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Barbie trans – já viram uma barbie transexual, travesti, transgênero? clica aqui em baixo:

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Emi Koyama em época de transfilia is the web site for Emi Koyama, the activist/author/academic working on intersex, sex workers’ rights, (queer) domestic violence, genderqueer, anti-racism, and other issues.

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Elizabeth Costello no FIFI-Rio

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Is Del the transintersex esquizotrans dream come true?

We celebrate Del LaGrace Volcano:


On the morning tube
They’re all lookin at me
None of them quite sure
What it is that they see.

DEL: In my day to day life I pass. Usually as male. Occasionally as female. Both passings are a compromise. I possess abundant facial hair and a deep husky voice. I’m read as male and often it is safer and more convenient just to blend into the woodwork like any ordinary bloke. I’m not being seen but sometimes that’s okay. I need to protect myself.

INDRA: I sit next to herm. We are holding hands. My big hand holding herm’s smaller. I pick up on their curious looks, their confused stolen glances, their defiant challenging glares, their insecure gazes. Smiles and whispers. Herm is attracting attention, even when wanting to pass and blend. What part do I play in it? Does my presence make Herm seem more familiar or more strange? Perhaps gender happens between bodies, not within them.

A pretty boy in make-up?
A faggot? A poof?
What they’re praying for
is an ULTIMATE truth.

DEL: There is something ‘feminine’ in the way I look, both in the way I look at you and in the way I am looked at by you. This could be because my face is relatively petite or because I have rather large hazel green eyes and small features neatly balanced on a medium frame. I do have well-defined muscles, that I’m obviously proud of but they don’t really go that far in providing a masculine counter point. To the uniformed I simply look like a gay man who goes to the gym. Occasionally.

INDRA: In my daily gender presentation I’m commonly perceived as traditionally feminine. A tall, white, able-bodied and rather normative looking woman, according to certain prevailing values. I am aware that the way I look gives me privileges in the world. But it partially depends on any number of choices I make. Or don’t make. Choices of clothing, amount of make-up, of the company I keep, of whether and where I shave. And this range of choices is in itself another privilege. However, a lot seems to lie in the eye of the beholder. Some read me as a femme or high femme, others ask themselves if I am a fag hag or a drag queen. I have also had people considering if I might be MTF – a transsexual woman. Seems like I’m no longer passing as normative. What part does herm play in it? Does herm’s presence make me seem stranger, or more familiar?

They look me up and down
searchin for clues
They have no idea
which pronoun to use.

DEL: But I have a great deal of empirical evidence that the major signifier of “manliness” is facial hair regardless of what other signals might be available. Lipstick and a frock on a hirsute muscular frame creates a visceral dissonance in those I encounter. I must be queer with so many clues competing for a pronoun.

INDRA: “What is a woman like her doing with a guy like him?! And what is a guy like him doing with a woman like her?!” Their insulting questions are both subtle and explicit. Voiced and unspoken. I may be perceived as a woman and herm may pass as a man but we cannot ever impersonate a traditional (heterosexual) couple. And nor do we want to. The constellation that we create together seems oddly threatening to those you would think have nothing to fear. Size and symmetry are only two of the notions at stake due to culturally constructed ideas and ideals. “She is taller than he is… he is wearing the skirt… she insists on carrying the heavy bags… and they both wear lipstick!”

But I do not
Those concepts don’t apply
to my intersex tale.

DEL: Out on the street I often feel the need to pass (as male) But in my own queer community I don’t want to pass as male or female. I want to be seen for what I am: a chimera, a hybrid, a herm. However after ten years of living as a herm I begin to question if it is even possible for others to see beyond the binary and validate those of us who chose to live outside of it’s confines as well as those who were never given a chance to.

With this task in mind I judiciously apply a bit of eyebrow pencil to my bottom lashes, (as I’ve done for the past thirty years). I shave my moustache and pencil a new one in. I use red lip pencil blended with vaseline to show off my lips. I want this effect to be subtle, I want it to look like the most ordinary thing in the world to see a hunky guy in a skirt and lippy on the rush hour tube. This is Criss Cross. I’m a Criss Cross Dresser. I use my re-creation-al hermaphroditic body to full effect. If I turn up the volume Blue Vulva emerges, or maybe tonight I let Tess Tickle take center stage, but most often I’m just being Del. A herm who has always loved glitz, glamour, shaving foam, a sharp razor and as many tutus as I can afford.

INDRA: My strategy around gender subversion is inconsistency. Just when you think you know what to expect from me I transform. Vast sliding movements over different positions on the gendered spectrum. Slippery changes. We are talking big metamorphoses sometimes. People, even close friends and loved ones, don’t always recognise me in my different apparitions. Dragking, Dramaqueen, CrossDressed and CrissCrossed. Or just Ordinary Everyday. It’s not simply that I disguise myself well; what they don’t recognize is that I cannot be discovered behind these appearances. If anything I am the differences between them.

So am I doing gender?
Or is gender doing me?
I wonder if you’ll tell me
what it is that YOU see

INDRA: The lenses through which I perceive the world allow me to see more than double. In fact I take in a beautifully shifting kaleidoscopic reality, an amazing mosaic of gender variance and norm deviance. Luckily, I have learnt to count past two and deliberately trained my eyes, and other senses, to detect a multiplicity of gendered possibilities all around and within me. I appreciate, value, respect, desire, admire and love what I see.

Herm Love
Criss cross the line.
Herm Love
Cross it every time.
Herm Love
Times as it takes
Let’s build a bridge that will not break.

Del LaGrace Volcano and Indra Windh, 2003

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O imperativo transcategórico

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A tal Elizabeth Costello no FIFI 2009, Rio, semana passada


Entregêneros literais e entregêneros literários: a filosofia e a ficção do triz

Hilan Bensusan

Esta noite eu vou falar do que está por um triz. Ou por dois, ou por três. Qual é o tamanho de um triz? Há em circulação um falômetro para quem acabou de nascer: se o falômetro indica algum número entre um centímetro e dois centímetros e meio, quem nasceu fica a um triz de ganhar roupas azuis e a um triz de ganhar roupas cor-de-rosa. Quando falta um triz, vamos para o limbo – aquele espaço não-sancionado, abjeto e que quase sempre só pode ser visto em alta velocidade. Ficamos do lado de fora das categorias, onde mora o delírio; do lado de fora das montanhas das curvas normais, onde mora o meandro. No meandro se costuram as tramas. Tramas nunca são feitas de um fio só, nunca ficam num Lócus Solus.

Era uma vez um homem, portando paletó e calças forradas. Ele é visto saindo da casa gradeada, ele tranca a porta e sai para a rua – as meninas gritam: é o ladrão. É assim que se veste o ladrão? Que espécie de ladrão é este portando o paletó do respeito – talvez eu devesse procurar algum triz que tirasse do paletó a qualidade do respeito. Nos trancamos dentro de casa – a rua estava aberta a aquele transeunte que infectava, o ladrão. Eu nunca tinha visto o ladrão. Nunca vi o vadio, nem a esposa exemplar e raras vezes a pipoqueira da esquina – ou qualquer dessas pessoas com o destino gravado em bronze. Trancamos as portas, as janelas e só respiramos o nosso próprio ar.

Esta é a ficção do nosso passado: nós conseguimos, ao fazer milhares e milhões de ficções individuais, ficções criadas por seres humanos individuais, grudar uma na outra para parecer um passado comum – um código de endereçamento postal do que já foi passado, com o passado, o presente e o futuro do passado.

Quando alguém nasce, uma matriz de personagens tenta lhe dar cabimento: mesmos os corpos são corpos de personagens, as curvas são curvas normais.

Os limbos são o contrário das identidades. Os limbos são os declives das curvas normais. O triz fica evidente quando olhamos para os rabos das curvas normais, nos rabos das curvas normais vive o áspero, o refugo, o resto – que são temas para os intelectuais delirados por Ana Cristina Chiara. No resto fica uma multidão de não era bem isso. É o que não desliza, o que não passa despercebido, o que salta aos olhos acostumados a um certo andar das categorias. Quantos trizes fazem uma performance? Uma vida? Quantos centímetros, quantos centilitros de hormônio, quantas centenas de palavras? Dizem que os padrões de ativação do córtex são diferentes entre cis-homens e trans-mulheres. Trans-pessoas são aquelas que fizeram uma transição desde sua categoria de sexo de nascença. Cis-pessoas são aquelas que não atravessaram o Rubicão. Os padrões de ativação são padrões. Uma trans-mulher é um caso de ginefilia – ginefilia? Um apego às mulheres, uma fissura pelo que é feminino: como a cliente que quer o bikini igual ao que viu no corpo da modelo, como o cliente que quer a boneca inflável igual ao corpo da modelo, como uma menina vestindo sua boneca, um menino bolinando debaixo da saia da boneca da sua irmã. O desejo é um alvo. É para lá que eu vou. Eu quem? O desejo move as minhas montanhas, me faz deslizar das montanhas por um triz, passar pelo rabo da curva normal. Desejo e acaso – e as tais curvas normais – que poderoso duo para construir um universo. E a ginefilia, dizem as más línguas, fizeram homens construírem civilizações, destruírem civilizações, construírem civilizações. Quanta ginefilia? As vezes a ginefilia é só um amor a Jocasta, por parte da menina que cresce vendo a mãe cortejada ou cravejada da atenção dos homens. A menina poderia querer ser cortejada por eles, mas sentiu por um triz a mais, a ginefilia deles – a heteroginefilia deles. Não quer só ser uma mulher, quer ter uma mulher. O desejo heterossexual dos homens é ginefílico, mas e quem quer levar ao alvo do desejo seu próprio corpo? Genesis P. -Orridge fez da sua vida uma performance da mulher que amava. Como se faz uma performance assim? Operação, injeção, recombinação, saia-balão – a receita está pelas clínicas e pelos teatros mas é encontrada na rua. As transmulheres tem outro padrão de ativação do córtex, talvez não seja em cada caso muito diferente dos cishomens ensandecidos de ginefilia, umas meia-dúzia de trizes. Alguns homens querem ser as mulheres que querem, alguns homens querem ter as mulheres que querem, alguns homens querem ter os seios das mulheres que querem, alguns homens querem ter as pernas das mulheres que querem; as pernas, as ancas, as nádegas, as costas. Alguns querem possuir os ombros, ter aqueles ombros. O desejo se move de triz em triz.

Estrias, ondulações, dobras, onde a passagem é áspera: há quem puxe de um lado, há quem puxe de outro. Quem escreve está no meio desse cabo de guerra. Quem atua está no meio desse cabo de guerra. Há meia-dúzia de trizes de diferença.

Quem escreve tem convicções apenas provisoriamente: convicções fixas atrapalham o caminho. Muda-se de crenças como quem muda de roupa ou de casa, de acordo com as necessidades. Eu posso oferecer uma simulação das convicções, serve?

Minha mão está a disposição: está para ser ocupada. Outras partes de mim estão a disposição: para serem ocupadas. Há diferença entre simular uma mulher em uma mão de homem e cruzar o Rubicão e ter uma mão de transmulher. Há diferença: uma penca de trizes. Há diferença entre simular uma mulher em um corpo de homem e estar preparado para ouvir Hic Rhodus, hic salta. Há diferença: uma medida de autoginefilia. Querer ter em si mesmo uma mulher. Há diferença entre querer ter uma saia e um par de pernas vestido de meia-calça e querer inserir progesterona e estrogênio. Há diferença: algumas ativações no córtex.  Há diferença entre a Mme Bovary na mão de Flaubert e Orlando; há diferença entre o Proust no corpo da Albertine e os padecimentos e euforias de uma transmulher. A diferença? O trânsito entre a simulação e o desejo: o caminho da possessão. Emperra, empurra, impele, impede, vacila. Uma terra de ninguém entre gêneros, uma rachadura. Várias rachaduras, uma paisagem de erosões: entre escrever e fazer uma performance, entre ter um alvo heterossexual e cultivar uma dose mássica de autoheterofilia, entre ser possuído por uma Pomba-Gira, possuir uma Pomba-Gira e querer fazer uma operação para se tornar uma Pomba-Gira. Entre desejo e simulação. Flaubert tomaria umas cápsulas de hormônio, iria até uma bombadeira?  A possessão vagueia por estados abstratos, particulares; por uns estados de disponibilidade.

A disposição para entrar nos lugares proibidos.  Onde há riscos. Para o público e para si mesmo.

E correr o risco, a possessão é fragmentação, é uma força centrífuga, ela espalha, tritura. Há muitas rachaduras na paisagem, é possível estar dos dois lados de muitas delas. O rio Jordão entre quem só finge e quem deseja, quem é cisdesejo e quem é transdesejo. Um rio de riscos. Os trizes de distância entre o literário e o literal. Mais uma vez há um trânsito químico entre o cisliteral e o transliteral. As substâncias que simulam, simulam o desejo.

Cis e trans, depende da posição de alguém no meandro. Qual é o rio que ainda não foi cruzado. Há medidas de autoandrofilia entre as cismulheres. Beatriz Preciado se tornou uma viciada em Testogel porque era viciada em escrever – e queria um certo ímpeto, um certo estilo, uma certa tranversalidade; queria uma velocidade, uma ignorância, uma atenção. Basta estar a alguns trizes de distância da testosterona em gel para que ele, sem ter sabor, sem ter cheiro, sem deixar marcas, se dissolva na pele como um fantasma que atravessa um muro. Entra sem chamar, entra sem fazer barulho – entra pelo contato. A pele é completa passividade para a possessão: não é necessário cheirar a testosterona, nem fumá-la, nem injetá-la. Basta aproximá-la e a pura vizinhança faz com que ela ocupe os vasos sanguínios fazendo uma performance de outros desejo. A testosterona faz uma microperformance pelos canais do sangue, arregimenta, coordena, compõe, faz uns corpúsculos com o que encontra pela vizinhança, enrijece músculos, desativa cuidados, arremessa os braços que movem os braços. E faz escrever – faz a mão fazer esta performance encurvada, entontecida, paralisante. Beatriz Preciado elocubra a farmacopornografia. Não se trata de transsexualizar, ela quer fixar residência no meio do Rubicão: os sexólogos, dizia Haraway, estão perdendo o controle das pipetas do laboratório da scientia sexualis. O testogel foi dedicado aos cishomens; as proliferações, os cromossomiais desejos, os caules, nem é só a paineira que atira coisas brancas pelo ar – a pirataria do testogel livra Beatriz Preciado do infértil da ninharia das bulas.  Quando é que um corpo é deficitário? Não se trata de faltas, sempre falta – faltam palavras, faltam preconceitos com o texto escrito, o gel faz atravessar a rachadura entre a gender bender e a gender hacker. Preciado diz: “a masculinidade e a femininidade são como a depressão ou a esquizofrenia, ficções médicas definidas unicamente de forma retroativa acerca da molécula com que a qual se tratam”. A simulação tem um caminho de trizes para chegar até o desejo. O que faz o testogel, promove o desejo ou simula o desejo? Deve ser devir. Mas muitas mulheres – ortodoxas, cisdoxas – tomam uma dose de testosterona se esfregando em fontes vivas da droga: em peitos, braços, pernas e regos masculinos. Autoandrofilia? Por um triz ou dois estariam em um transtorno de gênero: levo meu corpo até o macho ou levo o macho até meu corpo – hein?

E os trizes podem ser medidos pela exposição ao testogel. Os envelopes do produto vem em uma medida de 5 gramas. Uma grama, outra grama, mais uma grama. O hormônio se espalha pelo corpo, chega aos espaços entre os dedos, chega aos joelhos, chega aos ovários, chega as axilas, chega ao pulso, as mãos, os dedos, as palavras escritas: ela se sente em um fluxo delicioso de forças que sobem com calma, com uma sensação de potência, de liberdade. Não, não esta máscara; não esta cabeça, ela não a quer, mas aquela que ela vai vestir agora, que fica tão bem, que é do seu gosto – uma cabeça com os mesmos traços que a outra, mas mais duras, mais acentuadas. Inútil trocar olhares… Não haverá mais nada a descobrir, tudo será tão claro, tão evidente. É isso que ela deveria ter feito desde o começo, só as condutas fortes inspiram o respeito. As pessoas vão te aceitar como você é, as pessoas se inclinam, dóceis, olhem-me. Sentiu uma lágrima  na ferida, agradável na sua dor, um bom sangue na liberdade. Começou a se levantar. Queria disparar como se este fosse um contrato. Alguma coisa estava errada. Ao se olhar, no caminho do chuveiro, viu a mancha, uma mancha rosa como se uma pequena framboesa ou talvez uma cereja tivesse se chocado contra sua púbis, colorindo com seus sucos de uma raiz inegavelmente vermelha. Deve ser tinta, mas não saía. Mas não podia sustentar a gargalhada. Se pelo menos pudesse sustentá-la por mais do que alguns segundos, contudo – se ela não fosse tão breve e tão amarga. Atravessa estados particulares, as palavras podem sair elegantes, delicadas, mesmo que cruas. E a substância graciosamente se dissolve, se desmancha, as palavras desfalecem, mudam de viço, como se o Sr. Kepesh, de volta do outro lado do rio Jordão, tivesse ido visitar um médico, Dr. Klinger, que dissesse: “hormônios são hormônios, arte é arte”.

Talvez houvesse um tempo em que certos rios ninguém cruzasse, como se os meandros estivessem sempre por um triz, mas um triz mantido a distância.

Eu espero não estar abusando do privilégio desta plataforma para fazer comentários a toa, sobre quem eu sou ou sobre quem vocês são, meus ouvintes. Esta não foi a lição de nada do que eu falei; eu, que, no entanto, não estou em posição de ditar qual foi a lição de nada do que eu falei. Nós acreditamos que havia um tempo em que nós podíamos dizer quem éramos nós. Agora nós somos apenas performers, apresentando nossos papéis. A parte de baixo caiu. Nós poderíamos pensar nesses eventos como sendo trágicos se não fosse tão difícil ter respeito pelo que quer que fosse a parte de baixo que caiu – isso parece a nós como uma ilusão agora, uma dessas ilusões sustentadas apenas pelo olhar concentrado de cada um na sala. Retirem os olhos apenas por um instante e o espelho cai no chão e se desfaz em cacos.

Os gêneros literários, os gêneros literais – e os interstícios entre eles – são cacos de um espelho em que certos trizes parecem intransponíveis. E todos estes banhistas nadando no Rubicão, no Jordão, perambulando pelas rachaduras. Mas os rios não existem antes das margens. Quem chega a margem pode estar a um triz de nadar no rio: e nesse caso as proliferações de gestos e trejeitos saem do controle dos sexólogos, as proliferações de palavras e estilos saem do controle dos estetas – da margem se pula para a marginalia. Eu desejo você. Eu simulo você. Eu possuo você. Eu escrevo de você. Eu performo você… (Eu amo você)  Eu vou fazer alguma coisa com você, já que você me ocupa, me transtorna, me cistorna, minha cisterna – um bueiro, no meandro das ruas, como a rede de esgotos dos meus gestos. Quanto do meu corpo, do meu tempo, do meu ímpeto eu vou entregar a você? A você, quem? Um espelho, eu preciso de um espelho, eu preciso da minha imagem no espelho.

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Diferenças sexuais agudas

Eu gostava de encontrá-la no ônibus. Ela seguramente me achava gentil, viajávamos por mais de uma hora e meia e eu lhe oferecia os melhores assentos e muitas vezes lhe emprestava meu travesseiro. Depois sentava-me ao seu lado, o mais próximo que pudesse. Era quase sempre o mesmo ritual, de manhã, indo para o centro da cidade, e de noite, voltando, muito mais cansados, mas ainda com a pele sensível aos pequenos esbarrões de que são feitos os prazeres. Era uma estrada longa e repetitiva e quase tudo o que ela falava era o que ela reclamava: a trepidação do ônibus não lhe deixava dormir mais, e ela ficava sempre com a coluna doendo. Ela se interessava em fazer suas queixas, que a aliviavam, em me disparar pequenos sorrisos que eu considerava completamente ambivalentes e em usufruir do conforto da minha companhia segura. E do meu travesseiro. Eu me interessava em lhe emprestar o travesseiro que ficava muito mais confortável depois que ela recostava a cabeça e o pescoço nele, e ficava muito tempo quase dormindo. Eu ficava ao seu lado, nos meandros do quase sono e do desejo constante, imperando com mais vigor quando ela virava-se para a janela, encurvando a coluna na cadeira e invadindo a dobrinha que marca a fronteira entre nossos assentos, com suas costas, suas nádegas e suas coxas – quase sempre bem agasalhadas. Era nesses momentos que roçávamos. Muitas vezes eu congelava meu braço, minha perna ou meu quadril no momento em que nos triscávamos e eu ficava por muitos minutos recebendo doses do calor que vinha do corpo dela, um calor que parecia quase suficiente, liminar, o fim mesmo de qualquer empreitada. Eram minutos de uma ereção permanente e eu levemente passava a mão pela parte da minha calça que vestia o volume, com um misto de estupor e incômodo. Algumas vezes aconteceu que eu olhava em volta e via que todos dormiam a nossa volta, o cobrador talvez fosse o único a cultivar – ou fingir que cultivava – a habilidade de ter um sono quase sem peso, como se fosse possível desperta-lo com uma intenção. E nesses momentos parecia que tudo estava suspenso, se nós nos abraçássemos ali, trocássemos alguns beijos e eu pudesse passar a mão por todo o seu corpo, aquilo ficaria como que suspenso no ar, como um episódio sem começo e nem fim – como diziam que eram os beijos trocados nas baladas escuras: sem conseqüência. Mas o ônibus não era uma balada escura – e nem eu freqüentava baladas. Pensava apenas em fazer um movimento de mão e traze-la para mais junto de mim. Ela sempre era mais rápida, trocava de posição e se afastava de mim; eu desistia sempre provisoriamente. Em alguns minutos acordava, e olhava nos meus olhos para reclamar quanto durava aquela viagem. O ônibus quase todo o tempo em linha reta, nós quase o tempo todo em círculos.

Não falávamos nada de pessoal, eu sabia que ela trabalhava, não sei aonde. Nunca me perguntava nada – só quando nos conhecemos ela me perguntou sobre de onde vinha, qual era o meu nome e se eu gostava de filmes sobre casais se separando. Ela me disse que era seu gênero favorito – o único tipo de filme que ela conseguia assistir até o final. Falávamos muito mal das crianças, sobretudo das que estavam no ônibus, das que choravam quase todo o tempo fazendo a viagem dela ainda mais insuportável. Eu gostava do corpo dela no ônibus, nem precisava conversar com ela. Mas sempre tínhamos alguma coisa para dizer – ela sempre tinha uma queixa e uma esperança vaga de não precisar mais pegar aquele ônibus. Ela às vezes falava do meu cabelo ou das minhas unhas – ela estranhava minha aparência às vezes, porém era um estranhamento inteiramente passageiro. Outras pessoas observavam por mais tempo minha aparência desajeitada, desconjuntada que consideravam descabida – e essas observações eram muito menos que estranhamentos passageiros. Eu é que me assustava por mais tempo com todas essas observações, inclusive as dela: eu nunca me olhava no espelho – já não agüentava mais ver aquilo que eu aparecia, aquele homem nunca foi eu. Minha aparência me atormentava o dia todo; eu buscava coisas que me entretinham até o esquecimento e ela era uma dessas coisas. E eu a encontrava sempre – as viagens de ônibus eram mergulhos longos na distração de como era meu corpo porque dentro do ônibus eu encontrava ela.  Eu queria me dissolver naqueles momentos bem-fundamentados onde umas partes dos nossos corpos se apertavam – queria que meu corpo fosse apenas aquilo que raspa nela; nada mais, nem mesmo o resto dos órgãos exibindo felicidades, nem mesmo meus hormônios que se ocupavam em fazer daquilo algum soar de trombetas, algum prelúdio, alguma preliminar. Apenas queria mais daquilo, queria ter mais daquele corpo que fica esbarrado nela, e não queria nem minhas vísceras postas alhures. Que outro corpo eu poderia querer?

Nunca quis ter um corpo intermediário. É que sempre me assustava ter um corpo ainda mais abjeto. Quando tive a oportunidade de mudar, achei que tinha que mudar muito de uma vez – foram alguns meses, uma pausa na minha vida fora de casa. No máximo aparecia na janela para conversar por alguns minutos com os vizinhos íntimos que passavam para saber se eu precisava de alguma coisa ou para me informar do que se passava do lado de fora quando não tinham tempo de entrar para uma visita. As poucas visitas eram longas, eu contava o que estava acontecendo a cada dia, mostrava os remédios, os produtos de beleza, contava como me sentia e ensaiava estar em ombros e braços mais confortáveis. Eu realmente pensava que estava de mudança – como se meus órgãos estivessem todos empilhados dentro de um caminhão e eu tivesse chegado antes para preparar o novo endereço, esfregar o chão, pintar as paredes, ajeitar a sacada. E era como se eu tivesse indo para onde eu sempre quis morar – em um longo processo em que me excitava ver minhas coisas entulhadas, como se assim elas germinassem o embrião do seu lugar natural. Também sentia que era um processo de correção: fazer minha pele parecer minhas expectativas, meus cheiros terem a forma da minha inquietação – e tinha certeza que estava indo para minha sede definitiva. Eu lia a Bíblia: os relatos daquele povo em diáspora, buscando uma forma de encontrar uma terra sua, prometida, onde nada fosse estrangeiro – eram quase apenas esperanças que me ocupavam todos os dias. E cozinhava. Muito daquele tempo eu passei na cozinha, a idéia de preparar alimentos tinha um apelo ríspido: me tornar alguma coisa que pudesse ser servida, como se até aquele momento eu tivesse sido apenas um monte de ingredientes despreparados, amontoados que não encontravam suas próprias forças. Minha mãe e meu irmão faziam as compras e eu seguia receitas detalhadas, mesmo quando substituíamos a ervilha por umas vagens, os grãos de bico por feijões ou as acelgas por repolhos brancos. Mais do que os ingredientes, me interessava o que fazer com eles. Muitas vezes eu olhava da janela para a parada do ônibus, mesmo sem ter o ângulo para saber quem entrava e descia e quem ficava esperando. Da fresta do banheiro podia ver algumas costas acumuladas quando a parada se enchia, nenhum detalhe. Por uns dias um vizinho emprestou um binóculo – já que eu não saia de casa. Uma dessas manhãs vi seu casaco verde – ela estava esperando o ônibus atrasado, sua pele pareceu aconchegante, um refúgio, na temperatura acertada. Eu quis correr ao seu encontro, mas não fui, teria que pegar o ônibus e ainda não estava na hora, mesmo um mês depois da operação. Eu tinha que sentir que já havia me mudado, que já era suficientemente garota, por mais que tanta gente me dissesse que uma auréola de  inadequação nunca iria completamente embora. Eu só ia sair de casa quando eu não fosse mais aquele homem que eu não gostava de carregar comigo. Era uma chantagem comigo, mas eu confiava que a maior parte das dobras do meu corpo trabalhava sob pressão. Naquela manhã eu apenas voltei para a cama, esfreguei a planta do pé no cobertor; pelo que meus olhos viram, eu conseguia ainda sentir a temperatura protegida da minha pele debruçada na dela. Dizem que todas as partes do corpo ficam em miniatura na planta do pé – pulmões, braços, vesículas, costelas. Eu sentia minhas plantas do pé diferentes a cada dia, o cobertor parecia mais abaulado às minhas bordas, menos fibroso ao calcanhar. Em algum ponto dos pés eu sentia as carnes que podiam estar agora no ônibus, encostadas nela, em êxtase, emaranhadas com outros órgãos, menos ruminantes, menos ardidos, mais incisivos. Todos os outros centímetros eram algum poder fazendo barulho. Eu escutava, e esperava.

A primeira vez que eu saí de casa foi para pegar o ônibus para o centro outra vez. Eu vesti um sapato novo e fechado que meu irmão havia me dado de presente no natal, uma saia longa da minha mãe que eu sempre quis usar e uma camiseta larga, ainda queria meu corpo menos exposto. Eu sentei do lado dela, meu nervosismo mais aparente do que meu corpo inesperado. Ela demorou a me reconhecer – talvez quase meio minuto, trinta segundos me pinicando – mas não me perguntou o que aconteceu comigo, apenas sorriu e disse que eu havia sumido. Eu falei que eu precisei sumir. Ela reclamou do ônibus – cada dia mais cheio – e disse que eu tinha sorte de poder ter ficado tanto tempo sem fazer aquelas viagens agonizantes. Ela chamou as viagens de agonizantes, suspirou e olhou para os lados, mas depois sorriu mais – como se tivesse sentido a minha falta. Ela não se alterou com nada do que eu lhe contei; algumas angústias, a operação, meus meses entre a bíblia e a cozinha. Foram menos de vinte minutos de conversa e ela tentou esticar as pernas e fechou os olhos. Eu entreguei meu travesseiro. Ela sorriu outra vez, um sorriso menos habitual. Minha primeira vez em meses fora de casa. Ela esticou a perna direita um pouco mais para o meu lado, eu não movi a minha. Pus uma mão em cima da minha perna, com o canto da palma roçando o território dela. Procurei um sinal na sua cara, ela parecia sorrir e virar o rosto para a janela. No ônibus quase todo mundo dormia. Mais quieto ainda, por muito tempo o ônibus parado no sinal. A parte que tocava ela era tudo o que eu sentia do meu corpo, o resto parecia ter se dissolvido. Levantei o joelho e encostei a parte do sapato que carrega o calcanhar no seu tornozelo – aquilo sim era um ato deliberado. Ela apertou a perna contra a minha. Saímos do sinal vermelho.

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