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The science of “Why can’t I be you?”

Autotufilia, poderia se chamar.

Mas a philia (que é eros, mas não só eros) é uma disposição a se tornar parte de uma categoria – não se nasce mulher se torna mulher; autoginefilia. Não é só a Lynn, são muitos MtFs hoje em dia, que depois de uma vida como homem e cross-dresser se apaixonam de vez por uma personagem feminina feita com as células do seu corpo. Depois de ser homem, ter himem.

Ray Blanchard em 1989 tipificou a ocorrência de autoginefilia nas transmulheres. Resultados, e críticas.

http://www.genderpsychology.org/autogynephilia/male_gender_dysphoria/nonhomosexual_transsexual.html

http://www.annelawrence.com/twr/28narratives.html

http://www.annelawrence.com/twr/becoming_what_we_love.pdf

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Não há princípios. Não há princípios?

Em um fragmento recentemente descoberto, diz Heráclito, o obscuro:

Escuto falar bastante da natureza como um baú de coisas prontas – como se a ecologia tivesse expulsado a physis. O discurso ecológico é também um discurso imperial – proteger as baleias, e nós decidimos quantas? (Quantos lobos devem continuar existindo? E quantos micos? Quantos pandas? Mas quantos ratos? Quantas baratas? E quais?). A ordem ecológica é uma ordem imperial – em nome de um equilíbrio archétípico. Uma ordem imperial, e não um mandato despótico. Muitas partes do que tanto se chama de natureza des-põe o equilíbrio ecológico. Ao invés da physis, a oikos – a casa que precisa estar arrumada, a casa que tem uma maneira de estar arrumada, que foi feita para estar arrumada. Uma oikos logia, uma oikos nomia: haverá uma mão invisível pairando acima de todas as coisas, capaz de criar, de balancear, de regular tudo. Nós apenas podemos dar uma mãozinha a essa mão de ferro invisível. Em um império ecológico podemos nos sentar ao lado da natureza, transmitir suas leis e atuar assim como um vizir. Entabulamos uma ordem secreta superior e, como os sacerdotes, temos um selo de aprovação dos céus. […]

Como pensar então a ecologia, o ecofeminismo, o equilíbrio ambiental. Salvo as baleias porque quero que elas persistam? Ou nem isso? Michelli aposta de soslaio em uma literatura ecoqueer; por exemplo:

http://www.lespantheresroses.org/textes/ecology_toward_a_queer_ecofeminism.pdf

http://www.rochester.edu/in_visible_culture/Issue_9/issue9_sandilands.pdf

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Já uma biografia, precisa de identidades?

http://ai.eecs.umich.edu/people/conway/LynnsStory-Portuguese.html

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Andando um pouco de Pippa Bacca pelo Grand Bazaar

Todos somos Pippa Bacca – Performance Hilantra/ Istambul/ junho de 2008

Agora a maioria de esquizotrans está em águas bem suas, entre o continente de Aristóteles e a ilha de Sapho. Quando cai a tarde sopra o vento quente, e as pernas, orelhas, falanges, umbigos se conectam pelo prazer de conectar. Na semana passada como noiva andei às voltas do grande bazar de istambul com um pequeno papel que dizia que somos todas pippa bacca. As pessoas paravam, perguntavam, assustavam. Que movia os dedos que enforcaram Pippa? Nas ruas de istambul se via uma mulher que não parecia se cobrir o suficiente e uma noiva que não parecia mulher. Estamos começando a descrever aquela tarde assim:

Uma estrada. Uma noiva. Um projeto. Era preciso associar a suposta brancura da paz com alguma pureza, alguma insistência, alguma leveza e ao mesmo tempo alguma denúncia. A roupa branca da noiva. A coragem de atravessar o oriente médio com as mãos ocupadas de bouquet e celular.

Bacca, você é tonta? Pensavas que sairia impune? Por acaso pensas que és livre da tua genitália. Não te disseram que era perigoso? Aonde estão todas as outras que você estava carregando no teu vestido branco já sujo de azeitona preta? Tua intuição tinha te abandonado naquele dia? Não ouvistes o coro por causa da bebida branca, tudo branco – quando acordastes naquela manhã não te lembrastes do teu sonho? Ou teu sonho tinha te abandonado também? Não pensastes em vestir um bikini e se atirar no mar salgado? E aquelas fotos risonhas tiradas com a tua companhia, a outra noiva perdida, com mais sorte que tu? Tu sabia que estavas fazendo a performance derradeira que seria inspiração de tantas outras? E se um bando de noivas brancas, muitas, ocupassem a faixa de Gaza? Tu agiu como se tua ação fosse legislação para todas as noivas – em uma faixa de Gaza dos fins.

Pippa, eu também vesti um vestido de noiva. Mas fiquei em Istambul, só no bazar grande onde os turistas friccionam os turcos que querem, por um fiapo, serem europeus. Um vestido branco. O meu era barato e comprado na rua – uma pechincha. Apenas o vestido sobre o corpo nu, eu já um pouco tostado do sol do verão. Mas por baixo do pano branco, uma bermuda de verão, modelo quase masculino. E se acumularam os homens turcos de bigodes raspados em torno de mim – o que? De onde? O teu sonho tinha te abandonado? Não te disseram que era perigoso? Uma tantas ruas, umas palavras na língua local, um pedaço de papel: Hepimiz Pippa Bacca’yiz. Não estava livre da tua genitália. Não estava livre da minha genitália. Alguma leveza. Suspiro. Ao mesmo tempo alguma denúncia. Ninguém pode atropelar uma insistência. Minhas mãos sem flor, sem celular. Uma bolsa de pano verde ácido – e todas as faltas de pingos nos is da Turquia.

Não tirei minha bermuda para não ficar vulnerável como você. Eu era um flerte com o teu fim, e tua continuação. Quando o homem não entendeu tua performance e te estuprou e te matou no meio de uma estrada turca, foi só para não deixar dúvida quanto a importância do teu jogo. Arte mata. Tu era acaso, ele era o desconhecido que falou no teu celular. Quando entrei na estação de bonde, uma friagem no calor. Os bondes passavam, olhavam, as pessoas reagiam em pequenos grupos – muitos conheciam a tua nacionalidade. A nacionalidade das noivas inesperadas – a inesperada estuprada, enforcada. Um país que não quer implorar para se meter na europa ficava pela testa enquanto os olhos circulavam. Um desconhecido soprava que aquilo era muito perigoso e um carabiniero súbito se aproximou: vem comigo. Entrei no bonde. Eu, a noiva, e ela, às vezes minha noiva, uma mulher. O bonde cheio de corpos nos apertava. Uma noiva e uma mulher no meio da multidão de fim de tarde em Istambul. A bolina na noiva inapropriada e a bolina na mulher fora de contexto. Toda uma questão de genitálias. E panos. E panos quentes. Para a noiva, com minha barba e bigode crescidos, as perguntas: o que, de onde, quem. Para a mulher, nem palavras.

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grupellos de volúpia

p/ Bijari

Eu queria todos eles juntos. Mas cautelosa, tinha que agir com o rabo da ponta dos dedos e precisava de uns milagres, em forma de calafrios – eram amigos do meu macho. E havia um caso de pacto entre homens de libido frouxa correndo solta: eram sócios na firma de publicidade, mas não no amor. Eu precisava de um caldeirão de oxigênio e minha tarefa era pegá-los todos juntos, mas teria primeiro que seduzí-los um a um e depois convencê-los a ficarem juntos comigo. Eu queria uma desagregação, uma experiência imersiva, uma destruição parcial da fortaleza que representavam. Nunca houver mulher que interrompeu-lhes o fluxo de amizade e negócios. Mas eu era a insandecida que sempre gostou de causar desordens e fugir em seguida. Eu a cópula excusa, eu a fuga. Era isso que estava em meus planos. Queria sumir. Antes disso, foder com os dez garanhões, uns por cima dos outros, uns por debaixo dos outros, mas definitivamente todos dentro de mim. Nem dúvida nem erro.

Primeiro construí um projeto de vídeo, precisava de cada uma de suas especialidades. A filmagem, a edição, o som, a animação, o clip, a capa, o desenho, a mordida, a gravação, a esfregação. Todos tinham que ver o vídeo, suas especialidades delicadamente pensadas por cada veia do meu corpo. Sabia também, que não adiantaria eu posar de femme fatale ou de atriz pornô, pelo simples fato que trabalhavam com mulheres bonitas o tempo todo, modelos, cantoras, atrizes… O meu diferencial teria que ser algo que eles não tivessem tão acostumados, e que os pegassem pela ternura e pela intimidação. Queria que eles sentissem como menininhos intimidados pelo tamanho da bunda da tia quando ela arranca a saia e mostra o bikini branco que trazia para quando parassem na praia. Aqueles olhos de conquistador cossaco que tirava o óculos redondo para poder ver o terreno que gostaria de conquistar no dia seguinte. Queria a fragilidade de uma pica ereta na praia, uma pica que se sentisse para sempre pequena diante das minhas ancas. Era minha única chance, mostrar que minha bunda, meu rego, a curva da entrada da minha barriga eram muito mais fálicas do que os dez pintinhos juntos, os dez que passavam o dia em um galinheiro de telas brilhantes, ciscando, enredados na trama que tinham que forjar de desejo e consumo das marcas dos celulares, da coca cola, da grife da moda e muito mais.

Eu era a anti-pop por excelência, a que estava deliciosamente excitada com aquele ativismo competente e publicitário, panfletário pra caralho e que fazia 36 cm de sentido. Senti que era má: maquiavélica, maligna, mal criada, maledicente, mal informada, masculina e maculada. Mas os queria mesmo assim, desde o mais baixinho até o mais grandão, todos com seu circuito particular, articulados, fazendo festas de bar, de boate, colocando imagens em dez projetores de uma só vez, bebendo champanhe enquanto mostravam polícia batendo povo pobre e sombras desconhecidas atirando granadas. Paradoxo me excitava, me deixava louca e perplexa com os movimentos do próprio desejo próprio.

Destituindo, dissolvendo, fazendo derreter todo meu desejo , como se seus corpos fossem uma máquina de magia mais do que uma máquina sexual. Como se eles tocasse um lugar que eu não estivesse habituada a parar,. Isso é a love confession, voces eram o guarda de trânsito que pára o trânsito. Interrompe. Cada coisa que voces faziam poderia ser incluída no meu cotidiano. Homens que dissolvem o meu desejo e criam o desejo de fazer meu desejo se dissolver em torvelinhas. Eram completamente desejáveis, mas perto deles eu era arrebatado por uma outra instância que se eles partissem ficaria atônita, preciso de doses de voces, e cabe muita dose, mas muita dose me faz mal, fico sã e salva. Uma sanidade que me impede de gozar. Voces são um entrave para que eu goze. Isso não é suficiente, tenho que gozar em algum lugar, eles faziam meu desejo entrar nas minhas entranhas, como uma gastrite, como uma úlcera. É quase como se uma espécie de anátema. Eram heteros meio anti-heteros. Quero ser lésbica com voces, mas nem começar a lhes tocar eu poderia. Só uma dose de voces, mais me mataria,. Voces me sufocam e mobilizam minhas reações políticas,. Fico ativo, interventora, tenho ganas de encarar o cárcere para libertar os presos e berrar com elas as quatro da manhã na saída da colméia – soltas, soltas, potras sem dono, cavalas, um pasto sem brete. Minha prisão de ventre, minha atrofia intestinal, tua diarréia. Voces são o que considero um anti corpo sexual, porque lhes tocar seria perder a magia de uma promessa que fica na arcada superior dos meus dentes tortos, horizontes tímidos e mal-educados.

No teu lugar para todas as coisas, o que você faz com a volúpia? Pensei lisérgica, pensei na arte picante do mar com salitre, invoquei aquelas bruxas queimadas – me ajudem, vassourinhas, me ajudem a dar pros dez, me ajudem que é isso que meus pentelhos negões querem. Elas me ouviram do centro das fogueiras torpes e fizeram meu umbigo ter cheiro de condão. Eu consegui a simultaneidade que eu queria, dez maurícios, dez belos geandres e cabelos Araújos misturados com Eduzais, dez bate-estacas fincadas na minha finca. Obrigada meu santo augostinho. Quer saber como foi tudo? Pão, champagne Tenutta Santa. Um gordo que nem queria o poder de nossas máquinas enchendo o saco para que acabasse o noise no bar. Aquele bobão, nem soube que provocou nossa saída para o bar mais baixo e próximo da Avenida Augusta, o desfile das putas.

De saída falei: faço uma concessão: sou a curadora. Eles todos estavam escalados, mas as mulheres eu elegeria por puro poder de cura. Queria a franzina, a maluca que faz cinema e gosta de inventar moda, a bonitinha das artes plásticas, alguma medusa, algum ouriço. Sonho? Dos dez sobrou 16 e fomos para um motel levando mais duas putas que desfilaram na Glória no desfile da DASPU, o Mauricio Lazzaratto, o gordo do bar de Llançà, a Pascale que faz performance e uma toda bonitinha que pinta, esculpe, escapa e tem nome de fada. Todos os dezesseis de pele branca, com mãos de pelica feitas para se dar, de ventre solto. O filme tinha ativado: tinha pré-filmado seis picas de tamanhos diferentes e meu dildo negro, retinto, todas em pequenos movimentos de fluxo e contenção. Película e cutícula, as glandes hirtas em minha língua, é que eu era a rainha do encontro – haviam as outras mulheres, mas eu centrava, sentava, arrebitava, arfava, torcia a roupa ensaboada. Eu era discreta, um diadema na cabeça, ancas pequenas, troncuda, cheia de desabafos na hora do coito.

Eu tinha os dez e mais seis e só não veio o garçon junto porque era tímido demais para adentrar o clima da revolução instaurado nas beiradas de cada esquina da cama, da piscina de água quente e da cachoeira artificial, das beiras das conas e dos cús e das beiras dos paus eretos mais abertos do que nunca. Tive vontade de dizer-lhes que tudo era um sonho, que nada importunaria a sinapse do próximo dia, mas calei minha volúpia visionária com a boca enfiada no pau do cabelo. Mas não era sonho, era só uma frieira de excessos, os termômetros requentados; era só meu desejo agachado de achatar o que está redondo – perfurar. No meio daquela noite ereta, elétrica e etérea eu perdi a conta de quantos bijarildos balançavam em meus quadris. Ela sempre fora desexaminada, leoa de chácara, vira-lata, taquílala e secreta debaixo de longas saias coloridas que arrastavam até o chão. Mordi os dentes a noite toda que eu era uma velha brasileira. Minhas unhas não tem forma de pelicano, bebo champagne, balanço os pés.

No dia seguinte, como se tivéssemos ribossomos em forma de 4 mil famílias, ocupamos em volúpia incandescente uma fábrica de tecelagem abandonada na rua Prestes Maia.

por fabi borges e hilan bensusan

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Vida nua, pelada

Estávamos num seminário sobre “vida nua”, analisando os campos de concentração nômades contemporâneos que a vida era domada com voracidade por alguma sociedade de controle selvagem. Estamos exaustos com tanta devassidão, biós e zoé desejadas; quando saímos saiu um clima de real concentrado, nos afunilava os olhares, os desejos e os brios. Aquele rapaz chegou, o vj, que sempre tinha os comprimidos de cogumelos secos ressecados no forno do fogão da sua casa. Alguns de nós tomamos algumas pílulas caseiras e isso parece que foi uma energia mobilizadora de todos que estavam naquela super quadra.

Lisérgicas e todas fomos para um quarto de motel. Estava ocupado, mas entramos mesmo assim. Estava a beatriz preciado com jodorowisky. Ela enfiava o seio esquerdo no buraco do umbigo do alejandro, atônito. Se não formos capazes de transformar os desejos, o que mais poderíamos transformar? Enquanto houver meu corpo, minha carteira, um dispositivo de controle e sufoco, haverá uma torrente de horchate de chufa escorrendo pelos pirineus. Quis deitar ao lado do bafo do cu da Beatriz Preciado, mas quando me dei conta já estava Jobelle com sua língua torta enfiado no rego da Bia, Eu abracei o coração do Alejandro, eu e o Betinho, os dois com franjinhas.

Imagina, a Jobelle só me levaria para o motel se ela dissesse com os ombros ou com o órgão mais explícito do seu corpo – alguma coisa assim: Eu quero chupar teu clitóris e as tuas mamilas e dar tapinhas na tua bunda com o teu cheiro e não importa mais nada, quero ser tua escrava e satisfazer tuas vontadezinhas mais sacanas, meu tandodando. Afora isso era muito fora do circuito do meu desejo seu sotaque esquisito, sua voz convonvalescente, seus gestos miudos e seus olhos puxados para baixo. Mas Jobelle era a mais afoita quando chegamos ao motel. Queria Ale, e queria todo. Em dez minutos o jodorowsky já nem lembrava do filho, da beatriz, nem de mim, era todo boca nos peitos da Joba, e gritava que era ela a gostosa da fronteira.

Parei de me lembrar de quem era o dono de cada corpo; parei. Sei que havia também um pinto que era íntimo, um cachorrinho semi-domado da minha vontade de selvageria, aventura. E ele: eu amo cada uma das tuas rugas, das tuas rugas histriônicas, deliberativas. Pus minhas mãos sobre a cara, torta, minha vida pelada naquele motel com espelho na parede, espelho no teto, paus carnudos na tela grande. Fui para a sauna; levei o VJ comigo, melancólico e gracioso. Queria todos os centimetros dele; ele me entregava a goela, latejante, potência em forma de fluxo incontido. Era a goela, eu fiz minha buceta de gazela, pernas levemente curvadas. Pão em migalhas. E tanto fôlego tinha a Beatriz arfando na minha nuca, a força motriz de desenove xoxotas encarrilhadas, encaracoladas, encarniçadas.

Na cama com Preciado, jodorowisky, marcelo expósito e Lazzarato. Ele queria ver eu me masturbando, ela queria enfiar seu jimy hendrix na minha xota, Expósito queria explicar-me algum desejo lascivo e esquivo difícil de explicar. Eu o interpelei pedindo os três. Meu corpo é a pacha mama, comam do meu pão e bebam do meu vinho. Ele, o intelectual do cognitariado chupava meu sangue menstrual como se fosse a própria seiva da vida e quanto mais bebia mais se empreguinava de uma estranha volúpia que o fazia criar teorias incríveis e dizia: A nova revolução não precisa tomar o Estado, abre mão da guerra de classes, precisa do corpo e da subjetividade do sexo. Nisso ela concordava, com a boca lambuzada nos meu seios e gemia: não é possível esquecer o baixo ventre e os seios da revolução. Ela é uma mulher macho, a revolução. Danem-se os donos dos restaurantes e dos motéis como Llançá Port que só pensam no lucro do seu little business e não se dão conta da importância da literatura. E nesse momento de poucos dedos para muitas teclas, de muitos garçons para pouca comida, de muita eletricidade para pouca tomada, de muitos olhos para pouca carne, gozei.

Eu era a própria fonte de emancipação do corpo, do pensamento e do entre isso tudo. Eu a pornografia, eu a necessidade, eu a ontologia, eu a potência, eu o corpo dado que já não cabe mais em si muito menos num eu com rosto. Eu vazava. Nua. E a gosma que saia era uma fonte de eletricidade perpétua, como um Buda que esporrasse água, terra, fogo, torta de chocolates e que abençoava ao seu pé quem escrevia sem vergonha mesmo que os homens de preto nos sepultassem com um granel de terra por cima. O mundo é um motel.

A porta do quarto abriu e entrou um pessoal do Terceiro Mundo, um pouco fedido, um pouco cheio de perfume belga mal usado. Em farrapos. Era uma guria redonda, especialista em camisinhas de morango para dildos pretos, um homem de barba meio branca que sussurrava húngaro como se fosse língua de fornicar e uma bunduda, mestiça, uma espécie de Chaveca Granda tropical. É que o terceiro mundo me cansa, são tantas demandas, parece que nunca vai haver caralho pra tanta xaninha miúda. A bunduda gemia por antecipação, “eu sou Suely, a que comeu Jean Jacques Rousseau”. Ai. Ela foi tirando a blusa e parecia que queria mostrar as credenciais e as cicatrizes a flor da pele. E eu já toda gozada, já toda lazzaratta me entreguei aos caipirões. E a Suely, bunduda gozava com a trosoba dela fora dos meus platôs e em cima da minha dobra. Gemi um pouco mais que o bom dessa coisa de sexo é o noise, é o gemido, o resto é rasteirinha, é vassoura de piaçaba. Nem deixei carne no prato. Acordei com o nariz entupido.

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conversa granada/madri – 25/05/2008

<!– @page { size: 21cm 29.7cm; margin: 2cm } P { margin-bottom: 0.21cm } –>

[18:44:18] Hilan Bensusan: fabi, olha só: quando você escreve assim ”’…os estranhos movimentos humanos que não se organizam em passeatas, nem em sindicatos, mas insistem em determinados gestos, do que falam esses gestos para além do nosso olhar viciado demais numa lógica que nunca contemplou a todos e jamais o fará?” (no texto que a gente mandou pro empyre), você não está supondo uma espécie de ordem (a lógica, os paradigmas de inteligibilidade) acerca do qual há que diferir – não há aqui também uma imagem de subverter um eixo estabelecido?

[18:45:21] … pergunto pra entender melhor seus problemas com a idéia de queer contra a ordem – as vezes entendo, as vezes confundo… minha cabeça…

[18:48:14] fabi borges: acho que sim…. mas há uma idéia de alargamento do sócius e não de inclusão… e acho que em relação a sexualidade, ela já conquistou algum espaço que permite que ela fale do seu próprio ponto de vista

[18:48:26] … me incomoda a batida constante no heterosexualismo

[18:49:19] … pois é uma forma de desejo, o que ele representa pode ser convulsionado, mas não é esse desejo em si que merece tanta paulera

[18:50:24] … quando falo de alargamento do sócius, falo das formas de produção de mais gestos, mais e mais percepções sobre o gesto… para alargamento das estruturas de mobilidade e das estruturas de inteligibilidade

[18:50:25] … vixi

[18:50:30] … no lo se explicar, pienso

[18:50:43] Hilan Bensusan: gosto de alargamento do socius ao invés de inclusao

[18:51:47] fabi borges: e posso cair nisso constantemente, porisso sei identificar quando vc cai, pois é uma idiossincrasia que as veses me parece muito fácil

[18:52:04] … uma estrutura vertical com a qual me debato contra

[18:52:13] Hilan Bensusan: o heterosexualismo: o problema não é a prática mas é entender sexo como heterosexo; por isso Wittig diz que o sujeito lesbiano não faz sexo, ela abandona a idéia de sexo nas maos da imagem da erotica heterossexual – combater a matriz heterossexual é, muitas vezes mas não sempre, tentar alargar o socius

[18:53:40] … eu também não gosto do discurso normativizante da butler etc, parece que estamos condenados a inteligibilidade, a ter uma matriz etc – acho mais interessante pensar em termos de experiências corporais (gestos) que escapam das normas e que sao condições para pensar nelas

[18:54:00] fabi borges: é… mas é melhor deixar isso mais claro, pois nos nossos textos tem aparecido uma viva idéia contra heterosexual sem essa idéia de alargamento do desejo, e sem identificá-lo de forma evidente com as idéias de poder, propriedade exploração

[18:54:26] … mas qual a saída

[18:54:27] Hilan Bensusan: por que a norma é inclusiva, ela entende a exceção como uma exceção – em relação a ela mesma

[18:54:52] fabi borges: e como se pensa diferente disso/? qual a saída?

[18:55:18] Hilan Bensusan: sim, acho que coisas telegráficas que escrevemos as vezes já pressupõe coisas que nós precisaríamos explicar para certos públicos

[18:56:16] fabi borges: eheheestoy decididahehe

[18:56:20] Hilan Bensusan: essa é justamente meu drama em E&E (excessos e exceções): no final encontro que a singularidade pode ser pensada em termos de uma dinâmica… uma dinâmica que pode ser de normas. é por isso que…

[18:56:45] … falo de singularidades em fuga etc

[18:57:01] fabi borges: pois é

[18:57:38] Hilan Bensusan: a idéia central do livro foi uma que tive em uma linda manhã de sol nas águas belas

[18:57:55] fabi borges: imagina os moradores da rua, os mais terrivelmente parasitas e nomades em uma estranha rebelião que não reivindica participação na sociedade de controle

[18:57:57] Hilan Bensusan: por isso que o capítulo onde ela aparece se chama “areia, enfim”.

[18:58:05] fabi borges: qual idéia

[18:58:20] Hilan Bensusan: seja realista: queira o impossível

[18:58:31] fabi borges: pois é

[18:59:03] Hilan Bensusan: mais maio de 68: eu tomo meus desejos como realidade pois creio na realidade dos meus desejos (grafiti)

[18:59:05] fabi borges: de certo modo o ativismo europeu que reivindica salário vitae e que diz que “nem um ser humano precisa de papéis para existir e ir e vir” é muito corajoso

[18:59:30] … e inventa um impossível

[18:59:39] Hilan Bensusan: sim, mas um pouco inclusivo e um pouco especista

[18:59:55] fabi borges: sei

[19:00:06] … como se fala do queer a partir dele mesmo?

[19:00:53] Hilan Bensusan: é preciso assaltar a linguagem – a linguagem é uma maquina (normativa) de inclusões… por isso eu boto fé na écriture feminine etc

[19:01:09] fabi borges: e mais, como se abre o código de inteligibilidade a essas questões para pessoas que partem do pressuposto de que isso é anarquismo e que eles não se identificam com esse pensamento

[19:01:29] … quando falamos em gestos, estamos super abrindo a linguagem

[19:01:37] … e nos sígnos

[19:03:37] … mas a essa outra escritura, eu boto fé também, mas é preciso ter nuance, eu não sei, nossos artigos me parecem mais de guerrilha urbana do que ecriture feminina eheheheh

[19:04:04] Hilan Bensusan: as singularidades – acho que foi isso que comecei a pensar naquela manhã em águas belas – são assim como a reta de spinoza, não podem ser encontradas se não houver um tempo passando o tempo que vai incluindo mas que sempre fagocita um fora – o que interessa é o fora, não o que está fora (e é o fora que faz as singularidades, e não aquilo que já havia antes de haver fora e dentro)

[19:05:11] fabi borges: em relação ao queer noise isso seria bem o que?

[19:05:28] Hilan Bensusan: eu sei, estamos procurando um tom – e acho que experimentar é a melhor coisa que se pode fazer para fazer política ou escrita política

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Salada de fruta sem meia-laranjas: esquizotrans fazendo gênero

Mandamos uma proposta pro seminário temático sobre configurações de heterossexualidade no Fazendo Gênero de 2008.

Como? Salada de fruta sem meias-laranjas: heterossexualidade radical, transsexualidade radical  

A heterossexualidade pode ser resgatada de uma leitura heteronormativa e falocêntrica a partir do intento de entender a sexualidade dos diferentes, a sexualidade que não envolve nem submissão, nem complementariedade e nem coincidência. Uma idéia assim pode ser extraída da plataforma da heterossexualidade radical, contrastante com a hom(en)-sexualidade, em Irigaray. A heterossexualidade radical abre as portas da erotização da diferença: não é o que satisfaz o um desejo, mas é o que compõe alguma coisa nova com o um desejo – assim, o erotismo da juxtaposição se contrasta com o erotismo do encaixe, da metade da laranja, da forma e do conteúdo. O projeto da heterossexualidade radical – e suas possibilidades de erotismo de juxtaposição sem complementariedade – é frequentemente pensado em termos de diferença sexual. Nosso objetivo é conectar a heterossexualidade radical com alguns projetos queer e trans: projetos de interferência nos corpos e nos desejos e que produzem pessoas sexuadas singulares – cujos desejos não vão encontrar complementares ou idênticos, mas que praticam uma sexualidade do hetero, do outro, uma altersexualidade. Pensar a sexualidade como um caminho de trânsito de identidades já é assumir que os desejos fluem em caminhos singulares e que se encontram como esbarrões – não como a mão encontra a luva.

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