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Falo, falo, falo

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Museu Travesti del Perú

El “Museo Travesti del Perú” surge en 2003 y, hasta la fecha, ha mutado de hilván de la memoria y los símbolos del travestismo peruano a proponer los conceptos de “museo”, “travesti” y “Perú” como actitud transformadora y al cuerpo travesti como su documento mutante. Durante su travesía, esta propuesta dialoga con lenguajes familiares tales como el neobarroco latinoamericano (sobre todo Severo Sarduy) que devuelve su mirada mestiza como forma disidente de articulación -la alegoría travesti-, la movilización de los saberes periféricos hacia un centro estratégico que relativiza el saber oficial (Teoría Queer), el desmantelamiento de la producción de sujetos fijos y estrechos para dominar sus cuerpos, conocimientos y relaciones de la identidad -la “mujer” contingente- (Michel Foucault) y la parodia de género como ejercicio de explicitación (Judith Butler).

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Beatriz Preciado e as micro-identidades

Ela diz, em Multidões Queer (2003), que a guerra contra a normatização pode envolver postos de identidade, guerrilhas de identidade a partir de lugares de fala que resistem ao império da norma sexual. Ela recomenda uma composição de estratégias hiper-identitárias e pós-identitárias. Trans, mas também esquizo. Ela escreve assim:

<<Identificações negativas como “bolachas” ou “bichas” se converteram em lugares de produção de identidades que resistem à normalização, que desconfiam do poder totalitário, das chamadas à “universalização”. Influenciadas pela crítica pós-colonial, as teorias queer dos anos 90 têm utilizado os enormes recursos políticos da identificação “gueto”, identificações que iriam ter um novo valor político, dado que pela primeira vez os sujeitos do enunciado eram as próprias bolachas, as bichas, os negros e as pessoas transgênero. Àqueles que ventilam a ameaça da guetização, os movimentos e as teorias queer respondem com estratégias ao mesmo tempo hiper-identitárias e pós-identitárias. Fazem um uso radical dos recursos políticos da produção performativa das identidades desviadas. A força de movimentos como Act Up, Lesbian Avengers ou as Radical Fairies deriva de sua capacidade para utilizar suas posições de sujeitos “abjetos” (esses “maus sujeitos” que são os soropositivos, as bolachas, as bichas) para fazer disso lugares de resistência ao ponto de vista “universal”, à história branca, colonial e hétero do “humano”.>>

O texto completo está aqui:

http://www.4shared.com/file/103948018/f28dc85a/MULTIDES_QUEER.html

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Diferenças sexuais agudas

Eu gostava de encontrá-la no ônibus. Ela seguramente me achava gentil, viajávamos por mais de uma hora e meia e eu lhe oferecia os melhores assentos e muitas vezes lhe emprestava meu travesseiro. Depois sentava-me ao seu lado, o mais próximo que pudesse. Era quase sempre o mesmo ritual, de manhã, indo para o centro da cidade, e de noite, voltando, muito mais cansados, mas ainda com a pele sensível aos pequenos esbarrões de que são feitos os prazeres. Era uma estrada longa e repetitiva e quase tudo o que ela falava era o que ela reclamava: a trepidação do ônibus não lhe deixava dormir mais, e ela ficava sempre com a coluna doendo. Ela se interessava em fazer suas queixas, que a aliviavam, em me disparar pequenos sorrisos que eu considerava completamente ambivalentes e em usufruir do conforto da minha companhia segura. E do meu travesseiro. Eu me interessava em lhe emprestar o travesseiro que ficava muito mais confortável depois que ela recostava a cabeça e o pescoço nele, e ficava muito tempo quase dormindo. Eu ficava ao seu lado, nos meandros do quase sono e do desejo constante, imperando com mais vigor quando ela virava-se para a janela, encurvando a coluna na cadeira e invadindo a dobrinha que marca a fronteira entre nossos assentos, com suas costas, suas nádegas e suas coxas – quase sempre bem agasalhadas. Era nesses momentos que roçávamos. Muitas vezes eu congelava meu braço, minha perna ou meu quadril no momento em que nos triscávamos e eu ficava por muitos minutos recebendo doses do calor que vinha do corpo dela, um calor que parecia quase suficiente, liminar, o fim mesmo de qualquer empreitada. Eram minutos de uma ereção permanente e eu levemente passava a mão pela parte da minha calça que vestia o volume, com um misto de estupor e incômodo. Algumas vezes aconteceu que eu olhava em volta e via que todos dormiam a nossa volta, o cobrador talvez fosse o único a cultivar – ou fingir que cultivava – a habilidade de ter um sono quase sem peso, como se fosse possível desperta-lo com uma intenção. E nesses momentos parecia que tudo estava suspenso, se nós nos abraçássemos ali, trocássemos alguns beijos e eu pudesse passar a mão por todo o seu corpo, aquilo ficaria como que suspenso no ar, como um episódio sem começo e nem fim – como diziam que eram os beijos trocados nas baladas escuras: sem conseqüência. Mas o ônibus não era uma balada escura – e nem eu freqüentava baladas. Pensava apenas em fazer um movimento de mão e traze-la para mais junto de mim. Ela sempre era mais rápida, trocava de posição e se afastava de mim; eu desistia sempre provisoriamente. Em alguns minutos acordava, e olhava nos meus olhos para reclamar quanto durava aquela viagem. O ônibus quase todo o tempo em linha reta, nós quase o tempo todo em círculos.

Não falávamos nada de pessoal, eu sabia que ela trabalhava, não sei aonde. Nunca me perguntava nada – só quando nos conhecemos ela me perguntou sobre de onde vinha, qual era o meu nome e se eu gostava de filmes sobre casais se separando. Ela me disse que era seu gênero favorito – o único tipo de filme que ela conseguia assistir até o final. Falávamos muito mal das crianças, sobretudo das que estavam no ônibus, das que choravam quase todo o tempo fazendo a viagem dela ainda mais insuportável. Eu gostava do corpo dela no ônibus, nem precisava conversar com ela. Mas sempre tínhamos alguma coisa para dizer – ela sempre tinha uma queixa e uma esperança vaga de não precisar mais pegar aquele ônibus. Ela às vezes falava do meu cabelo ou das minhas unhas – ela estranhava minha aparência às vezes, porém era um estranhamento inteiramente passageiro. Outras pessoas observavam por mais tempo minha aparência desajeitada, desconjuntada que consideravam descabida – e essas observações eram muito menos que estranhamentos passageiros. Eu é que me assustava por mais tempo com todas essas observações, inclusive as dela: eu nunca me olhava no espelho – já não agüentava mais ver aquilo que eu aparecia, aquele homem nunca foi eu. Minha aparência me atormentava o dia todo; eu buscava coisas que me entretinham até o esquecimento e ela era uma dessas coisas. E eu a encontrava sempre – as viagens de ônibus eram mergulhos longos na distração de como era meu corpo porque dentro do ônibus eu encontrava ela.  Eu queria me dissolver naqueles momentos bem-fundamentados onde umas partes dos nossos corpos se apertavam – queria que meu corpo fosse apenas aquilo que raspa nela; nada mais, nem mesmo o resto dos órgãos exibindo felicidades, nem mesmo meus hormônios que se ocupavam em fazer daquilo algum soar de trombetas, algum prelúdio, alguma preliminar. Apenas queria mais daquilo, queria ter mais daquele corpo que fica esbarrado nela, e não queria nem minhas vísceras postas alhures. Que outro corpo eu poderia querer?

Nunca quis ter um corpo intermediário. É que sempre me assustava ter um corpo ainda mais abjeto. Quando tive a oportunidade de mudar, achei que tinha que mudar muito de uma vez – foram alguns meses, uma pausa na minha vida fora de casa. No máximo aparecia na janela para conversar por alguns minutos com os vizinhos íntimos que passavam para saber se eu precisava de alguma coisa ou para me informar do que se passava do lado de fora quando não tinham tempo de entrar para uma visita. As poucas visitas eram longas, eu contava o que estava acontecendo a cada dia, mostrava os remédios, os produtos de beleza, contava como me sentia e ensaiava estar em ombros e braços mais confortáveis. Eu realmente pensava que estava de mudança – como se meus órgãos estivessem todos empilhados dentro de um caminhão e eu tivesse chegado antes para preparar o novo endereço, esfregar o chão, pintar as paredes, ajeitar a sacada. E era como se eu tivesse indo para onde eu sempre quis morar – em um longo processo em que me excitava ver minhas coisas entulhadas, como se assim elas germinassem o embrião do seu lugar natural. Também sentia que era um processo de correção: fazer minha pele parecer minhas expectativas, meus cheiros terem a forma da minha inquietação – e tinha certeza que estava indo para minha sede definitiva. Eu lia a Bíblia: os relatos daquele povo em diáspora, buscando uma forma de encontrar uma terra sua, prometida, onde nada fosse estrangeiro – eram quase apenas esperanças que me ocupavam todos os dias. E cozinhava. Muito daquele tempo eu passei na cozinha, a idéia de preparar alimentos tinha um apelo ríspido: me tornar alguma coisa que pudesse ser servida, como se até aquele momento eu tivesse sido apenas um monte de ingredientes despreparados, amontoados que não encontravam suas próprias forças. Minha mãe e meu irmão faziam as compras e eu seguia receitas detalhadas, mesmo quando substituíamos a ervilha por umas vagens, os grãos de bico por feijões ou as acelgas por repolhos brancos. Mais do que os ingredientes, me interessava o que fazer com eles. Muitas vezes eu olhava da janela para a parada do ônibus, mesmo sem ter o ângulo para saber quem entrava e descia e quem ficava esperando. Da fresta do banheiro podia ver algumas costas acumuladas quando a parada se enchia, nenhum detalhe. Por uns dias um vizinho emprestou um binóculo – já que eu não saia de casa. Uma dessas manhãs vi seu casaco verde – ela estava esperando o ônibus atrasado, sua pele pareceu aconchegante, um refúgio, na temperatura acertada. Eu quis correr ao seu encontro, mas não fui, teria que pegar o ônibus e ainda não estava na hora, mesmo um mês depois da operação. Eu tinha que sentir que já havia me mudado, que já era suficientemente garota, por mais que tanta gente me dissesse que uma auréola de  inadequação nunca iria completamente embora. Eu só ia sair de casa quando eu não fosse mais aquele homem que eu não gostava de carregar comigo. Era uma chantagem comigo, mas eu confiava que a maior parte das dobras do meu corpo trabalhava sob pressão. Naquela manhã eu apenas voltei para a cama, esfreguei a planta do pé no cobertor; pelo que meus olhos viram, eu conseguia ainda sentir a temperatura protegida da minha pele debruçada na dela. Dizem que todas as partes do corpo ficam em miniatura na planta do pé – pulmões, braços, vesículas, costelas. Eu sentia minhas plantas do pé diferentes a cada dia, o cobertor parecia mais abaulado às minhas bordas, menos fibroso ao calcanhar. Em algum ponto dos pés eu sentia as carnes que podiam estar agora no ônibus, encostadas nela, em êxtase, emaranhadas com outros órgãos, menos ruminantes, menos ardidos, mais incisivos. Todos os outros centímetros eram algum poder fazendo barulho. Eu escutava, e esperava.

A primeira vez que eu saí de casa foi para pegar o ônibus para o centro outra vez. Eu vesti um sapato novo e fechado que meu irmão havia me dado de presente no natal, uma saia longa da minha mãe que eu sempre quis usar e uma camiseta larga, ainda queria meu corpo menos exposto. Eu sentei do lado dela, meu nervosismo mais aparente do que meu corpo inesperado. Ela demorou a me reconhecer – talvez quase meio minuto, trinta segundos me pinicando – mas não me perguntou o que aconteceu comigo, apenas sorriu e disse que eu havia sumido. Eu falei que eu precisei sumir. Ela reclamou do ônibus – cada dia mais cheio – e disse que eu tinha sorte de poder ter ficado tanto tempo sem fazer aquelas viagens agonizantes. Ela chamou as viagens de agonizantes, suspirou e olhou para os lados, mas depois sorriu mais – como se tivesse sentido a minha falta. Ela não se alterou com nada do que eu lhe contei; algumas angústias, a operação, meus meses entre a bíblia e a cozinha. Foram menos de vinte minutos de conversa e ela tentou esticar as pernas e fechou os olhos. Eu entreguei meu travesseiro. Ela sorriu outra vez, um sorriso menos habitual. Minha primeira vez em meses fora de casa. Ela esticou a perna direita um pouco mais para o meu lado, eu não movi a minha. Pus uma mão em cima da minha perna, com o canto da palma roçando o território dela. Procurei um sinal na sua cara, ela parecia sorrir e virar o rosto para a janela. No ônibus quase todo mundo dormia. Mais quieto ainda, por muito tempo o ônibus parado no sinal. A parte que tocava ela era tudo o que eu sentia do meu corpo, o resto parecia ter se dissolvido. Levantei o joelho e encostei a parte do sapato que carrega o calcanhar no seu tornozelo – aquilo sim era um ato deliberado. Ela apertou a perna contra a minha. Saímos do sinal vermelho.

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Gabriela Leite lança Filha, Mãe, Avó e P.

Gabriela Leite está soltando um livro sobre sua vida puta. É ontologia pura. Ontologia puta. Que ela pariu.
O erotismo, o orgasmo, os lapsos de lucidez são parte dos comércios a afeto, a presentes ou a dinheiro. E espalhar erotismo é trabalho, é militância, é ativismo. Sempre há economia. Muitas economias. Ou então nem arrumem a casa, deixem a vassoura largada na porta e saiam pelas ruas, nossa casa é nossa rua – em linha reta. Ou fazemos as voltinhas, o chamego vale o feijão, a lambida vale o lero. Gabriela Leite (MILK) ferve.
Uma entrevista com ela:
“Trabalhadora do sexo é hipocrisia”
Dom, 19 de Abril
Gabriela Leite, criadora da ONG Davida, diz que seria bom que os nomes considerados palavrões se tornassem comuns e lança livro explicando por que, mesmo não precisando, decidiu ser prostituta. Hoje, aos 51 anos, há duas décadas dedicada às causas das trabalhadoras do sexo e criadora da ONG Davida, de onde surgiu a grife Daspu, ela lança seu livro de memórias. Filha, mãe, avó e p… (Editora Objetiva) conta a história desta decisão e os caminhos por onde ela passou, além de orientar suas “colegas” em relação à profissão.

Martha Mendonça – revista Época
A filósofa paulistana Gabriela Leite não precisava ser prostituta, mas decidiu que esta seria sua profissão. Hoje, aos 51 anos, há duas décadas dedicada às causas das trabalhadoras do sexo e criadora da ONG Davida, de onde surgiu a grife Daspu, ela lança seu livro de memórias. Filha, mãe, avó e p… (Editora Objetiva) conta a história desta decisão e os caminhos por onde ela passou, além de orientar suas “colegas” em relação à profissão. Casada, duas filhas e uma neta, Gabriela garante que não tem nenhuma vergonha de seu passado. Quando alguém pergunta, não hesita em dizer que é “prostituta aposentada” – mesmo sabendo que vai chocar seu interlocutor. Também não desaconselharia sua neta, caso ela quisesse seguir a mesma profissão. “Eu diria apenas que ela lutasse por seus direitos”, afirma.
ÉPOCA – Por que você escreveu este livro?
Gabriela Leite –
Sempre quis escrever alguma coisa sobre o que já vivi. Acho que boas histórias merecem ser contadas. Há três anos recebi o convite da editora Objetiva e comecei. Demorei a entregar. Escrever foi dolorido, lembrar de certas coisas não foi fácil.
ÉPOCA – Você não virou prostituta por dificuldades financeiras, mas, nas suas próprias palavras, “por curiosidade e pela vontade de fazer uma revolução pessoal”. Pode explicar isso melhor?
Gabriela –
Sempre gostei muito da noite. Meu pai foi crupiê profissional. Ele estava sempre elegante, esse glamour da década de 50 me impressionava. Quando eu era estudante, ficava num bar e via as meninas que frequentavam uma boate embaixo do hotel Hilton, em São Paulo. Achava muito charmoso, queria saber como era viver aquilo. No fundo, eu queria trabalhar na noite. Além disso, sou da geração da virada. Fui criada para casar virgem, mas depois inventaram a pílula, a liberdade começou e tudo mudou. Eu era uma bobinha, queria aprender mais. Achei que ser prostituta seria uma forma de conhecer muita coisa.
ÉPOCA – Você alguma vez sentiu vergonha por ser ou por ter sido prostituta?
Gabriela –
Jamais. Não me sinto carregando nenhum estigma. No começo da vida na prostituição, senti o peso. Hoje gosto, tenho orgulho. No livro, não foi nada difícil escrever sobre prostituição. Saiu tão fácil quanto comer arroz com feijão. Difícil foi relembrar outras coisas, familiares, afetivas.
ÉPOCA – O preconceito hoje é menor do que quando você estava na ativa?
Gabriela –
É menor, sim, mas ainda existe muita hipocrisia. Ainda querem manter a prostituta no escuro do mundo. Outro dia eu estava num bar e havia um senhor destes solitários, que fica puxando conversa com todo mundo. Eu estava com umas amigas e lá pelas tantas ele perguntou o que nós fazíamos. Respondi: sou prostituta aposentada. Ele levou um susto: “O que é isso, minha senhora? Se é verdade, não precisava ficar falando por aí! Hoje a senhora era uma mulher direita. Esconda o passado!” Mas é verdade que diminuiu bastante. As prostitutas das novelas são sempre amadas, como a Bebel da Camila Pitanga em Paraíso Tropical. Ela fez laboratório conosco para viver o papel.
ÉPOCA – Esse personagem foi um marco para as prostitutas?
Gabriela –
Sim. Ela começou com um papel coadjuvante e virou a personagem mais querida da novela. As novelas brasileiras são muito importantes na formação cultural do país. Numa novela mais antiga, Laços de Família, a Giovanna Antonelli viveu a Capitu, uma garota de programa. Mas ela sofria demais, sabe? A Bebel era mais parecida com a realidade das prostitutas, que são alegres, irreverentes.
ÉPOCA – Mas não existe uma tendência a se romantizar a vida da prostituta?
Gabriela –
O que existe são dois polos opostos: ou se romantiza ou se apresenta como pior do que realmente é. Ambos são falsos e não ajudam as pessoas a entender o que realmente é esta vida.
ÉPOCA – Como suas filhas e sua neta encaram a sua exposição como prostituta e o lançamento do livro com suas histórias?
Gabriela –
Minha neta de 16 anos acha tudo maravilhoso, ela é uma fã da história e não tem preconceito. Já com as minhas filhas é diferente, houve altos e baixos. Eu as compreendo. Elas sofreram na escola. Elas eram o maior palavrão da sociedade, eram as filhas da p… Não foi fácil. Fui mãe solteira das duas. Não de clientes, mas de homens que eu amei.
ÉPOCA – Se uma de duas filhas ou sua neta resolvesse ser prostituta, qual seria a sua reação?
Gabriela –
Eu diria a elas que, na baixa prostituição, as condições não são boas. Mas existe a alta prostituição, onde a situação é melhor e se ganha mais. Mais do que tudo, elas precisariam ser batalhadoras, como eu, que me dediquei à luta pelos direitos da classe.
ÉPOCA – Por que você largou a prostituição?
Gabriela –
A militância me tirou do trabalho. Aos poucos eu tinha pouco tempo para atender os clientes e fui, naturalmente, me aposentando. Mas não foi fácil.
ÉPOCA – Por quê?
Gabriela –
Foi um choque para mim. Eu morava na Vila Mimosa, região de prostituição no Rio. Saí de lá e passei muito tempo para lá e para cá com uma sacolinha, que era a minha mala. Lá dentro tinha umas roupas, calcinha, xampu, sabonete. Não tinha mais casa, não podia mais morar na zona se não estava mais na ativa. Então ficava em casa de amigas, viajava para formar associações e me hospedava onde podia, como hotéis baratos. Deixei minhas coisas no guarda-móveis e demorei muito a fixar residência de novo. A mudança me abalou muito.
ÉPOCA – E seu marido? Quando vocês se conheceram, você ainda trabalhava como prostituta?
Gabriela –
Sim, nós nos conhecemos numa ONG em que ele trabalhava e me aproximei para parcerias ligadas aos direitos das prostitutas. Ele não demonstrou preconceito. Começamos meio de bobeira, depois é que foi ficando mais sério. Ele é muito especial. Não poderia ser outro homem.
ÉPOCA – No livro, você fala dos mandamentos das prostitutas. Um deles é jamais se apaixonar por um cliente. Nunca aconteceu com você?
Gabriela –
Nunca. Eu até me divertia, podia ter prazer. Mas me apaixonar, jamais. Ter relação com um cliente é uma chatice. Mas há muitas profissionais que anseiam por um dia se casar com um cliente. O problema é que, na primeira briga, eles vão jogar na cara delas: “Se não fosse eu, você ainda estaria na zona”. Não dá certo. Homens são complicados, se sentem donos das mulheres. Eu me apaixonava por outros homens. Apesar de morar na zona, eu frequentava samba, gafieira e conhecia muita gente.
ÉPOCA – Outro mandamento é não ter cafetão. Você nunca teve?
Gabriela –
Não. No começo eu era bobinha e um português chegou a se aproximar de mim, me convencer. Mas logo senti a pressão e fui embora. Imagina, ganhar dinheiro e dar tudo para outra pessoa que fica controlando sua vida e muitas vezes é violento. O ideal é ficar longe. Hoje oriento as prostitutas para isso e a grande maioria trabalha sozinha. Os ventos da libertação das mulheres chegaram à zona.
ÉPOCA – No seu relato, você fala que há muitas prostitutas lésbicas. Arrisca alguma explicação para isso?
Gabriela –
Há quem diga que as prostitutas ficam de saco cheio dos homens. Ou talvez pareça que há mais lésbicas no universo das prostitutas porque há mais liberdade, menos preconceito, para expor as preferências sexuais.
ÉPOCA – Quais são os seus preconceitos?
Gabriela –
Em termos morais, nenhum. Mas tenho preconceito com o politicamente correto, que limita o mundo, engessa as pessoas e crias definições simplistas para coisas complexas.
ÉPOCA – Como a prostituta prefere ser chamada? Há tantos nomes.
Gabriela –
As minhas colegas das América Latina detestam ser chamadas de prostitutas ou putas. Gostam de “trabalhadoras do sexo”. No Brasil, também gostam de “profissionais do sexo”. Mas, na minha opinião, isso também preconceito. Seria bom é que os nomes considerados palavrões se tornassem comuns, sem a carga que têm hoje. Por exemplo: p… é um nome forte, sonoro. Gosto de ser chamada de p…, prostituta. Meretriz, então, acho lindo.
ÉPOCA – Você teme as críticas ao seu livro?
Gabriela –
Outro dia um site falou do meu livro e, nos comentários, um leitor me xingou, disse que eu não valia nada. Por outro lado, recebi o email de uma mulher que achou o meu livro lindo. Está chegando às livrarias esta semana. Vamos esperar pra ver.

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Esquizotrans e a manhã seguinte do queer: subversão não tem dono

A subversão da sexualidade é virótica demais para ser deixada nas mãos de mamutes, hipopótamos, partidos ou movimentos que escolheram seus inimigos. “Esquizo” em esquizotrans é queer, é militância para dissolver a adaga da binariedade sexual – é a parte que insinua que sexismo emerge de normas de comportamento e de formulação de suposição sobre o corpo das outras guiadas pela binariedade. Confundir o que enxergamos como macho, como fêmea. O esquizo é drag, o queer tem um pau feminino, um par de seios de sujeito homem. E esquizotrans é “trans”, desconfia de um cissexualismo subreptício que se aloja debaixo da pele de muita gente com conforto – um cissexualismo transfóbico e muitas vezes trans-misógino. Sem ser trans, periga o queer se cissexualizar.

Julia Serano compara o movimento queer dos anos 90 ao feminismo cultural dos anos 70. Ela cita Alice Echols: o feminismo radical era um movimento de empoderamento contra as amarras do sexismo enquanto o feminismo cultural passou a escolher inimigo. Serano compara então o feminismo radical com o Queer Nation (promovendo beijos coletivos no meio dos shopping centers os mais straights) e com o Transexual Menace de Riki Wilchins. Em seguida, ela suspeita, alguns movimento queer deixaram de ser infiltração e passaram a se pautar por nós-vs-eles. E tudo aquilo que não é suficientemente anti-binarista não pode ser suficientemente subversivo. Julia é MTF e suas amigas transmulheres muitas vezes se sentem desconfortáveis em eventos queer – elas são vistas como conformistas porque abandonaram um estado de queerness (eram homens que se identificavam com um corpo feminino no espelho, eram homens autoginefílicos, eram transgênero em suas performances) para se encaixar no espaço binário de ter um corpo de mulher. É como se não houvesse espaço senão para a inconformidade com a diferença sexual: esquizotrans não quer traçar limites entre corpo e atitude – com a diferença sexual se faz muitas coisas,ignorá-la é uma delas, podemos também retorcê-la, transitá-la, amassá-la, embrulhá-la com um papel anti-cissexual, virá-la de cabeça para baixo. É, de novo, o tema de se a diferença sexual implica heteronormatividade. E Julia Serano diz: em nome disso, o movimento queer pode estar gerando suas próprias Janice Raymonds e Thomas Kandos. Ou seja, criar um monstro de transfobia cissexista em que uma transmulher é acusada, outra vez, de ser invasora, espiã, agente duplo – desta vez nas fileiras da heteronormatividade. Descasque o tomate como você quiser, antibinariedade não é (nem suficiente e nem necessária para garantir) antisexismo.

Queer, por vezes, arreda um milímetro antes da natureza: como se o corpo fosse disforme e dele pudermos fazer o que quisermos – sim, temos genitálias sem órgãos. Contudo, as genitálias podem ser também manipuladas e Kate Bornstein pode ter uma genitália sem órgãos feminina no lugar da masculina – a performance não para na fronteira do corpo, não reconhece matéria prima; qualquer matéria pode pegar e trair sua prima. Julia Serano teme que “a cissexualização do transgenerismo teve consequencias devastadoras para a habilidade de transsexuais de articular nossa própria perspectiva do […] ativismo. Ao invés de sermos ouvidas e apreciadas nos nossos próprios termos, nos somos forçadas a aderir a retórica LG e a alguns valores para termos voz na nossa propria comunidade. […] Meu medo é que uma tendência homogenizadora seja a oportunidade perdida de ouvirmos várias vozes e mudar as mentes do público em geral. […] Ninguém tem conhecimento superior quanto a sexo e gênero.” (The Future of Queer/Trans Activism, in: Whipping Girl: A Transsexual Woman on Sexism and the Scapegoating of Femininity, p. 356-8).  Subversão pode vir de toda parte – binarismo não é conformismo e nem antibinarismo é já subversão – já que os corpos estão embrenhados em inteligibilidade. As batalhas da inteligibilidade não podem ser alheias a como as pessoas começam interpretando os corpos; o número 2 faz parte da matriz – e a matriz pode ser arremessada contra a heteronormatividade.  Subversão dos desejos é vertigem, são olhos tontos, genitálias em queda livre: ela pode vir de toda parte, não há trincheiras, não há exércitos formados e nem adianta fazer fortalezas ao longo de uma linha Maginot.

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