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PUTA ONTOLÓGICA

daspu

foto daspu

Puta Ontológica,

por fabi borges

Ela disse, eu sou puta, tu é só uma ameaça, um arremedo. Tu quer reivindicar o nome puta só pra ti porque não admites outras nuances que fogem da tua experiência, eu disse. As vezes eu acho que ela sabe que sou melhor puta que ela, por isso me faz sofrer mais do que as outras, porque quer que eu tenha noção de companheirismo, quer que eu tenha sentimento de classe. Me acha individualista e extravagante, uma puta inconsciente de toda humilhação histórica das mulheres e mais ainda das prostitutas. Eu vejo tudo isso, tu me subestima, eu disse, só que não sou autopiedosa, não tenho pena de ninguém e associação pra mim funciona por sincronia e não pelo velho esquema de organização de classe. Sou puta cult. Eu quase parei de me chamar de puta pela tua histeria, tu quase me convenceu que não tenho talento, mas vou te dizer a verdade, tenho muito talento e nenhum princípio. Às vezes bêbada me contavas histórias de solidão que me fizeram sofrer muito por ti. Abortos em banheiros de botecos vagabundos, cheios de homens gritando teu nome na porta de fora, rindo de ti, muitos sabendo que podia ser um deles o culpado, e isso era uma piada, se acusavam entre si, é tu, é tu, enquanto tua barriga doía e tu não morria. Outra vez fostes encontrada quase morta na rua, bexiga arrebentada, hérnia, coluna, gastrite, úlcera, todos teus órgãos se rebelaram contra tua forma de vida, só outra puta mesmo para te salvar, te levar pra casa, te alimentar, cuidar de ti como talvez tu nunca tenha cuidado de ninguém. Tu têm muitas histórias doídas, por isso te sentes heroína. Por isso pensas que és superior, por isso te negas aprender o que quer que seja. Tu é convencida, o sofrimento te fez vaidosa, tu te acha especial, uma sobrevivente como poucas. Tu me humilhou naquele dia na frente de todas as outras putas, me dizendo que meu desejo de ser puta não passava de covardia diante do mundo. Que eu tinha outras oportunidades, mas não suportava dificuldades. Que todo esse movimento de quadris que eu tinha desenvolvido e acreditado que era talento não passava de uma fuga do mundo que estava preparado para mim: o mundo das negociações, dos discursos, das articulações políticas e financeiras, do colocar a cara a tapa para ver se eu era competente em outras áreas. Talvez seja uma mistura disso tudo e tu estejas certa. Foi por ser sexualmente livre, mas totalmente sem confiança que desenvolvi um ritmo sexual que enlouqueceu tantos homens, com os quais nunca tive filhos, quase nunca precisei cobrar nada para receber tudo o que eu queria e nunca fiquei mais tempo do que o necessário. Talvez seja porque sou cética, porque não acredito no amor ou melhor, porque acredito tanto no amor que sou capaz de amar tantos quantos eu tiver paciência. Algo de talento e carisma de puta existe em mim, e fico tentando entender que imaginário é esse que se colou na minha nuca para eu achar que não quero saída. Seria uma vontade de ser subalterna, tratada como descartável? Para mim não existe outro caminho mais sedutor que eu poderia recorrer. A vontade de ser puta, de ser sustentada pelo prazer que eu possa ter e dar, dar, dar, de ser livre e nunca ter nenhum cafetão sempre foi alvo da tua inveja. Tu que passastes por tantos caminhos parecidos com os meus, que no final te trouxeram desonra. Violência. Tu nunca entendeu a ontologia das putas. O desejo ontológico que foge da apreensão de classe, de exploracão e mais valia. Tu nunca foi a fundo nos teus desejos escusos. Tua vontade de ser puta se reduzia a um paradoxo até simples que te excitava, que ficava entre tua formação cristã e tua rebelião contra essa formação, tua rebelião carregava o signo do que para ti tinha de mais pecaminoso: a prostituição. Tu te utilizavas da prostituição para lutar contra tua culpa cristã, e tua culpa crista nunca te abandonou por causa disso, tu criou um círculo vicioso em torno de ti mesma e cada vez te afundou mais. Já eu, nunca precisei trabalhar com contradição nenhuma, porque não fui criada no pecado, não tive formação de culpa e sempre galopei solta pelos campos onde me exibia desde pequena aos peões, aos pescadores e aos touros bravos. Tu teve um pai austero, eu não tive pai. Tu teve uma mãe religiosa, eu tive uma mãe louca. Tu teve irmãos mais velhos eu tive só eu e o mundo. Tu tenta me alimentar com tua sabedoria, mas na verdade queres me submeter a doses de culpa e vergonha às avessas para me sentir mais próxima da minha turma. Mas tua turma é a culpa e eu não quero culpa eu quero tu. Tu é a única que podes me entender. Me reconhecestes no bar desde o primeiro dia que me vistes, mesmo que eu estivesse disfarçada de óculos de grau, livro nas mãos, cigarrilha vermelha e pagando minha própria bebida. Tu mandou o garçom me entregar um uísque vagabundo com um bilhetinho dizendo: senta aqui. Como tu adivinhou que eu aceitaria? Tu uma velha feia com um batom vermelho que fugia dos teus lábios e escorriam pelas beiradinhas enrugadas da tua boca. Tu quase me deu pena, mas quando vi teus dedos amarelados de cigarro, os teus dentes escurecidos, te amei. Invejei cada um dos teus traços. Te fiz minha mestra. Te respeitei profundamente para que me ensinasses tudo o que eu não sabia. Te tornastes minha sorte, meu salto, minha mais profunda alegria. Me contavas dos gestos de sedução, cada um deles. Eras pedagógica. Desenvolvestes um roteiro de olhares, de toques, de beijos, de maneiras de utilizar a língua. Pesquisastes a fundo os pontos de prazer do corpo. Os contos a serem contados no ouvido, os ruídos importantes para o coito. Eras a mestra mais deliciosa. Te enchi de presentes, de perfumes, de roupas de bom gosto, cortei teu cabelo eu mesma e te deixei fashion. Me contavas dos poderes de cada dedo, das cores das unhas e das cancões de ninar. Nesse tempo estávamos como apaixonadas, andávamos de mãos dadas no entardecer, atirávamos pedrinhas no mar, tu que colecionava pedras eu só as catava pra ti. A segunda fase foi mais densa. Contavas da violência. Dos tempos difíceis nas ruas das cidades grandes da América Latina. Das drogas pesadas que usavas, das bebedeiras sem fim, dos homens quaisquer que catavas nas ruas desesperada, daquele cafetão que te fodeu a vida, que te roubou, que te deu essa cicatriz na cara que eu gosto tanto mas que te lembram épocas sofridas. Me contavas o quanto fostes valente ao baleá-lo no joelho, de o ter aleijado e de nunca mais ter voltado à Colômbia. Da paranóia que entrastes por achar que estavas sendo perseguida, que ele mandaria medir o teu caixão, dos dias insones depois de tantas caronas em caminhões, de carroças, do estupro feito por um índio que era da tua mesma longínqua etnia e que te fez entender que minoria não era só afeto e união como costumavas pensar. Das fugas por entre as ilhanas da Amazônia, da beleza de um boto com quem fizestes amor em Novo Airão. Do boto que te fez carinho, que te levou para nadar pelo Rio Negro, que te ensinou a acreditar de novo em mito, e em toda sorte de lenda, que te ativou a fantasia que te devolveu o brilho da pupila. O boto que dizes ser o peixe que ama as putas, ele próprio puta. Naveguei nas tuas lágrimas vertidas pelo único filho que tivestes, que segundo tu mesma é filho do boto cinza, que deixastes escapar das mãos na inexplicável tempestade que vivestes em um rio cor de láudano. Dos cerca de 50 homens por dia que atendestes no garimpo, que te encheram de ouro, mas que por submergir à sua cultura gastastes tudo quando chegastes à cidade. Depois teus contos do Porto de Manaus, dos estrangeiros que te pagaram bem, dos que te recuperaram a conta bancária, que te levaram por viagens pelo Atlântico, mediterrâneo e Pacífico em barcos brancos e limpos alguns dos quais ainda te recordas às gargalhadas. Tua mala era cheia de pedras nesse tempo, já que não tiravas fotos. Tocas até hoje as pedras para lembrares que tens história. Hoje és uma cafetina consagrada, as putas do mundo te respeitam e querem ser que nem tu, eu quero ser que nem tu e vou ser, porque colei tuas manias no colar de pedras que escondi num lugar de guardar segredos, pedras que roubei de ti. Com esse colar imagino governar a casa especial que abristes que abriga tantas putas de tantas diversidades de cores e línguas. Te irritas comigo porque nunca quis ser uma das tuas putas. Não aceitei teu convite porque sou empresária do meu próprio corpo e não suporto chefes. Tu só podes ser minha mestre por minha escolha, mas a qualquer sinal de submissão às tuas ordens, te desobedeceria por pura impaciência de ser mandada. O melhor de ti está no copo, quando me falas taquílala, da coleção de toques que ensinas para tuas putas, das mulheres incríveis que tivestes como freguesas com as quais aprendestes a fazer amor lésbico com quem quer que seja. Tu me dizias: puta não têm essência. Isso me frustrava. De algum modo grudei em ti para que me mostrasses a natureza da prostituição. Havia de ter algum lugar onde se justificasse a existência desse ser para o sexo. Encontro Madalena em todo seu apedrejamento e seu perdão, encontro Pomba Gira em suas sete versões, suas sete saias e seus sete maridos, encontro Afrodite com sua belicosidade e sua sedução, mas daí não conseguia pensar a relação disso tudo com o capital. A barganha, a moeda de trocas. Tu me confundia, me confundes. Tu costumavas me chamar de careta quando te perguntava como funcionava teu argumento pró-prostituição diante do movimento anti-capitalista, dizias: prostituta existe em qualquer sistema, comunista, capitalista e qualquer outro. Fizeste eu entender que as putas estão entre as coisas, os sistemas, os poderes. As putas não tem nacionalidade e tão pouco gostam de guerra, elas estão entre as coisas, entre os bares, entre os partidos políticos, entre as guerras. Não porque as putas não tem senso de política, mas porque não vêem sentido de demarcar de forma truculenta nem os corpos nem os territórios. Por isso a violência, o estupro e a violação a uma puta é sempre demonstração gratuita de um ódio a liberdade, porque se tens acesso ao corpo não precisas tomá-lo à força por pura idiossincrasia territorialista, é um dos outros terríveis paradoxos – território, posse, invasão, destruição, morte na cruza com o corpo – . A violação a uma puta é sempre menos inteligível apesar de se equivaler no horror a qualquer ser violado. A puta opera num entre a vontade de propriedade e poder e a vontade de nomadismo e liberdade, ela sustenta o paradoxo na sua prática diária sem defender nenhuma ideologia. É o ente do entre, doente de civilização, mas de modo nenhum sua doença. A entrada na prostituição é uma aclimatização e não uma escolha. Uma escola e não má educação. Diante dessas descobertas sobre ti, sobre mim e todas as outras, me encheste a cara com tua baforada e me repetiste: careta! Como tu é careta!!! De novo em busca da essência e todas essas qualificações que grudam em mim. Tira essas idéias de cima de mim, parece discurso abolicionista ao contrário. Tirar a idéia de decadência, de doença da civilização, da sensação de morte que carrega a puta é tirar seu echarpe, seu óculos escuro, seu charme. Não há nada de problemático no flerte da puta com a imundície e devassidão, tu dizias. O que está errado é esse amor ao plástico e às plásticas, na cara ou no museu. É o horror à vida sem ideal, o medo de perder o grande sentido da riqueza, da idéia e da limpeza. Uma coisa tá atrelada à outra. Ninguém nasceu pra ser puta, nem bancária, nem empresária. Todas essas escolhas são alinhavos, aconchavos, suturas, repetições dentro de um contexto maior que não se restringe econômico mas está cheio dele. Não se restringe às territorializações, mas está cheia delas, não se reduz a sobrevivência da mulher ou do michê, mas tá cheio disso também. Não vais encontrar essências, vais encontrar linhas de contato, algumas que fazem gozar. Sim, eu entendia, mas faltava dados. A ontologia que eu falava era sem cabimento, você não captou minha busca pela ontologia da puta, eu disse, e me coloca essas ataduras todas para me atazanar a vida, sua puta! Porque tu é puta? Como tu é puta? Para que? Eu perguntei a ela, já frustrada com minha própria insistência e com a sensação de ineficiência por não conseguir garantir um lugar para mim na mitologia, na ancestralidade. Gueixas, me ajudem! Quem as fez gueixas? Foram os homens sedentos de mulheres fáceis e sem moral? Foram vocês que se mostraram sedentas? Há uma dose de enlouquecimento nessas aclimatizações, eu dizia a essa puta velha na minha frente que achava minhas histórias ingênuas e de pouca relevância. Perto das suas experiências, todas minhas dúvidas e experiências eram por demais infantis, burguesas e até saudáveis. A aclimatização primeiro eu dizia, seguida de profunda imersão, depois as conseqüências, as marcas, e por vezes completo afogamento, quando perdes a vez da saída, ou quando te faltam senhas para a fuga. Mas é sempre o outro que te diz o que tu significa, seja com gestos, palavras, acolhimentos ou rejeições. Em última instância, puta é só palavra eu dizia. Ela dizia, puta é palavra abusada de sentido, que escarifica o corpo, mas também é reconhecimento. Sim, porque quando te tornas puta, estás num rio lotado de putas, e nem todas têm tempo para essa elaboração toda. Eu sei, eu disse, as vezes me sinto mal por não ser suficientemente prostituída, e fico com essa imagem de puta mito. É como se eu não tivesse mundo. Mas aí tocas num ponto muito interessante, dissestes, a puta é alguém que cola no mundo alheio, é uma parasita, uma sanguessuga, uma chupa cabra, ela se alimenta da diversidade de mundos, estar antenada no corpo do outro para viver suas fantasias, é trabalho árduo, trabalho de feiticeira, tem que estar atenta ao desejo alheio com o fim de sustentar essa fantasia, e tem mais, de garantir liberdade para o cliente para não construir um ambiente de repressão, se fazes isso muitas vezes por dia, isso se torna muito fácil, essa leitura do corpo. Então se trata sempre de aclimatização, eu repeti, ela disse sim, e de muita paciência. Chegamos a conclusão que ser puta é um clima, um jogo de palavras, uma necessidade, um estado passível de ser acionado, atualizado, upload, devir, uma radicalidade. Esse clima, no entanto, é sempre cercado de preconceito, o olhar sobre a puta é o que mantém esse isolamento ideológico tantas vezes atrelado a violência. Sorris quando falas que por mais arriscado que seja trabalhar nas ruas, existe uma relação que se estabelece com o espaço urbano, com os bares, hotéis, polícia, traficantes, turistas que é riquíssimo, cheio de relações e vizinhanças, enquanto dentro de uma casa de prostituição evidencia-se mais fortemente as hierarquias, os horários, as funções são mais prescritas. Liberdade ou segurança? Uma certa loucura da puta na rua. Eu tenho medo das drogas, dissestes. Depois de quatro vezes no pronto socorro com princípio de overdose por excesso de cocaína, fiquei ressabiada. Muita droga, muita bebida, muita inconsciência, muita destruição. Sonho com uma prostituição mais limpa agora, apesar de ter certeza que isso é um desserviço para a base experimental do ser humano que se dedica as práticas do sexo profissional. Ahahah, eu gargalhei, tu realmente acredita que prostituta é uma profissional? Ela disse que sim porque tudo que existia dizia respeito a especialização, e se as putas não exigissem esse direito, alguém o reivindicaria, como as travestis prostitutas. Daí tocamos num assunto caro para ela, as marcas que trazia nos braços e nas costas em função das brigas por território urbano entre elas putas e as travestis em quase todas as grandes cidades que morou. Aquelas travecas se juntam e nos expulsam aos pontapés das ruas que tradicionalmente sempre foram nossas. Essas brigas já colocaram muita gente no hospital, ela disse. Mas eu sou faca na bota, eu remexo minha bolsa que sempre carrega uma pedra aguda, sabes bem, comigo não tem dessa de repressão gratuita. Se bem que uma das minhas melhores amigas é travesti, e eu já ensinei muitas dessas bixonas a mexerem bem o rabo, do jeitinho que eu gosto, porque afinal peito junto com pau é uma conjunção cósmica, para isso sim tu vai achar bastante mitologia, peitos são sagrados! E terminou o assunto por aí mesmo. Eu disse: afinal se puta não tem ontologia, pelo menos deve ter alguma ética. Ética pra mim, dissestes é meter o braço no cú do marido das outras, mas se se meterem com macho meu, bolsa-de-pedra na cabeça. Dei um sorriso assustado e falei, mas que ética é essa? Não existe nenhuma concessão à coerência? Coerência é papo de político fia, é conversa dos defensores do trabalho, família e propriedade, com a gente não tem nada dessas coisas não. Defender coerência é defender o indefensável. Essa busca de ética sua é de novo busca de essência, puta não tem essência, já te disse. Mas existe uma coisa que não é bem prostituição e nem tão pouco coerência com o desejo sexual. É um entregar-se aleatório para qualquer figura que se encontra na noite, na boate, um vício de trepar e como isso é insustentável, exige gastos com bebidas e drogas, acaba-se de algum modo cobrando-se para isso, nem que seja o direito à consumação. Essa é uma das entradas possíveis, dissestes, têm muitas outras. Muitas. De qualquer jeito não é possível separar essas entradas em categorias de classes sociais ou culturais. O lance é muito mais sujo e bastante óbvio. Quando a mulher reclama que foi tratada como prostituta, o que ela quer dizer? Suponho que quer dizer que se sentiu usada e que homem trata puta desse jeito. Mas pelo menos elas tem alguém a incorrer, alguma explicação, alguma comparação, algum subsídio subjetivo e cultural que dê conta do sentimento; mas o que falar da puta que se sente assim? Ela vai dizer que o homem tratou ela como puta, ou seja, como ela mesma? E isso por acaso lhe daria algum tipo de conforto? Sempre há saída, seja pelo riso, seja pelo esquecimento. Dissestes.

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grupellos de volúpia

p/ Bijari

Eu queria todos eles juntos. Mas cautelosa, tinha que agir com o rabo da ponta dos dedos e precisava de uns milagres, em forma de calafrios – eram amigos do meu macho. E havia um caso de pacto entre homens de libido frouxa correndo solta: eram sócios na firma de publicidade, mas não no amor. Eu precisava de um caldeirão de oxigênio e minha tarefa era pegá-los todos juntos, mas teria primeiro que seduzí-los um a um e depois convencê-los a ficarem juntos comigo. Eu queria uma desagregação, uma experiência imersiva, uma destruição parcial da fortaleza que representavam. Nunca houver mulher que interrompeu-lhes o fluxo de amizade e negócios. Mas eu era a insandecida que sempre gostou de causar desordens e fugir em seguida. Eu a cópula excusa, eu a fuga. Era isso que estava em meus planos. Queria sumir. Antes disso, foder com os dez garanhões, uns por cima dos outros, uns por debaixo dos outros, mas definitivamente todos dentro de mim. Nem dúvida nem erro.

Primeiro construí um projeto de vídeo, precisava de cada uma de suas especialidades. A filmagem, a edição, o som, a animação, o clip, a capa, o desenho, a mordida, a gravação, a esfregação. Todos tinham que ver o vídeo, suas especialidades delicadamente pensadas por cada veia do meu corpo. Sabia também, que não adiantaria eu posar de femme fatale ou de atriz pornô, pelo simples fato que trabalhavam com mulheres bonitas o tempo todo, modelos, cantoras, atrizes… O meu diferencial teria que ser algo que eles não tivessem tão acostumados, e que os pegassem pela ternura e pela intimidação. Queria que eles sentissem como menininhos intimidados pelo tamanho da bunda da tia quando ela arranca a saia e mostra o bikini branco que trazia para quando parassem na praia. Aqueles olhos de conquistador cossaco que tirava o óculos redondo para poder ver o terreno que gostaria de conquistar no dia seguinte. Queria a fragilidade de uma pica ereta na praia, uma pica que se sentisse para sempre pequena diante das minhas ancas. Era minha única chance, mostrar que minha bunda, meu rego, a curva da entrada da minha barriga eram muito mais fálicas do que os dez pintinhos juntos, os dez que passavam o dia em um galinheiro de telas brilhantes, ciscando, enredados na trama que tinham que forjar de desejo e consumo das marcas dos celulares, da coca cola, da grife da moda e muito mais.

Eu era a anti-pop por excelência, a que estava deliciosamente excitada com aquele ativismo competente e publicitário, panfletário pra caralho e que fazia 36 cm de sentido. Senti que era má: maquiavélica, maligna, mal criada, maledicente, mal informada, masculina e maculada. Mas os queria mesmo assim, desde o mais baixinho até o mais grandão, todos com seu circuito particular, articulados, fazendo festas de bar, de boate, colocando imagens em dez projetores de uma só vez, bebendo champanhe enquanto mostravam polícia batendo povo pobre e sombras desconhecidas atirando granadas. Paradoxo me excitava, me deixava louca e perplexa com os movimentos do próprio desejo próprio.

Destituindo, dissolvendo, fazendo derreter todo meu desejo , como se seus corpos fossem uma máquina de magia mais do que uma máquina sexual. Como se eles tocasse um lugar que eu não estivesse habituada a parar,. Isso é a love confession, voces eram o guarda de trânsito que pára o trânsito. Interrompe. Cada coisa que voces faziam poderia ser incluída no meu cotidiano. Homens que dissolvem o meu desejo e criam o desejo de fazer meu desejo se dissolver em torvelinhas. Eram completamente desejáveis, mas perto deles eu era arrebatado por uma outra instância que se eles partissem ficaria atônita, preciso de doses de voces, e cabe muita dose, mas muita dose me faz mal, fico sã e salva. Uma sanidade que me impede de gozar. Voces são um entrave para que eu goze. Isso não é suficiente, tenho que gozar em algum lugar, eles faziam meu desejo entrar nas minhas entranhas, como uma gastrite, como uma úlcera. É quase como se uma espécie de anátema. Eram heteros meio anti-heteros. Quero ser lésbica com voces, mas nem começar a lhes tocar eu poderia. Só uma dose de voces, mais me mataria,. Voces me sufocam e mobilizam minhas reações políticas,. Fico ativo, interventora, tenho ganas de encarar o cárcere para libertar os presos e berrar com elas as quatro da manhã na saída da colméia – soltas, soltas, potras sem dono, cavalas, um pasto sem brete. Minha prisão de ventre, minha atrofia intestinal, tua diarréia. Voces são o que considero um anti corpo sexual, porque lhes tocar seria perder a magia de uma promessa que fica na arcada superior dos meus dentes tortos, horizontes tímidos e mal-educados.

No teu lugar para todas as coisas, o que você faz com a volúpia? Pensei lisérgica, pensei na arte picante do mar com salitre, invoquei aquelas bruxas queimadas – me ajudem, vassourinhas, me ajudem a dar pros dez, me ajudem que é isso que meus pentelhos negões querem. Elas me ouviram do centro das fogueiras torpes e fizeram meu umbigo ter cheiro de condão. Eu consegui a simultaneidade que eu queria, dez maurícios, dez belos geandres e cabelos Araújos misturados com Eduzais, dez bate-estacas fincadas na minha finca. Obrigada meu santo augostinho. Quer saber como foi tudo? Pão, champagne Tenutta Santa. Um gordo que nem queria o poder de nossas máquinas enchendo o saco para que acabasse o noise no bar. Aquele bobão, nem soube que provocou nossa saída para o bar mais baixo e próximo da Avenida Augusta, o desfile das putas.

De saída falei: faço uma concessão: sou a curadora. Eles todos estavam escalados, mas as mulheres eu elegeria por puro poder de cura. Queria a franzina, a maluca que faz cinema e gosta de inventar moda, a bonitinha das artes plásticas, alguma medusa, algum ouriço. Sonho? Dos dez sobrou 16 e fomos para um motel levando mais duas putas que desfilaram na Glória no desfile da DASPU, o Mauricio Lazzaratto, o gordo do bar de Llançà, a Pascale que faz performance e uma toda bonitinha que pinta, esculpe, escapa e tem nome de fada. Todos os dezesseis de pele branca, com mãos de pelica feitas para se dar, de ventre solto. O filme tinha ativado: tinha pré-filmado seis picas de tamanhos diferentes e meu dildo negro, retinto, todas em pequenos movimentos de fluxo e contenção. Película e cutícula, as glandes hirtas em minha língua, é que eu era a rainha do encontro – haviam as outras mulheres, mas eu centrava, sentava, arrebitava, arfava, torcia a roupa ensaboada. Eu era discreta, um diadema na cabeça, ancas pequenas, troncuda, cheia de desabafos na hora do coito.

Eu tinha os dez e mais seis e só não veio o garçon junto porque era tímido demais para adentrar o clima da revolução instaurado nas beiradas de cada esquina da cama, da piscina de água quente e da cachoeira artificial, das beiras das conas e dos cús e das beiras dos paus eretos mais abertos do que nunca. Tive vontade de dizer-lhes que tudo era um sonho, que nada importunaria a sinapse do próximo dia, mas calei minha volúpia visionária com a boca enfiada no pau do cabelo. Mas não era sonho, era só uma frieira de excessos, os termômetros requentados; era só meu desejo agachado de achatar o que está redondo – perfurar. No meio daquela noite ereta, elétrica e etérea eu perdi a conta de quantos bijarildos balançavam em meus quadris. Ela sempre fora desexaminada, leoa de chácara, vira-lata, taquílala e secreta debaixo de longas saias coloridas que arrastavam até o chão. Mordi os dentes a noite toda que eu era uma velha brasileira. Minhas unhas não tem forma de pelicano, bebo champagne, balanço os pés.

No dia seguinte, como se tivéssemos ribossomos em forma de 4 mil famílias, ocupamos em volúpia incandescente uma fábrica de tecelagem abandonada na rua Prestes Maia.

por fabi borges e hilan bensusan

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Vida nua, pelada

Estávamos num seminário sobre “vida nua”, analisando os campos de concentração nômades contemporâneos que a vida era domada com voracidade por alguma sociedade de controle selvagem. Estamos exaustos com tanta devassidão, biós e zoé desejadas; quando saímos saiu um clima de real concentrado, nos afunilava os olhares, os desejos e os brios. Aquele rapaz chegou, o vj, que sempre tinha os comprimidos de cogumelos secos ressecados no forno do fogão da sua casa. Alguns de nós tomamos algumas pílulas caseiras e isso parece que foi uma energia mobilizadora de todos que estavam naquela super quadra.

Lisérgicas e todas fomos para um quarto de motel. Estava ocupado, mas entramos mesmo assim. Estava a beatriz preciado com jodorowisky. Ela enfiava o seio esquerdo no buraco do umbigo do alejandro, atônito. Se não formos capazes de transformar os desejos, o que mais poderíamos transformar? Enquanto houver meu corpo, minha carteira, um dispositivo de controle e sufoco, haverá uma torrente de horchate de chufa escorrendo pelos pirineus. Quis deitar ao lado do bafo do cu da Beatriz Preciado, mas quando me dei conta já estava Jobelle com sua língua torta enfiado no rego da Bia, Eu abracei o coração do Alejandro, eu e o Betinho, os dois com franjinhas.

Imagina, a Jobelle só me levaria para o motel se ela dissesse com os ombros ou com o órgão mais explícito do seu corpo – alguma coisa assim: Eu quero chupar teu clitóris e as tuas mamilas e dar tapinhas na tua bunda com o teu cheiro e não importa mais nada, quero ser tua escrava e satisfazer tuas vontadezinhas mais sacanas, meu tandodando. Afora isso era muito fora do circuito do meu desejo seu sotaque esquisito, sua voz convonvalescente, seus gestos miudos e seus olhos puxados para baixo. Mas Jobelle era a mais afoita quando chegamos ao motel. Queria Ale, e queria todo. Em dez minutos o jodorowsky já nem lembrava do filho, da beatriz, nem de mim, era todo boca nos peitos da Joba, e gritava que era ela a gostosa da fronteira.

Parei de me lembrar de quem era o dono de cada corpo; parei. Sei que havia também um pinto que era íntimo, um cachorrinho semi-domado da minha vontade de selvageria, aventura. E ele: eu amo cada uma das tuas rugas, das tuas rugas histriônicas, deliberativas. Pus minhas mãos sobre a cara, torta, minha vida pelada naquele motel com espelho na parede, espelho no teto, paus carnudos na tela grande. Fui para a sauna; levei o VJ comigo, melancólico e gracioso. Queria todos os centimetros dele; ele me entregava a goela, latejante, potência em forma de fluxo incontido. Era a goela, eu fiz minha buceta de gazela, pernas levemente curvadas. Pão em migalhas. E tanto fôlego tinha a Beatriz arfando na minha nuca, a força motriz de desenove xoxotas encarrilhadas, encaracoladas, encarniçadas.

Na cama com Preciado, jodorowisky, marcelo expósito e Lazzarato. Ele queria ver eu me masturbando, ela queria enfiar seu jimy hendrix na minha xota, Expósito queria explicar-me algum desejo lascivo e esquivo difícil de explicar. Eu o interpelei pedindo os três. Meu corpo é a pacha mama, comam do meu pão e bebam do meu vinho. Ele, o intelectual do cognitariado chupava meu sangue menstrual como se fosse a própria seiva da vida e quanto mais bebia mais se empreguinava de uma estranha volúpia que o fazia criar teorias incríveis e dizia: A nova revolução não precisa tomar o Estado, abre mão da guerra de classes, precisa do corpo e da subjetividade do sexo. Nisso ela concordava, com a boca lambuzada nos meu seios e gemia: não é possível esquecer o baixo ventre e os seios da revolução. Ela é uma mulher macho, a revolução. Danem-se os donos dos restaurantes e dos motéis como Llançá Port que só pensam no lucro do seu little business e não se dão conta da importância da literatura. E nesse momento de poucos dedos para muitas teclas, de muitos garçons para pouca comida, de muita eletricidade para pouca tomada, de muitos olhos para pouca carne, gozei.

Eu era a própria fonte de emancipação do corpo, do pensamento e do entre isso tudo. Eu a pornografia, eu a necessidade, eu a ontologia, eu a potência, eu o corpo dado que já não cabe mais em si muito menos num eu com rosto. Eu vazava. Nua. E a gosma que saia era uma fonte de eletricidade perpétua, como um Buda que esporrasse água, terra, fogo, torta de chocolates e que abençoava ao seu pé quem escrevia sem vergonha mesmo que os homens de preto nos sepultassem com um granel de terra por cima. O mundo é um motel.

A porta do quarto abriu e entrou um pessoal do Terceiro Mundo, um pouco fedido, um pouco cheio de perfume belga mal usado. Em farrapos. Era uma guria redonda, especialista em camisinhas de morango para dildos pretos, um homem de barba meio branca que sussurrava húngaro como se fosse língua de fornicar e uma bunduda, mestiça, uma espécie de Chaveca Granda tropical. É que o terceiro mundo me cansa, são tantas demandas, parece que nunca vai haver caralho pra tanta xaninha miúda. A bunduda gemia por antecipação, “eu sou Suely, a que comeu Jean Jacques Rousseau”. Ai. Ela foi tirando a blusa e parecia que queria mostrar as credenciais e as cicatrizes a flor da pele. E eu já toda gozada, já toda lazzaratta me entreguei aos caipirões. E a Suely, bunduda gozava com a trosoba dela fora dos meus platôs e em cima da minha dobra. Gemi um pouco mais que o bom dessa coisa de sexo é o noise, é o gemido, o resto é rasteirinha, é vassoura de piaçaba. Nem deixei carne no prato. Acordei com o nariz entupido.

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noise e democracia – Medialab prado – madri 09/07/2008

É noise na fita!

The noise of radical democracy

Metaborders, subsexuality, cyberpateras, transmigration.

Occupation!

This event is a mix of art activism, transgendering performance and electronic experimental sound

Is noise democracy feasible? The idea is that music should not be taken here to be entertainment but rather a path towards towards the political collective unconscious that we carry and, nonetheless, fits in no official ballot paper. It’s louder than the sound of public speeches.

The idea is to put forward an event that brings together the idea of multitude with that of noise. Make noise come up from the streets, from the political sewage of multiple layers that urban life covers. We want the differences in desire to meet up as if they were noise in an urban landscape; noise that persists and pushes us into immersive environments and then into a surprising episodes of flirting with consensus.

Noise is what happens when something goes wrong: when something goes wrong, people’s politics find a way to come to the fore. This is what we want, a politica event, a noisy one – without final manifestoes, without final agreement, without treaties.

Multitude is dissonance. It demands for new forms of intelligibility. Noise is therefore the way forward to radicalize democracy. No more electronic ballots – we press for electronic noise.

We like to favour noisy immersive processes instead of long deliberation meetings. Temporary Autonomous Zone should be noisy – they are no Long-lasting Fortified Territories. We want to assemble the noise of media pateras, performing transmigration, metaqueer desires and change the political landscape.

daniel gonzales

raul sanchez

fabi borges

hilan bensusan

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conversa granada/madri – 25/05/2008

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[18:44:18] Hilan Bensusan: fabi, olha só: quando você escreve assim ”’…os estranhos movimentos humanos que não se organizam em passeatas, nem em sindicatos, mas insistem em determinados gestos, do que falam esses gestos para além do nosso olhar viciado demais numa lógica que nunca contemplou a todos e jamais o fará?” (no texto que a gente mandou pro empyre), você não está supondo uma espécie de ordem (a lógica, os paradigmas de inteligibilidade) acerca do qual há que diferir – não há aqui também uma imagem de subverter um eixo estabelecido?

[18:45:21] … pergunto pra entender melhor seus problemas com a idéia de queer contra a ordem – as vezes entendo, as vezes confundo… minha cabeça…

[18:48:14] fabi borges: acho que sim…. mas há uma idéia de alargamento do sócius e não de inclusão… e acho que em relação a sexualidade, ela já conquistou algum espaço que permite que ela fale do seu próprio ponto de vista

[18:48:26] … me incomoda a batida constante no heterosexualismo

[18:49:19] … pois é uma forma de desejo, o que ele representa pode ser convulsionado, mas não é esse desejo em si que merece tanta paulera

[18:50:24] … quando falo de alargamento do sócius, falo das formas de produção de mais gestos, mais e mais percepções sobre o gesto… para alargamento das estruturas de mobilidade e das estruturas de inteligibilidade

[18:50:25] … vixi

[18:50:30] … no lo se explicar, pienso

[18:50:43] Hilan Bensusan: gosto de alargamento do socius ao invés de inclusao

[18:51:47] fabi borges: e posso cair nisso constantemente, porisso sei identificar quando vc cai, pois é uma idiossincrasia que as veses me parece muito fácil

[18:52:04] … uma estrutura vertical com a qual me debato contra

[18:52:13] Hilan Bensusan: o heterosexualismo: o problema não é a prática mas é entender sexo como heterosexo; por isso Wittig diz que o sujeito lesbiano não faz sexo, ela abandona a idéia de sexo nas maos da imagem da erotica heterossexual – combater a matriz heterossexual é, muitas vezes mas não sempre, tentar alargar o socius

[18:53:40] … eu também não gosto do discurso normativizante da butler etc, parece que estamos condenados a inteligibilidade, a ter uma matriz etc – acho mais interessante pensar em termos de experiências corporais (gestos) que escapam das normas e que sao condições para pensar nelas

[18:54:00] fabi borges: é… mas é melhor deixar isso mais claro, pois nos nossos textos tem aparecido uma viva idéia contra heterosexual sem essa idéia de alargamento do desejo, e sem identificá-lo de forma evidente com as idéias de poder, propriedade exploração

[18:54:26] … mas qual a saída

[18:54:27] Hilan Bensusan: por que a norma é inclusiva, ela entende a exceção como uma exceção – em relação a ela mesma

[18:54:52] fabi borges: e como se pensa diferente disso/? qual a saída?

[18:55:18] Hilan Bensusan: sim, acho que coisas telegráficas que escrevemos as vezes já pressupõe coisas que nós precisaríamos explicar para certos públicos

[18:56:16] fabi borges: eheheestoy decididahehe

[18:56:20] Hilan Bensusan: essa é justamente meu drama em E&E (excessos e exceções): no final encontro que a singularidade pode ser pensada em termos de uma dinâmica… uma dinâmica que pode ser de normas. é por isso que…

[18:56:45] … falo de singularidades em fuga etc

[18:57:01] fabi borges: pois é

[18:57:38] Hilan Bensusan: a idéia central do livro foi uma que tive em uma linda manhã de sol nas águas belas

[18:57:55] fabi borges: imagina os moradores da rua, os mais terrivelmente parasitas e nomades em uma estranha rebelião que não reivindica participação na sociedade de controle

[18:57:57] Hilan Bensusan: por isso que o capítulo onde ela aparece se chama “areia, enfim”.

[18:58:05] fabi borges: qual idéia

[18:58:20] Hilan Bensusan: seja realista: queira o impossível

[18:58:31] fabi borges: pois é

[18:59:03] Hilan Bensusan: mais maio de 68: eu tomo meus desejos como realidade pois creio na realidade dos meus desejos (grafiti)

[18:59:05] fabi borges: de certo modo o ativismo europeu que reivindica salário vitae e que diz que “nem um ser humano precisa de papéis para existir e ir e vir” é muito corajoso

[18:59:30] … e inventa um impossível

[18:59:39] Hilan Bensusan: sim, mas um pouco inclusivo e um pouco especista

[18:59:55] fabi borges: sei

[19:00:06] … como se fala do queer a partir dele mesmo?

[19:00:53] Hilan Bensusan: é preciso assaltar a linguagem – a linguagem é uma maquina (normativa) de inclusões… por isso eu boto fé na écriture feminine etc

[19:01:09] fabi borges: e mais, como se abre o código de inteligibilidade a essas questões para pessoas que partem do pressuposto de que isso é anarquismo e que eles não se identificam com esse pensamento

[19:01:29] … quando falamos em gestos, estamos super abrindo a linguagem

[19:01:37] … e nos sígnos

[19:03:37] … mas a essa outra escritura, eu boto fé também, mas é preciso ter nuance, eu não sei, nossos artigos me parecem mais de guerrilha urbana do que ecriture feminina eheheheh

[19:04:04] Hilan Bensusan: as singularidades – acho que foi isso que comecei a pensar naquela manhã em águas belas – são assim como a reta de spinoza, não podem ser encontradas se não houver um tempo passando o tempo que vai incluindo mas que sempre fagocita um fora – o que interessa é o fora, não o que está fora (e é o fora que faz as singularidades, e não aquilo que já havia antes de haver fora e dentro)

[19:05:11] fabi borges: em relação ao queer noise isso seria bem o que?

[19:05:28] Hilan Bensusan: eu sei, estamos procurando um tom – e acho que experimentar é a melhor coisa que se pode fazer para fazer política ou escrita política

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beringela

Pus um chapéu preto, amarrei meu seios comprimindo-os até não poder mais, coloquei uma beringela na minha calcinha, vesti uma calça jeans e uma camisa marroquina do brian holmes e saí na rua afim de enfiar minha beringela no rabo de um intelectual frances, mas ele disse não.

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Tina writes about MetaSubCyberTrans

and, of course, has a space in this blog:

 

 BEYOND WIRES AND CABLES: ON THE PERFORMANCE NAMED METASUBCIBERTRANS

By Dolores Galindo

Abstract: This is a text produced by means of a dialogue with the Metasubcibertrans work (2007, 2008) by performer Fabiane Borges. It alternates between description and invention – neither art critique nor a theoretical essay. It is inserted only as a text-affectation. It approaches the technical precariousness – wires and cables that do not connect – as an element that singularizes the artist’s work and inscribes it as a trope in order to approach the deconstruction of dichotomies based on sex and the technological dream of connection as a necessity.

A body to which technical apparatuses are precariously tied1

In the breasts, some mouses. In the stomach, a motherboard. In the mouth, connection ports. In the vagina, a mouse. In the head, a felt hat. In the lap, words written with a red lipstick. And then, undoing identity signs, a mask composes two eyes. There is the replication of the penis in the mouse. There is the replication of the mouth in the connection port. There is the replication of stomach in the motherboard. There is the replication of breasts in the mouses. There is the replication of face in the mask. And, here, replication is what is opposed to representation, not to difference.2

In replication, there is a syntagm composed through the disposal of the meta, sub, cyber and trans prefixes in which the first one displaces the others from their literal function.3 Is escapes the logic of classification by oppositions, to the need of connection.

We come across a socio-technical device made with parts and cables that do not connect. The power of the performance is not about the improvement of potentialities of interactivity or the symbiosis between body and machine – the apparatuses are obsolete. From the precariousness, inscribed in the adoption of the sub prefix, comes most of the performance potency. Does the Metasubcibertrans dream about wearable computers, linked to so many other devices? The wires – let us repeat – do not connect. Some apparatuses are also yellowish due to time’s action. Would the Metasubcibertrans have run away from a not materialized technological dream?4

In the hybrid, we see indistinctly the breasts. Viewing the legs contour legs makes sex a creation and relation potential. Sex is also obsolete before the unstable arrangement made with adhesive ribbon. A metafiction is viewed that questions the limits of sex as an identity pointer and the communication network as a civilizating utopia. That time, the inscription is in the cyber prefix, and as questions a member of the g2g5, the group the performer participates – would cyberfeminism have come to Latin America? Is the trope cyborg used our context for deconstructing sex/genre dichotomies and technologically based power relations?6

The used technical apparatuses do not compose a exoskeleton or are introduced into the flesh deeper layers. The performance happens in the skin surface. The voice is constrained by the connection ports whose cables surround the neck and “install” constrictions to the movement. The device that connects is the same one that testifies the insufficiency that affects the use of the communication networks. The mouse interposes to the vulva. What one needs is not a new body part, to say it in some way, but to displace the hegemonic symbolic linked to sexual difference (heterosexual) and allow for a critical perspective, alternative imaginary schemes that enable to constitute erogenous pleasure spaces.7

As in Dali’s Minotaure,8 the trans body shapes itself by undoing the clear contours that separates feminine from masculine, human being from animal and machine. Does the Metasubcibertrans dream of “itself” as a cyborg? Mouses interpose to the breasts and two children are holded in its arms – they perform to the camera.

Tied with wires and cables, the performer do not establishes a connection to other device – the body holds the apparatuses. In the cables that come from the analogical ports no information beams run. Performance and politics interlace in a body that places at the edges of the technological flows of communication. Does the Metasubcibertrans dream of binary-information beams traveling the cables that tie “it’? One has an open source, unstable, body.9

The creature does not agonize, but smiles inertly – a horizontal line extended through the face. A ritual figuration is installed. The imperfect junction body- apparatuses delineates a “phageous” gesture.

In the performance named Cyberpsicomagia,10 the ribbon that tied the mouth of the creature disappears. A space opens for a laconic speech that oscillates between lucidity and delirium. Binary codes interrupt the voice flows. Victoria Synclair interviews the Metasubcibertrans, which this time does not present technical apparatuses anymore. Remains the mask, in which one only sees indistinctly the mouth, and electric discharges create codifiable sounds:

Miserable and divine creature. The Yanomami people11 touched me very delicately. They opened my motherboard. They had learned on the criteria of evolution. My body was an experimental object. For them to understand why we do not believe in evolution12 (Borges, 2008).

Aboriginal spirits begin to populate “it’. In a previous performance, the artist already had invoked the Guarani Kaiowá Indians from Mato Grosso, which, in the absence of worthy alternatives of life, commit ritual suicide. Those are the Indians that open “it’ and examine minutely the motherboard tied to the pelvis.

The hybrid body converts itself into an experimental object. About what do the Indians who open “it” dream? They touch “it”, delicately, in a disenchanted gesture – an experiment gesture. Once dreamed, the Indians are incorporated to the artist’s unlimited laboratory – technomagos that act in the machinic and oniric interfaces (Synclair, 2008).

The carcass of the computer mixes to the viscosity of foods. Obsolete, perishable. We pass to another agency – Indians, foods and carcasses.13

The creature agonizes. There are no more wires. There are no more cables. There is only the imperative of connection – machinic and spiritual flows cross “it”. Wires, cables and garments are displayed with no bodily support. An autonomization of the apparatuses happens regarding the bodily order.

Thus, as happens with slaughtered animals, the Metasubcibertrans has “its” skin strained in the tannery.
Meshes, Wires, cables and flows are tied in an allegory. Now they remove from me the flesh covering, they drain all the blood, they hone the bones in luminous wires and there am I (…) resembling myself. A rough draft.14

References

BORGES, F. Fala da Metasubcibertrans. Available: www.cassandras.blogspot.com. Accessed: 03/12/2008.
 
BUTLER, J. Identificiación fantasmática y la asunción del sexo. Em: Cuerpos que importam: sobre los límites materiales y discursivos del ‘sexo’. Buenos Aires, Paidós, 2002.

DELEUZE, G. Como hacerse um cuerpos in órganos? In: Mil Mesetas: capitalismo y esquizofrenia. Espanha, Pré-textos.

GALINDO, Dolores Sobre os ciborgues como figuras de borda. Athenea Digital. nº 4. 2003
 
HANSON, Julie Drag Kinging: Embodied Acts and Acts of Embodiment. Body & Society, Vol. 13, No. 1, 61-106 , 2007

HARAWAY, Donna Ciência, Cyborgs y mujeres: La reinvencion de la naturaleza. Madrid, Ediciones Catedra, 1991.

PELBART, Pelbart Música e Repetição.In: Vida Capital: Ensaios de biopolítica. São Paulo, Iluminuras, 2003.

SINCLAIR,Vitoria. Entrevista com a Metasubcibertrans. Available: www.cassandras.blogspot.com. Accessed: 03/12/2008.
 

Dolores Galindo
PhD, Social Psychology.
E-mail: dolores_galindo@hotmail.com
 
Acknowledgements
To Fabiane Borges for the many conversations we had during the production of this text.

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