. No meandro se costuram as tramas. Tramas nunca são feitas de um fio só, nunca ficam num Lócus Solus.

Era uma vez um homem, portando paletó e calças forradas. Ele é visto saindo da casa gradeada, ele tranca a porta e sai para a rua – as meninas gritam: é o ladrão. É assim que se veste o ladrão? Que espécie de ladrão é este portando o paletó do respeito – talvez eu devesse procurar algum triz que tirasse do paletó a qualidade do respeito. Nos trancamos dentro de casa – a rua estava aberta a aquele transeunte que infectava, o ladrão. Eu nunca tinha visto o ladrão. Nunca vi o vadio, nem a esposa exemplar e raras vezes a pipoqueira da esquina – ou qualquer dessas pessoas com o destino gravado em bronze. Trancamos as portas, as janelas e só respiramos o nosso próprio ar.

Esta é a ficção do nosso passado: nós conseguimos, ao fazer milhares e milhões de ficções individuais, ficções criadas por seres humanos individuais, grudar uma na outra para parecer um passado comum – um código de endereçamento postal do que já foi passado, com o passado, o presente e o futuro do passado.

Quando alguém nasce, uma matriz de personagens tenta lhe dar cabimento: mesmos os corpos são corpos de personagens, as curvas são curvas normais.

Os limbos são o contrário das identidades. Os limbos são os declives das curvas normais. O triz fica evidente quando olhamos para os rabos das curvas normais, nos rabos das curvas normais vive o áspero, o refugo, o resto – que são temas para os intelectuais delirados por Ana Cristina Chiara. No resto fica uma multidão de não era bem isso. É o que não desliza, o que não passa despercebido, o que salta aos olhos acostumados a um certo andar das categorias. Quantos trizes fazem uma performance? Uma vida? Quantos centímetros, quantos centilitros de hormônio, quantas centenas de palavras? Dizem que os padrões de ativação do córtex são diferentes entre cis-homens e trans-mulheres. Trans-pessoas são aquelas que fizeram uma transição desde sua categoria de sexo de nascença. Cis-pessoas são aquelas que não atravessaram o Rubicão. Os padrões de ativação são padrões. Uma trans-mulher é um caso de ginefilia – ginefilia? Um apego às mulheres, uma fissura pelo que é feminino: como a cliente que quer o bikini igual ao que viu no corpo da modelo, como o cliente que quer a boneca inflável igual ao corpo da modelo, como uma menina vestindo sua boneca, um menino bolinando debaixo da saia da boneca da sua irmã. O desejo é um alvo. É para lá que eu vou. Eu quem? O desejo move as minhas montanhas, me faz deslizar das montanhas por um triz, passar pelo rabo da curva normal. Desejo e acaso – e as tais curvas normais – que poderoso duo para construir um universo. E a ginefilia, dizem as más línguas, fizeram homens construírem civilizações, destruírem civilizações, construírem civilizações. Quanta ginefilia? As vezes a ginefilia é só um amor a Jocasta, por parte da menina que cresce vendo a mãe cortejada ou cravejada da atenção dos homens. A menina poderia querer ser cortejada por eles, mas sentiu por um triz a mais, a ginefilia deles – a heteroginefilia deles. Não quer só ser uma mulher, quer ter uma mulher. O desejo heterossexual dos homens é ginefílico, mas e quem quer levar ao alvo do desejo seu próprio corpo? Genesis P. -Orridge fez da sua vida uma performance da mulher que amava. Como se faz uma performance assim? Operação, injeção, recombinação, saia-balão – a receita está pelas clínicas e pelos teatros mas é encontrada na rua. As transmulheres tem outro padrão de ativação do córtex, talvez não seja em cada caso muito diferente dos cishomens ensandecidos de ginefilia, umas meia-dúzia de trizes. Alguns homens querem ser as mulheres que querem, alguns homens querem ter as mulheres que querem, alguns homens querem ter os seios das mulheres que querem, alguns homens querem ter as pernas das mulheres que querem; as pernas, as ancas, as nádegas, as costas. Alguns querem possuir os ombros, ter aqueles ombros. O desejo se move de triz em triz.

Estrias, ondulações, dobras, onde a passagem é áspera: há quem puxe de um lado, há quem puxe de outro. Quem escreve está no meio desse cabo de guerra. Quem atua está no meio desse cabo de guerra. Há meia-dúzia de trizes de diferença.

Quem escreve tem convicções apenas provisoriamente: convicções fixas atrapalham o caminho. Muda-se de crenças como quem muda de roupa ou de casa, de acordo com as necessidades. Eu posso oferecer uma simulação das convicções, serve?

Minha mão está a disposição: está para ser ocupada. Outras partes de mim estão a disposição: para serem ocupadas. Há diferença entre simular uma mulher em uma mão de homem e cruzar o Rubicão e ter uma mão de transmulher. Há diferença: uma penca de trizes. Há diferença entre simular uma mulher em um corpo de homem e estar preparado para ouvir Hic Rhodus, hic salta. Há diferença: uma medida de autoginefilia. Querer ter em si mesmo uma mulher. Há diferença entre querer ter uma saia e um par de pernas vestido de meia-calça e querer inserir progesterona e estrogênio. Há diferença: algumas ativações no córtex.  Há diferença entre a Mme Bovary na mão de Flaubert e Orlando; há diferença entre o Proust no corpo da Albertine e os padecimentos e euforias de uma transmulher. A diferença? O trânsito entre a simulação e o desejo: o caminho da possessão. Emperra, empurra, impele, impede, vacila. Uma terra de ninguém entre gêneros, uma rachadura. Várias rachaduras, uma paisagem de erosões: entre escrever e fazer uma performance, entre ter um alvo heterossexual e cultivar uma dose mássica de autoheterofilia, entre ser possuído por uma Pomba-Gira, possuir uma Pomba-Gira e querer fazer uma operação para se tornar uma Pomba-Gira. Entre desejo e simulação. Flaubert tomaria umas cápsulas de hormônio, iria até uma bombadeira?  A possessão vagueia por estados abstratos, particulares; por uns estados de disponibilidade.

A disposição para entrar nos lugares proibidos.  Onde há riscos. Para o público e para si mesmo.

E correr o risco, a possessão é fragmentação, é uma força centrífuga, ela espalha, tritura. Há muitas rachaduras na paisagem, é possível estar dos dois lados de muitas delas. O rio Jordão entre quem só finge e quem deseja, quem é cisdesejo e quem é transdesejo. Um rio de riscos. Os trizes de distância entre o literário e o literal. Mais uma vez há um trânsito químico entre o cisliteral e o transliteral. As substâncias que simulam, simulam o desejo.

Cis e trans, depende da posição de alguém no meandro. Qual é o rio que ainda não foi cruzado. Há medidas de autoandrofilia entre as cismulheres. Beatriz Preciado se tornou uma viciada em Testogel porque era viciada em escrever – e queria um certo ímpeto, um certo estilo, uma certa tranversalidade; queria uma velocidade, uma ignorância, uma atenção. Basta estar a alguns trizes de distância da testosterona em gel para que ele, sem ter sabor, sem ter cheiro, sem deixar marcas, se dissolva na pele como um fantasma que atravessa um muro. Entra sem chamar, entra sem fazer barulho – entra pelo contato. A pele é completa passividade para a possessão: não é necessário cheirar a testosterona, nem fumá-la, nem injetá-la. Basta aproximá-la e a pura vizinhança faz com que ela ocupe os vasos sanguínios fazendo uma performance de outros desejo. A testosterona faz uma microperformance pelos canais do sangue, arregimenta, coordena, compõe, faz uns corpúsculos com o que encontra pela vizinhança, enrijece músculos, desativa cuidados, arremessa os braços que movem os braços. E faz escrever – faz a mão fazer esta performance encurvada, entontecida, paralisante. Beatriz Preciado elocubra a farmacopornografia. Não se trata de transsexualizar, ela quer fixar residência no meio do Rubicão: os sexólogos, dizia Haraway, estão perdendo o controle das pipetas do laboratório da scientia sexualis. O testogel foi dedicado aos cishomens; as proliferações, os cromossomiais desejos, os caules, nem é só a paineira que atira coisas brancas pelo ar – a pirataria do testogel livra Beatriz Preciado do infértil da ninharia das bulas.  Quando é que um corpo é deficitário? Não se trata de faltas, sempre falta – faltam palavras, faltam preconceitos com o texto escrito, o gel faz atravessar a rachadura entre a gender bender e a gender hacker. Preciado diz: “a masculinidade e a femininidade são como a depressão ou a esquizofrenia, ficções médicas definidas unicamente de forma retroativa acerca da molécula com que a qual se tratam”. A simulação tem um caminho de trizes para chegar até o desejo. O que faz o testogel, promove o desejo ou simula o desejo? Deve ser devir. Mas muitas mulheres – ortodoxas, cisdoxas – tomam uma dose de testosterona se esfregando em fontes vivas da droga: em peitos, braços, pernas e regos masculinos. Autoandrofilia? Por um triz ou dois estariam em um transtorno de gênero: levo meu corpo até o macho ou levo o macho até meu corpo – hein?

E os trizes podem ser medidos pela exposição ao testogel. Os envelopes do produto vem em uma medida de 5 gramas. Uma grama, outra grama, mais uma grama. O hormônio se espalha pelo corpo, chega aos espaços entre os dedos, chega aos joelhos, chega aos ovários, chega as axilas, chega ao pulso, as mãos, os dedos, as palavras escritas: ela se sente em um fluxo delicioso de forças que sobem com calma, com uma sensação de potência, de liberdade. Não, não esta máscara; não esta cabeça, ela não a quer, mas aquela que ela vai vestir agora, que fica tão bem, que é do seu gosto – uma cabeça com os mesmos traços que a outra, mas mais duras, mais acentuadas. Inútil trocar olhares… Não haverá mais nada a descobrir, tudo será tão claro, tão evidente. É isso que ela deveria ter feito desde o começo, só as condutas fortes inspiram o respeito. As pessoas vão te aceitar como você é, as pessoas se inclinam, dóceis, olhem-me. Sentiu uma lágrima  na ferida, agradável na sua dor, um bom sangue na liberdade. Começou a se levantar. Queria disparar como se este fosse um contrato. Alguma coisa estava errada. Ao se olhar, no caminho do chuveiro, viu a mancha, uma mancha rosa como se uma pequena framboesa ou talvez uma cereja tivesse se chocado contra sua púbis, colorindo com seus sucos de uma raiz inegavelmente vermelha. Deve ser tinta, mas não saía. Mas não podia sustentar a gargalhada. Se pelo menos pudesse sustentá-la por mais do que alguns segundos, contudo – se ela não fosse tão breve e tão amarga. Atravessa estados particulares, as palavras podem sair elegantes, delicadas, mesmo que cruas. E a substância graciosamente se dissolve, se desmancha, as palavras desfalecem, mudam de viço, como se o Sr. Kepesh, de volta do outro lado do rio Jordão, tivesse ido visitar um médico, Dr. Klinger, que dissesse: “hormônios são hormônios, arte é arte”.

Talvez houvesse um tempo em que certos rios ninguém cruzasse, como se os meandros estivessem sempre por um triz, mas um triz mantido a distância.

Eu espero não estar abusando do privilégio desta plataforma para fazer comentários a toa, sobre quem eu sou ou sobre quem vocês são, meus ouvintes. Esta não foi a lição de nada do que eu falei; eu, que, no entanto, não estou em posição de ditar qual foi a lição de nada do que eu falei. Nós acreditamos que havia um tempo em que nós podíamos dizer quem éramos nós. Agora nós somos apenas performers, apresentando nossos papéis. A parte de baixo caiu. Nós poderíamos pensar nesses eventos como sendo trágicos se não fosse tão difícil ter respeito pelo que quer que fosse a parte de baixo que caiu – isso parece a nós como uma ilusão agora, uma dessas ilusões sustentadas apenas pelo olhar concentrado de cada um na sala. Retirem os olhos apenas por um instante e o espelho cai no chão e se desfaz em cacos.

Os gêneros literários, os gêneros literais – e os interstícios entre eles – são cacos de um espelho em que certos trizes parecem intransponíveis. E todos estes banhistas nadando no Rubicão, no Jordão, perambulando pelas rachaduras. Mas os rios não existem antes das margens. Quem chega a margem pode estar a um triz de nadar no rio: e nesse caso as proliferações de gestos e trejeitos saem do controle dos sexólogos, as proliferações de palavras e estilos saem do controle dos estetas – da margem se pula para a marginalia. Eu desejo você. Eu simulo você. Eu possuo você. Eu escrevo de você. Eu performo você… (Eu amo você)  Eu vou fazer alguma coisa com você, já que você me ocupa, me transtorna, me cistorna, minha cisterna – um bueiro, no meandro das ruas, como a rede de esgotos dos meus gestos. Quanto do meu corpo, do meu tempo, do meu ímpeto eu vou entregar a você? A você, quem? Um espelho, eu preciso de um espelho, eu preciso da minha imagem no espelho.

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Esquizotrans e a manhã seguinte do queer: subversão não tem dono

A subversão da sexualidade é virótica demais para ser deixada nas mãos de mamutes, hipopótamos, partidos ou movimentos que escolheram seus inimigos. “Esquizo” em esquizotrans é queer, é militância para dissolver a adaga da binariedade sexual – é a parte que insinua que sexismo emerge de normas de comportamento e de formulação de suposição sobre o corpo das outras guiadas pela binariedade. Confundir o que enxergamos como macho, como fêmea. O esquizo é drag, o queer tem um pau feminino, um par de seios de sujeito homem. E esquizotrans é “trans”, desconfia de um cissexualismo subreptício que se aloja debaixo da pele de muita gente com conforto – um cissexualismo transfóbico e muitas vezes trans-misógino. Sem ser trans, periga o queer se cissexualizar.

Julia Serano compara o movimento queer dos anos 90 ao feminismo cultural dos anos 70. Ela cita Alice Echols: o feminismo radical era um movimento de empoderamento contra as amarras do sexismo enquanto o feminismo cultural passou a escolher inimigo. Serano compara então o feminismo radical com o Queer Nation (promovendo beijos coletivos no meio dos shopping centers os mais straights) e com o Transexual Menace de Riki Wilchins. Em seguida, ela suspeita, alguns movimento queer deixaram de ser infiltração e passaram a se pautar por nós-vs-eles. E tudo aquilo que não é suficientemente anti-binarista não pode ser suficientemente subversivo. Julia é MTF e suas amigas transmulheres muitas vezes se sentem desconfortáveis em eventos queer – elas são vistas como conformistas porque abandonaram um estado de queerness (eram homens que se identificavam com um corpo feminino no espelho, eram homens autoginefílicos, eram transgênero em suas performances) para se encaixar no espaço binário de ter um corpo de mulher. É como se não houvesse espaço senão para a inconformidade com a diferença sexual: esquizotrans não quer traçar limites entre corpo e atitude – com a diferença sexual se faz muitas coisas,ignorá-la é uma delas, podemos também retorcê-la, transitá-la, amassá-la, embrulhá-la com um papel anti-cissexual, virá-la de cabeça para baixo. É, de novo, o tema de se a diferença sexual implica heteronormatividade. E Julia Serano diz: em nome disso, o movimento queer pode estar gerando suas próprias Janice Raymonds e Thomas Kandos. Ou seja, criar um monstro de transfobia cissexista em que uma transmulher é acusada, outra vez, de ser invasora, espiã, agente duplo – desta vez nas fileiras da heteronormatividade. Descasque o tomate como você quiser, antibinariedade não é (nem suficiente e nem necessária para garantir) antisexismo.

Queer, por vezes, arreda um milímetro antes da natureza: como se o corpo fosse disforme e dele pudermos fazer o que quisermos – sim, temos genitálias sem órgãos. Contudo, as genitálias podem ser também manipuladas e Kate Bornstein pode ter uma genitália sem órgãos feminina no lugar da masculina – a performance não para na fronteira do corpo, não reconhece matéria prima; qualquer matéria pode pegar e trair sua prima. Julia Serano teme que “a cissexualização do transgenerismo teve consequencias devastadoras para a habilidade de transsexuais de articular nossa própria perspectiva do […] ativismo. Ao invés de sermos ouvidas e apreciadas nos nossos próprios termos, nos somos forçadas a aderir a retórica LG e a alguns valores para termos voz na nossa propria comunidade. […] Meu medo é que uma tendência homogenizadora seja a oportunidade perdida de ouvirmos várias vozes e mudar as mentes do público em geral. […] Ninguém tem conhecimento superior quanto a sexo e gênero.” (The Future of Queer/Trans Activism, in: Whipping Girl: A Transsexual Woman on Sexism and the Scapegoating of Femininity, p. 356-8).  Subversão pode vir de toda parte – binarismo não é conformismo e nem antibinarismo é já subversão – já que os corpos estão embrenhados em inteligibilidade. As batalhas da inteligibilidade não podem ser alheias a como as pessoas começam interpretando os corpos; o número 2 faz parte da matriz – e a matriz pode ser arremessada contra a heteronormatividade.  Subversão dos desejos é vertigem, são olhos tontos, genitálias em queda livre: ela pode vir de toda parte, não há trincheiras, não há exércitos formados e nem adianta fazer fortalezas ao longo de uma linha Maginot.

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